Boneca russa

9 ago

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Não tenho por costume pautar minhas escolhas de aquisições literárias usando critérios como “este é o livro número um do New York times essa semana e…” ou alguma lista de destaques em suplementos culturais fornecidos nos próprios caixas das livrarias que querem me vender as obras ali expostas. Não é pedantismo nem ares falsos de intelectualismo excludente: é, como já disse, costume.

No entanto, não há como exultar o fato de que por vezes, escolhas de público e crítica especializada convergem, listagens de ‘mais vendidos’ acertam na mosca e que, como nos quatro primeiros álbuns compostos ajuntamentos de singles e versões mersey beat de quatro acordes dos Beatles, por vezes, algo pode ser extremamente ‘pop‘ e singelo (quase ao nível do mar), sem pretensões filosóficas densas e ostensivas, e, ao mesmo tempo, extremamente qualificado.

É o que parece ter acontecido com Jöel Dicker, suíço que, com quase trinta anos, escreveu “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert”: o livro exibe a saga de Marcus, um escritor que – com quase trinta anos – vive um bloqueio criativo e vai se refugiar na casa de praia de seu mentor e ídolo, Harry Quebert (do título), para recarregar as baterias na pacata costa leste estadunidense e descobrir como o veterano, certa vez, venceu uma crise criativa para escrever seu mais famoso rebento literário (o, tido por grande romance americano do século,  “As origens do mal“).

A ironia poderia ficar circulando em torno das agruras da vida editorial, de tudo que vem fácil com o status de celebridade a nível global (e escoa fácil, igualmente no mesmo contexto) e das idiossincrasias do universo da escrita e da consequente indústria que lhe opera nos bastidores. Tudo isso está no livro, mas há (bem) mais: quase imediatamente após descobrir que, à época de parir o seu grande sucesso, Harry (uma mistura inusitada de Ernest Hemingway que por vezes descamba para a fragilidade de um Bill Murray de alguns dos filmes de Wes Anderson) mantinha um ‘caso‘ secreto com uma jovem de 15 anos que há três décadas desaparecera estranhamente sem deixar vestígios para a polícia local, Marcus é, como todos na localidade e no país inteiro, pego de surpresa. Uma escavação de rotina para jardinagem revela que a ossada da jovem esteve durante todo esse tempo enterrada no quintal da propriedade de Harry.

Como chegou ali? Quem enterrou seu cadáver assassinado e, por óbvio, quem (além do lógico suspeito, Harry Quebert – que veementemente nega o envolvimento com o ocorrido) poderia ter matado a jovem e doce Nola Kellergan?

No desenrolar da trama, o protagonista Marcus já não sabe exatamente se está investigando um caso por conta própria para inocentar seu professor, guru e amigo, se está tão curioso como todos tablóides sensacionalistas, se está envolto em um senso de justiça que não pouparia nem Harry em caso de culpa – ou se está, singelamente, construindo a teia para uma nova obra que teimava em não ganhar a luz do dia.

Praticamente todos elementos de uma boa trama policial se fazem sonoramente presentes na narrativa de Dicker: a vida supostamente pacata em uma cidade do interior de New Hampshire e seus costumes pitorescos (e sinistros), o envolvimento (direto, paralelo ou tangencial) que todos habitantes escondem ou despistam que possuem com o caso da morte de Nola, as reviravoltas (muito plausíveis e bem construídas) em relação à suspeita principal – e tudo de modo deliciosamente tendente ao clichê (mas sem cair na vala comum que tornaria o livro desnecessário e ruim) fica guardado até o último suspiro do livro.

Fora isso, Dicker – em uma auto-ironia (ou auto-sarcasmo) sensacional – explora com maestria (no limite antes de cruzar a fronteira com a pieguice) a estratégia do “livro dentro do livro” (que se revela, depois, mais complexa do que parece: mais de um livro dentro de outro, e pitadas bem vindas de meta-narrativa).

A diversão proporcionada pela leitura opera em níveis sensoriais absurdos: do tipo de livro que justifica um comentário vintage – mas pobre, retoricamente – a respeito da dificuldade que o leitor tem em largar a obra, página após página. Aliás: suas quase seiscentas páginas só não passaram mais voando para mim porque eu tratei de retardar, o que pude, da velocidade da leitura.

Do tipo de livo que, inesperadamente, ao concluir, repousei sobre a cabeceira e aplaudi. De pé. Está longe do panteão clássico da literatura, mas, diabos: é bom demais. Dá vontade de dançar.

“I wanna hold your hand”.

“O Gabriel me rodou”

24 jul
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Foto do livro-registro da ‘sentença’ que condenou Tiradentes e demais Inconfidentes. Meio tremida eis que está dentro de um museu de Ouro Preto-MG cuja placa, acima, dizia expressamente em letras garrafais que era proibido bater fotos como essa aí.

 

Há uma coisa que quase sempre deixo claro no primeiro dia de aula nas turmas onde leciono: aceito (e procuro, inclusive, aproveitar) de bom grado as críticas construtivas que eventualmente me forem feitas, mas que, em contrapartida, gostaria que a turma firmasse o compromisso que não pessoalizar indiscriminadamente as reclamações em causa própria como se estivessem defendendo um interesse ético maior.

Em bom português: acho engraçado, por exemplo, a disparidade que existe entre um aluno(a) que tira uma nota excelente em uma prova/avaliação e – feliz que só – brada, altivo, aos quatro ventos: Tirei 9,5 em Processo Penal!“. Do mesmo modo, esse mesmo aluno(a), por vezes, é o mesmo que ao ter um revés no semestre, confidencia à boca pequena, pelos corredores: “O professor me deu 3,0” ou, melhor (pior, dependendo do ponto de vista): “O Gabriel me rodou“.

Nada que a famosa frase de para-choque de carreta atribuída ao patriarca da família Simpson não resolva: a culpa é minha e por isso boto ela em quem eu quiser.

Vida que segue.

Hoje, no entanto, uma coisa que há tempos martela minha cabeça desabrochou em forma de reflexão, ao ver o noticiário aquele de um pouco depois do almoço e um pouco antes de a cafeteira chiar: dentre toda essa situação em razão das prisões, detenções, solturas e inquérito envolvendo os manifestantes que supostamente exerceriam liderança dos atos de protestos violentos dos últimos tempos no Rio de Janeiro e estariam supostamente envolvidos na morte de um cinegrafista que cobria um desses atos e teria sido alvejado por um rojão em Fevereiro último, o nome do Desembargador Siro Darlan só não é mais mencionado pela imprensa do que o apelido da investigada Elisa Quadros, candidamente alcunhada de ‘Sininho‘.

Comecei a organizar uns arquivos mentais aqui e me dei conta de que não apenas não é raro, como é praxe jornalística, sempre que possível, vincular às matérias dotadas desse tipo de cunho polêmico o nome expresso do magistrado responsável – sempre, claro, que esse mesmo magistrado oferecer à público uma decisão que não se coaduna com a opinião média do publico consumidor e/ou não se pautar pelo conservadorismo que volta e meia torce do avesso uma que outra regra legal ou princípio constitucional.

Diante do fato de que o Desembargador em questão quebrou ao meio a cadeia de suposições que podem – bem verdade – render um ‘faro’ ou ‘indício de suspeita’ por parte dos investigados, mas que jamais poderiam servir para uso indiscriminado desse instrumento arcaico e estúpido que é a “prisão temporária” (facilmente perceptível como um tipo de prisão criado apenas para facilitar a constrição em casos onde a verdadeira prisão cautelar por excelência, a preventiva – seria de concessão mais rigorosa), muito menos para um levante como se aqui se estivesse falando de um genuíno combate ao ‘terrorismo‘ (em dias – mais uns – de pessoas morrendo em Gaza após explosões de mísseis, no mínimo, algo de mal gosto, e no máximo um exagero brutal).

“A justiça mandou prender – diz o jornal. “O Desembargador (nome completo) mandou soltar”, diz a outra página. É assim com solturas, é assim, com manutenções de posse em casos de conflitos de território e demarcações, é assim com toda e qualquer decisão que não esteja nos ‘conformes’ da análise mediana para o caso, como se todo arcabouço jurídico-penal-constitucional com o qual se trabalha fosse uma mera bobajada que pudesse ser a todo instante sobrepujada pela técnica do ‘bumba meu boi’ que, por sua vez, é sempre quem veste (ou tenta se fazer vestir) as fardas da “justiça efetiva” (e quem me conhece sabe que sou o último a quem se poderia aplicar a pecha de ‘legalista’ ou de fã incondicional da ‘jurisdicionalidade’ na resolução de conflitos e pendengas afins).

Nada mal para um país no qual o Código de Processo Penal em sua gênese estabelece que decisões que concedem uma ordem de habeas corpus precisam necessariamente passar por um reexame (ainda que a parte responsável pela acusação do réu tenha ela própria se contentado com a decisão, aceitando seu teor e deixando voluntariamente de recorrer). Como se algumas decisões estivesse ‘incorretas’ na matriz diante de seu conteúdo.

Não vejo porque livrar os magistrados de críticas (merecidas), sempre que suas decisões optarem pela má, ou menos recomendável, aplicação das regras e princípios acopláveis ao caso, ou mesmo quando a própria aplicação da lei vem com lapso ou ausência de bom senso. O que noto, e de forma alarmante, com mais e mais vazão, é que todos setores da imprensa hegemônica encontraram nesse mister uma prática protocolar: o ataque pessoalizado ao magistrado em conjunto à série de denúncias eventualmente exaradas contra os ‘suspeitos’. Quando não se ataca ou reverbera mais a decisão do magistrado do que o próprio ato supostamente cometido pelos ‘delinquentes’.

E o que entristece é que o nível da discussão segue baixo, beirando a falta de abastecimento, uma vez que qualquer explicação jurídica para a decisão entra por um ouvido e sai pelo ralo de algumas redações e agências noticiosas que insuflam os destinatários da informação a se manter no estado de transe: seria possível e saudável discutir as explicações e o teor das decisões, mas é um estágio até onde o preguiçoso elevador de alguns não deseja subir – ou para o qual o botão está emperrado.

Responda, por fim, rápido: quantas vezes você já viu alguma reportagem escandalizada e em tom alarmante sobre um juiz/desembargador que jamais concedeu uma ordem de soltura sequer em toda sua vida pública de mais de duas décadas? (Sim, existe, e tão próximo que a decência me impele a parar por aqui). Quantas vezes você viu reportagens, especiais, matérias e manchetes ostensivas e sites sobre juízes (ou promotores, ou procuradores, ou delegados) que são acometidos pela síndrome do faroeste e tomam o cargo, toga ou delegacia como central de desmandos absurdos e ridículos que são derrubados assim que uma instância superior ou diversa minimamente mais organizada assume o leme da situação?

Compare isso com o incontável número de vezes que uma decisão de um magistrado foi contra a maré e foi atacada por esse fator, exclusivamente, deixando-se (propositalmente) à margem da discussão o seu teor real, ou, em último caso, o que diz a lei, mesmo, sobre tal imbróglio? Some-se a isso uma mídia que é ‘esclarecida’ e que parece, por vezes, apurar a fundo os factuais apenas nos dias ímpares, e temos aí uma bela dose de hipocrisia.

Esse é o ponto.

Eu – exclusivamente eu, mea maxima culpa – sigo rodando pessoas, apesar da incoerência do quadro geral.

Tumbling Dice

9 jun

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Dados.

Quando passei a morar no interior do Rio Grande do Sul, ao contrário de algumas – rasas – expectativas, meus índices ideológicos de bairrismo (já baixos), sina que muito se coloca como inata pelo imaginário pátrio na totalidade dos gaúchos, passaram a diminuir ainda mais. Só deus sabe o quanto não pode ser imputada a mim a pecha de enaltecer qualquer coisa relativa ao estado de nascença. Bem pelo contrário, aliás: sou mais um que crê que inverdades forçadas ao status de lenda contribuem para a piora cultural e social (em sentido amplo) e não para atochar grosseiramente uma situação irreal e colher os louros das aparências.

Chama a atenção, pois, o parafuso neuronal  em que alguns devem entrar a cada troca de orientação ideológica/político-partidária no governo do estado (sendo a polarização político-partidária às raias da loucura outra paixão desmedida gaúcha nos moldes do bairrismo que vive a enaltecer as coxilhas  locais): como – na mente de alguns – se coadunaria a necessidade de exaltar o estado como o paraíso vivo das pessoas ‘mais cultas’ e das lavouras mais ‘férteis’ (céu, sol, sul, terra e cor) e da gente ‘mais trabalhadora’ com a igual necessidade de não propagar nada que possa servir à propaganda ou ao elogio – ainda que mediato – aos adversário?

A declaração pública recente de uma das figuras mais emblemáticas do empresariado de raízes sulistas, Jorge Gerdau Johannpeter, de que o gaúcho é “acomodado” no estágio intermediário entre a felicidade e a alienação, e que os baixos índices de crescimento econômico do estado refletiriam isso, é azeda para ambos ‘lados’: certamente agrada caciques oligárquico-conservadores por chapuletar quem atualmente está na vitrine (Tarso Genro – PT, e toda a relação conturbada que esses dois polos evocam, ainda que em tese, desnecessária de ser aqui (re)inventariada) e pelo fato de que embasa uma suposta necessidade de maior implemento e investimento no setor. Porém, há um gosto amargo nesse verbete: para além da disputa partidária, há um brio que saiu chamuscado pelo grande gestor ícone multinacional dos pampas – e sua ‘acusação’ não faz servir o chapéu apenas em fãs de estatizações, mas no gaudério médio em geral e todo seu orgulho paesano. Ela também não serve para quem quer crer que apenas esse ou aquele partido faz uma ‘sombra’ sobre o oceano de bonança e prosperidade que seria o estado em ‘condições normais’ (onde tudo o que se planta cresce), mas puxa a orelha de toda essa mentalidade (e o que mais floresce é o amor).

Dia desses, uma instigante coluna no Sul 21 (um jornal que, em minha opinião, você deveria cogitar seriamente em passar a ler se for o caso de ainda não o fazer), da lavra de Marco Weissheimer, coloca lenha nessa fogueira: estariam as declarações ou dados de Jorge sendo usados propositalmente para ilustrar uma ‘realidade a la carte’ pelo jornal Zero Hora? Um parênteses, aqui: o imbróglio se complexifica na medida em que a pane na mentalidade gaudéria média deve ter atingido parte dos servidores do Grupo RBS (falo do armazenamento de arquivos mais do que dos profissionais em pessoa física, no caso): em se tratando de um veículo de comunicação que mais engrossa o caldo desse bairrismo querência amada, uma crítica ao desenvolvimento estadual (em qualquer nicho ou esfera) não deixa de ser interessante. Mormente há algum tempo quando a RBS tratou de adquirir os royalties de um fenômeno internético do deboche – a conta de Twitter  O Bairrista’ e as derivação blogueiras em torno dela – transformando-as, de uma crítica irônica ao próprio delírio kitsch da RBS, em um antro de piadas sem graça no estilo chapa branca, satirizando os gaúchos e o próprio jornal, pero no mucho.

Weissheimer aduz que, olhados por um viés nem tanto diferente e com um recorte de tempo qualificado por outra base, os dados do ‘baixo’ crescimento do Rio Grande do Sul poderiam ser avaliados de um modo completamente inverso ao tom ranzinza do manda-chuva da Gerdau e do alarmismo do diário – o texto e seus números, na íntegra, podem ser acessados AQUI .

Isso me fez pensar em outra coluna jornalística recente, no jornal que assino, o Correio do Povo: toda manhã pulo a capa para ir direto para o pitaco diário do Juremir Machado da Silva na página 2, mas estranhamente o que eu perdi – sabe-se lá por que, em papel – dia deses, me veio pela web: em uma de suas colunas, Juremir trata do fenômeno (não deixa de ser engraçado) de vendas que a obra “O capital no século XXI“, do economista  francês Thomas Piketty. O autor pretende (como o título entrega) atualizar algumas vertentes conclusivas de Marx para nossa era e foca sua obra na exposição de algumas veias abertas da desigualdade econômica mundial e do acumulo de riquezas (e logicamente do entrave que isso causa no desenvolvimento humano mundial – para além do papo aquele de que o objetivo de fazer crescer o bolo é uma futura divisão tranquila de suas adocicadas fatias) – leia o texto de Juremir AQUI .

O Financial Times correu para desesperadamente encontrar furos técnicos que poderiam servir para deslegitimar a argumentação de Piketty. Encontrou (eis que, quem procura, acha), mas o buraco parece ser mais em baixo quando o próprio Piketty banca, peitudo, sua tese, e diz que a crítica do Financial Times não serve para ferir de morte o principal ponto da trabalho e suas bombásticas conclusões.

Economistas de renome (e Prêmios Nobel na prateleira da chácara) como Joseph Stiglitz e Paul Krugman sairam em elogios a Piketty, sendo que o último, Krugman, partiu para uma defesa da obra frente aos ataques do Financial, inclusive elegendo o livro como um best seller incomum, do tipo que não apenas figurará entre os ‘mais vendidos’ como também servirá para ‘mudar discursos’.

Se algumas jogadas de defesa do IDH do Rio Grande do Sul em contra-ataque à matéria da Zero Hora ou em defesa de Piketty contra o assalto conservador economicista à sua tese são ‘ideológicas’? Com certeza. O fato intrigante é quando alguém acham que alguma coisa não o é (e/ou que sua própria opinião não o seja).

Mais intrigante ainda é a argumentação de ‘manipulação’ de dados que periga surgir, como se tudo o que a Zero Hora e o Financial Times não publicassem não tivesse vinculação alguma com os nítidos interesses (por vezes tristemente velados) das empresas em questão.

No mais fiquem com um texto recente da Piauí sobre Piketty ( AQUI ), de autoria de Marcelo Medeiros, que vem adornado com essa maravilha de cartoon de Angeli:

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REFUSE/RESIST

6 maio

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“A praça é do povo, como o céu é do condor” – Castro Alves

“A Praça Castro Alves é do povo / como o céu é do avião” – Caetano Veloso

No ano passado eu estive presente em uma das noites da ‘ocupação‘ da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (narrei AQUI como foi o incrível episódio) e noto um interessante paralelo entre aquele evento e a situação desencadeada em resposta (enfim) à vergonhosa condução político-acadêmica da Faculdade de Direito da UFRGS.

Os manifestantes do ano passado queriam não muito mais do que ter direito à publicização dos valores, rubricas e pormenores relativos aos lucros das empresas licitantes do transporte público portoalegrense – demanda que não me parece nem um pouco abusiva e, mais, um tanto óbvia diante da grande discussão que assaltou o país a respeito de (entre outras coisas) os porquês e pingos nos is relativos aos aumentos visivelmente abusivos das tarifas de ônibus nas metrópoles todo país.

Muitos torceram o nariz (para dizer o mínimo) diante das ‘ocupações’, dado o (incrível) argumento último de que as Assembleias e Câmaras legislativas, ultima ratio, não são ou não seriam lugar para o ‘povo’ demandar.

Sensacional.

Diante das notícias de que, protestando desde o verão passado contra vários episódios de concursos docentes que são visíveis, escancaradas, mal disfarçadas e levianas fraudes, os alunos da Faculdade de Direito da UFRGS essa semana resolveram promover uma ‘ocupação’ do prédio, me ponho a pensar (um pouco, não dói).

Não me surpreendem, contudo, muito (tristemente), duas notícias: a primeira é a de que alguns professores estão adotando uma postura de nítido ‘boicote’ (lockout?) à manifestação inteiramente legítima e corajosa dos alunos e  trazendo o argumento falacioso de que não dariam aula no prédio relativo à falta de ‘condições’ para tanto, uma mentira desmentida pela própria postura dos ‘ocupantes’:

 

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Sinceramente, isso, em minha opinião de professor universitário e (sempre) ‘aluno’, igualmente, é a de que há uma plena facilitação no caso para dividir o corpo docente entre os que apoiam os alunos e, bem, os cretinos. Simples.

O outro fato que entristece é a total e vexatória fuga da raia promovida pelas ‘autoridades’ da instituição, o que revela, lá pelas tantas, uma condescendência – quando não um apoio irrestrito – à fraude, como fora noticiado aqui.

Reitoria rejeita negociar com alunos…” – há quem pense que a praça não é para manifestantes, que a Assembleia não é para demandas diretas do povo e que Universidades não existem em função de seus alunos. Paciência.

Fica, por fim, uma pergunta, parafraseando uma pichação e um mote que tem sido constantemente trazido à baila quando os (des)mandos internos da UFRGS são questionados nos últimos tempos: se essa porra não deve funcionar em prol dos alunos, é para quê(m)?

Foi criada uma ‘Comunidade’ no Facebook para maiores informações sobre o episódio e o histórico levante –> “Ocupa Castelinho”. Siga, se informe, participe e, especialmente, “não compactue com a mediocridade”.

Congonhas (ou “La revolución”)

26 abr

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Há coisas que eu (mesmo eu,  apenas um rapaz latino-americano com algum dinheiro no bolso – ainda que não muito – que ama de paixão as possibilidades da interatividade/conexão internética) decididamente não consigo compreender.

De uns tempos para cá, especialmente em relação ao público que costuma usar transporte aéreo, é possível perceber que aumentou vertiginosamente o número de pessoas (a ponto de ilhar de forma involuntária os dissidentes) que precisam muito, de forma desesperadora, quase ansiolítica, ligar o aparelho celular e conectar os serviços relativos à web móvel – não apenas quando o aeroplano está na pista e os avisos em bom português (e em inglês nem tanto) pedem para que isso ainda não seja feito, mas desde o momento em que um dos trens de pouso (qualquer um) encoste no solo. É uma busca quase automática, como a de um viciado à caça do bálsamo. A tranquilidade só parece  ser atingida, mais do que quando o pouso (o momento crítico da aeronavegação, dizem) corre perfeitamente, no instante onde tudo está em seu devido lugar, o que surpreendentemente – mesmo para um usuário crônico da interatividade digital, como eu – se estabelece quando da volta dos sinais que indicam conexão telefônica e 3G (como um desenganado que vê a flatline do medidor cardíaco se transformar em uma alegre e compassada ondulação angular).

Não quero nem mencionar os tipos estúpidos que ignoram as ordens, recomendações e pedidos (tecnicamente embasados) da tripulação, e insistem em tentar burlar a vista das aeromoças para manterem seus aparelhos (sabe-se lá porque) ligados durante o voo, uma vez que o texto aborda uma espécie de patologia da vida moderna, na qual a má-educação e a burrice não se encaixam exatamente.

Fazendo baldeação no Aeroporto de Congonhas -SP, dia desses, já perturbado com a neurose das pessoas ao meu lado na cabine em ligarem os celulares (que jaziam trêmulos em suas mãos desde que a aeronave embica em procedimento de decida, como um piloto que desliza a sola no acelerador antes do sinal verde da largada), com a aeronave mal aterrissada, tive contato com a cereja do bolo, em uma revista com notícias, dicas turísticas e trivialidades, editada pela própria assessoria de imprensa do aeroporto em questão.

A notinha (na foto que ilustra essa reflexão) exalta o novo serviço oferecido, mormente no centro financeiro do país, em relação à ideia de alguém não precisar ‘perder tempo’ em deixar de trabalhar nem quando está literalmente em trânsito (considerando o caótico fluxo de carros na capital paulista, e o tempo gasto pelos motoristas mesmo em trajetos mais simples, não se pode negar que fora uma iniciativa de visão mercadológica).

Eu sinceramente não sei exatamente o porque estou fazendo todo esse introito/arrazoado para começar a explicar o que há de errado com tudo isso, eis que me parece um tanto quanto óbvio que a maioria das pessoas envolvidas em expedientes como esses é um misto doentio de prisioneiro e carcereiro, quando não de vítima e juiz da execução, todos amalgamados. Aliás, se você faz parte do contingente de seres que não percebe absolutamente nada de errado no conteúdo da junção de informe e propaganda acima disposta, você, infelizmente, está classificado em dois grupos díspares: o grupo relativo às pessoas com quem eu gostaria de conversar e por quem gostaria de ser escutado e, paradoxalmente, o grupo que tem chances quase insignificantes de não acreditar que eu sou um bobo alegre. Paciência.

Se o businessman que acredita que ser workaholic é mais um lifestyle do que uma doença ou uma triste condição lacaia, e que come um fast food em meio a um engarrafamento enquanto não para de ‘produzir’ a bordo de seu Navigator pensa que não tem nada a ver com a realidade que o circunda e com o funcionamento emperrado do planeta (sentido amplo), está ou enganado de uma maneira barbaramente incomum, ou é um mentiroso convicto, ao nível da psicopatia.

A revolução verdadeira, amigos, acreditem: começará no dia em que ocorrer de o primeiro telefonema importantíssimo que valha mais de um milhão de dólares não ser atendido prontamente por motivos de: são os minutos finais da prorrogação da semifinal ou ‘desculpe, estava ali em frente, levando o cachorro para mijar’. Ou não ser retornado desesperadamente em razão de: hoje eu vou jantar pizza e não quero incomodação. O temor religioso que se costuma advogar como pertinente perante deus se aplica ao mundo dos negócios. A revolução começará quando mais pessoas tiverem ímpeto em deixar para responder e-mails após lerem a parte esportiva do jornal no banheiro e/ou recusarem incomodações durante o cochilo de vinte minutos após o almoço. E não apenas alguns e apenas por temor subalterno dos que têm juízo (e por isso obedecem). Muito embora haja quem seja servil por gosto (‘crente‘ e voluntariamente, como expunha La Boètie). Ou quem sinta prazer ao ser carrasco de si mesmo na condição de patrão.

A condução de certos modelos do capitalismo tecnocrata por pessoas que são bizarros protagonistas ao mesmo e singelo tempo em que são figurantes do caminhar de uma máquina inteira me intriga. Não intrigaria (ou intrigaria menos) se fosse um jogo não velado em que as pessoas admitem estar sugando ou sendo sugadas sem vislumbrar qualquer tipo de objetivo maior que não ser um dos pilares dessa (em última análise) grande propaganda em forma de ‘golpe da pirâmide’ que muitas vezes ganha o nome de mercado. O problema (e igualmente a intriga), surge quando pessoas fingem ignorar – em contrariedade a todas as evidências sensatas – de que ela própria (não raras vezes) é a responsável pelo sustentáculo disso tudo que em via reversa, a drena sem dó.

***

Eu e minha mulher visitamos uma mina de ouro (que frase estranha) nos arredores de Ouro Preto-MG na semana, última. A guia do passeio à mina (hoje tombada pelo patrimônio histórico) explicou, entre barro, ocre, tuneis fétidos e água pingando, que um curioso processo de seleção darwiniana fazia com que ou o degredo, ou o ‘uso’ nas lavouras ou mesmo a morte era o destino dos escravos mais altos, em busca de um ‘aprimoramento’ de raça que criasse (via reprodução, tal gado em premiações) uma geração de escravos mais baixinhos e esguios a fim de que pudessem transitar com mais agilidade por entre os túneis e otimizar a coleta do ouro antes de ele ser taxa do e sobretaxado e ir parar cada vez mais em mãos cada vez menos próprias.

A segunda parte, complementar, da revolução (falo mais baixo agora, porque a enfermeira está vindo com a camisa de força e a injeção diária – e quando ela chegar, fingirei sono profundo) ocorrerá paralelamente à primeira quando for público, admitido e notório que o que muitos pensam que é uma deturpação sem escrúpulos do capitalismo é na verdade sua perfeição suprema.  O seu horário de almoço. A meia horinha de sono. A entrada engarrafada da marginal e o trânsito lento nas vias de acesso ao aeroporto. Como ninguém pensou nisso antes? Pensaram sim. Escravos baixinhos. Soluções para um mundo que precisa delas.

 

 

DEVERIA

1 abr

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Deveria ser uma luta de quem quer explicações da Dilma sobre a Refinaria em Pasadena

Deveria ser uma luta do William Waack

Deveria ser uma luta de quem reclama da falta de peças repositórios  para os carros cinquentenários de Cuba

Deveria ser uma luta de quem acha que os Mensaleiros não deveriam ter conhecidos seus Embargos Infringentes

Deveria ser uma (mais) luta de Lobão e sua vida pós-bandida de standards rasos e sensos comuns

Deveria ser uma luta de quem é do DCE (autodenominado) livre da Ufrgs

Deveria ser uma luta de quem comenta no Terra, compartilha memes no ‘fêisse’, vota nas enquetes do Conversas Cruzadas e exibe cartazes seja lá na passeata que for

Deveria ser uma luta dos Gentillis com base no pão que botam na mesa por estarem autorizados supostamente a dizerem as bobagens que costumam pensar, sempre a favor da maré

Deveria ser uma luta de quem usa camiseta do Che Guevara ao lado de quem é da Turma do Chapéu

Napoleão (esse safado inegavelmente esperto dentre os mais safados e mais espertos de nossa história ocidental), tem, para si, atribuída a frase de que se deve escolher os inimigos pela inteligência.

Há inimigos de todos, inimigos com quem não deveríamos querer conversa, com quem não deveríamos compactuar em nada

Há batalhas que devemos travar, contra batalhas que não podemos mais travar

Em Dachau há um monumento que exprime algo simples em duas palavras transversas para várias línguas: Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais.

A guerra burra é esperta o suficiente para se reinstalar e reinstalar

Já escolhemos (deveríamos) nosso caminho

E nele não há espaço para conviver com ossos desaparecidos e choques vaginais enquanto política pública

Os uniformes de alguns coronéis fedem

Enquanto houver eles, e pessoas dispostas a justificar um golpe pelo qual até mesmo a Rede Globo pede desculpas semana sim, outra também, há mais de ano, não vai haver poesia.

Feliz dia dos bobos.

A la carte

20 fev

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Agora que, pelo visto, entender de política é ‘moda’, saber conversar sobre o que está acontecendo no país é trendy e o papo não está (como alguns pensavam) restrito à sociólogos, cineastas, gays, sindicalistas, maconheiros, “Sininho” e congêneres, é preciso cuidado: há quem esteja meio perdido em meio a esse mar revolto de informações ‘wiki‘ e um tanto apressado no já apressado método googlenautaexpress de aquisição de conhecimento.

Recentes protestos de rua (nada pacíficos) tomam as contas não só do Brasil – em uma espécie de repuxo do Junho passado e uma prévia nítida do Junho vindouro – e também de Venezuela, Kiev, Sochy (sede russa das “Olimpíadas de Inverno”) e as opiniões de muita gente pululam meio desorganizadas e pobres de coerência interna.

O que mais me chama atenção, desde ontem, é o curioso mundo contraditório em que vivem certas pessoas em relação à sua tolerância/ódio/glorificação/apoio em relação ao tom drástico e revoltoso de alguns desses protestos, que, sabemos, não possuem raiz semelhante, mas possuem aspectos idênticos. Uma profusão de pessoas vibra aqui e ali com cacetadas policiais, da mesma e inexplicável maneira com que dilata as pupilas em júbilo ‘black bloc‘ acolá e em várias dessas situações o tronco comum de raciocínio e de ímpeto ideológico vai para as cucuias.

Afinal, qual o seu (o meu, o nosso) ‘problema’ com manifestações, protestos, bloqueios, barricadas e mesmo alguns ditos ‘vandalismos’? Quando (ou, em que país ou sob o governo federal de quem) você acha esse tipo de coisa em um arco opinativo que vai do ‘legal’ ao ‘inaceitável’ passando pelo ‘não temos escolha’?

1) Se o seu problema é de ordem relativa ao (seu) conceito de ‘lutar contra tudo o que está errado’, parabéns: você aderiu a ‘La Revolución‘. Agora vá já para a praça, hasta la victoria, siempre e… (ué, não gostou?)

2) Se o seu problema é de ordem político-governamental, parabéns (também): você é dono de um conceito muito peculiar de ‘democracia‘ (sempre ela…), onde a paz deve ser mantida nos cenários em que seus correligionários estão no poder e deve ser desconstruída na porrada quando a situação é inversa…

3) Já se seu problema diz respeito ao combate frontal às ‘injustiças sociais’, bem vindo(a): estamos no Brasil e esse é historicamente um dos países mais injustos socialmente no universo, desde sempre. Sugiro então que você vá procurar a sua turma. E não reclame se ela estiver ali na esquina virando um contêiner (não esqueça o capuz preto).

4) Se, por fim, você acha que situações de poder ‘ditatorial‘ ou ambientes políticos ‘análogos’ aos ditatoriais legitimam a luta (armada, inclusive) saiba: eu concordo com você. Porém, pediria apenas um cuidado com esse termo e seu significado correlato (“Ditadura”). A ciência política dos googlenautas anda tropicando em relação a esse conceito, e eu já vi até gente chamando de ‘ditadura’ a sequência de três mandatos federais do PT (o que seria tão ridículo quanto dizer que há uma ‘ditadura’ do PSDB em São Paulo que dura 15 anos com hiato de um).

O conceito ‘wiki’ de ‘ditadura’ parece tão volátil quanto o de ‘fascismo’ que alguns creem ser uma espécie transparente de ‘xingamento’ que cabe contra qualquer um em qualquer ocasião – nunca havia visto como no último ano um número tão grande de usos desse termo por fomentadores clássicos (e dissimulados) do fascismo contra inimigos históricos do mesmo.

Em um mundo onde agentes governamentais baixam o sarrafo em manifestantes que protestam frente a eventos esportivos, sob a alegação de que aqueles, por estarem “perturbando a imagem externa do país” e os chamam, portanto, de ‘fascistas’, eu é que não sei de mais nada.