Arquivo | Som RSS feed for this section

Emancipate yourselves

13 jul

Sempre fui fã do The Clash e de Joe Strummer e há tempos sabia da existência do documentário relativo à vida dele (já havia, aliás, assistido trechos variados e recortes do mesmo).

Dia desses eu e a Fernanda qui em casa tiramos um tempo para, com uma cópia em DVD emprestada, parar e assistir todas as quase duas horas de “The Future is Unwritten“, de Julien Temple (1997).

A conclusão é apenas uma: mais que um ídolo, um polemista, um grande performer, Joe Strummer foi um gigante.

Sua alma não aprisionável transitou entre o hippie e o hype, o punk e as rádios mainstream, o niilismo e o ativismo. Ao fim e ao cabo, percebe-se que na verdade ele não perpassou os rótulos: os rótulos é que estavam correndo atrás dele em busca de identificação. Seu pleito de união, amor, emancipação e busca de redenção no caos o configuram como um estranho nômade que por vezes foi rotulado, por outras se deixou rotular.

Sua luta por um mundo com valores mais simples (especialmente em seu ‘recomeço’ ao final da carreira) e os depoimentos acalorados de um sem número de pessoas influentes que se assumiram como ‘imitadores’ (no bom sentido) e ‘adoradores’ de Strummer falam por si: de Bono a Johnny Depp, passando por Steve Buscemi e Jim Jarmusch, uma série de personalidades artísticas aparece, ao redor da fogueira – como deve ser – para relembrar e homenagear o amigo e o ídolo.

Se você ainda está pensando se por acaso deve procurar assistir a película, uma dica: deixe-se contaminar pelo ‘teaser’ oficial do filme (video acima) onde Strummer interpreta “Redemption Song” (Bob Marley), enquanto um muro em sua homenagem é grafitado e ele discursa as palavras que encerram o filme:

As pessoas podem mudar tudo o que quiserem.

Qualquer coisa no mundo.

As pessoas vão seguindo seu caminho, e eu sou um deles.

Mas você precisa parar de seguir só nossa pequena trilha de ratos. As pessoas podem fazer qualquer coisa.

Isso é algo que eu estou começando a aprender.

As pessoas estão por aí, fazendo coisas ruins uns aos outros. É porque elas estão desumanizadas. É hora de recuperar a humanidade e coloca-la no centro do ringue.

 E ficar assim por um tempo.

A ganância não leva a lugar algum. Tinha que escrever isso numa grande placa da Times Square.

 Sem as pessoas não somos nada. É isso o que eu penso.

Lembrei-me disso – também – por causa do seguinte:

Nesse momento a Câmara de Vereadores de Porto Alegre segue ocupada por um grupo de manifestantes que pode ser descrito como integrante de uma ‘segunda onda’ de protestos nesse 2013 brasileiro (em que pese – creio eu – muitos desses integram ‘ondas’ de protestos e protestam sem ‘fazer onda’ e mesmo quando protestar ‘não está na onda’,  há tempos).

Ocorre que contraposições de ideias previsíveis e choques de posturas imagináveis devem ocorrer quando da necessidade de diálogo (ou quase isso) travada entre os manifestantes e uma nefasta camarilha de ‘políticos’ calcada na fisiologia, no clientelismo e em um elitismo puro e simples. E se o sujeito é elitista e burro (várias acepções do termo), a chance é imensa de ele ser mais um do estapafúrdio grupo que eu costumo chamar de fanáticos da homeostase política: os grandes catimbeiros jurídico-legais que procuram fazer de tudo para evitar qualquer discussão do mérito das ideias em debate ou fugir de qualquer tomada de postura enérgica em relação a algo.

Ontem – me contaram – um vereador criticou os pleitos dos manifestantes costeando o debate nuclear da discussão e saindo pela tangente de apelidá-los de “comunistas de MacBook”. Fantástico.

Em um mundo onde há pessoas que acreditam que tudo pode ser superficialmente tratado como ‘perturbação do trânsito’ ou mesmo ‘da ordem’ (lato senso), não admira se tudo isso não passar, para alguns, de uma questão de reintegração de posse. Concedida a liminar, a força policial retira todo mundo e o fato de o povo ter adentrado (alguns pela primeira vez na vida) em uma câmara legislativa vai ser colocado em segundo ou terceiro plano junto com suas eventuais reivindicações (legítimas ou não).

Enfim: caso a questão queira ser simplificada para algumas mentes obtusas, basta lembrar que Joe Strummer não poderia ter dito nada do que disse, nem feito nada do que fez, afinal, não poderia ter sido hippie ou punk, porque era um filho de diplomata.

Boa noite.

Anúncios

Simple twist of fate

24 abr

Olhe bem para os 71 anos, as dores, os amores, as estradas, as poesias, a genialidade, a multidão, o tédio, o rancor, as mulheres, as batalhas, a sabedoria, os percalços, as vitórias, as dúzias de prêmios, ovações, exaltações e a paradoxal simplicidade que estão nos olhos desse cidadão.

Dia de conferir de perto a apresentação do maior artista vivo.

Há quem diga que pessoas como ele não deveriam morrer nunca. Besteira. Ele mesmo acha isso uma bobagem e provavelmente não assinaria nem sob tortura esse contrato vitalício. Eterno, entretanto, enquanto vai durando, esse é Bob Dylan, o gigante entre os gigantes que vergou o mundo todo com palavras tão contundentes que nem sua voz torta e insolente e sua gaita sem-vergonha foram capazes de ofuscar.

Será único.

Memórias do moedor de carne

25 mar

Dia desses o shuffle do meu I-Pod me recordou que dentro de um mês (pensando no dia de hoje, poucas horas) eu estaria pela segunda vez na vida assistindo a uma apresentação de Roger Waters. No caso, a providência divina que escolhe a ordem das canções fortuitamente me brindou com uma de minhas preferidas: a tétrica e arrepiante “Good Bye, blue sky“.

Ainda posso descrever com a inexatidão típica dos passionais tudo que aquela noite mágica de uns bons dez anos atras fez passar diante de meus sentidos.

Agora Waters vem novamente com seu gigantesco circo mambembe apresentar aquela que se decididamente não é a maior obra concebida por sua massa cinzenta atormentada na vida, é com certeza a que lhe é mais associada, e com razão: The Wall, o disco, as canções, o conceito, o show é artista britânico, sua história traumática de infância, apresentada ao público de um modo comovente e sem amarras.

Não há muito o que dizer: se você jamais escutou o disco de 1979, jamais viu o emblemático filme de Alan Parker (nem sequer a famosa sequência “The Happiest days of our lives” -> “Another brick in the wall pt. 2” e as crianças sendo pregadas em carteiras escolares e despejadas em um moedor de carne), eu sugiro que o faça, e só. Se você sabe do que estou falando, igualmente não há muito o que frisar.

No caso, quando estava na 5a série do primeiro grau (ali por 1475 d.C.) um professor de Geografia (veja bem) disse que era essencial para nossas vidas que a turma assistisse o filme em questão e proporcionou uma manhã de exibição em VHS seguida de reflexão sobre o tema. Não sei exatamente o que tinha tudo aquilo a ver com geografia, mas sei que ele estava certíssimo.

Alterou muita coisa.

Do ponto de vista estético, sonoro, The Wall, embora não seja na minha opinião nem o primeiro nem o segundo melhor trabalho do Pink Floyd (acho que, na ordem, ‘Wish you were here‘ e ‘Dark side of the moon‘ são bem superiores), marca o ‘fim’ da banda, ou melhor, marca o último ponto sustentável entre a megalomania cerebral de Waters e os interesses melódicos-clássicos de Gilmour. É quase um disco solo de Waters acatando as contribuições dos demais integrantes (há dúvidas, aliás, se depois de Animals, 1977, eles ainda eram uma banda). Tem portanto, tudo que há de melhor e o que pode haver de pior nesse tipo de coisa. E ainda assim marcou época e história.

É também a prova definitiva de que a separação entre a razão e a paixão é ilusória: o Pink Floyd dos remanescentes que até pouco vagava sobre a terra é como uma alma desprovida de ectoplasma, um reflexo fugaz e triste de algo que já foi. Waters e seus projetos particulares fracassa de modo retumbante (ao menos diante da importância que ele possuía), como uma carcassa desprovida daquela alma brilhosa. The Wall foi um dos últimos momentos em que corpo e alma – ainda que seja notado um domínio visível de Water sobre o disco e o grupo – caminharam para o mesmo lado.

Será um show e tanto, e sem dúvida, apesar da ausência da banda em si, será mais grandioso certamente do que quando visto nos anos 80 – Gilmour, sua guitarra e o resto da aura mítica do grupo não estarão, mas a tecnologia e a logística que a fábula de Waters precisava agora existem. Ausência de sentimentos? Talvez, mas o tempo passa devastando tudo e todos como uma solda a frio e isso aprendemos com (entre outros) as próprias canções do Pink Floyd.

Tudo o que você precisa

30 dez

GOSTO (admito) do misticismo e das mandingas da virada da meia noite do 31.

Mas não se pode esquecer que o misticismo quem faz – também – somos nós, eis que é dentro de nós mesmos que ele produz (e pode produzir) efeito: a data do dia 31 de Dezembro é apenas um numeral convencionado e inventado pelos homens. Não é de números que depende qualquer magia.

Não faça promessas infundadas como se esses números conferissem um ‘poder’ extra à maior das energias que é o AMOR que você carrega em si. Não prometa na virada. Prometa (e cumpra) a todo instante. Um novo ciclo se inicia a cada manhã, independentemente do dia ou mês do ano.

Em 2012 REVOLUCIONE. Diariamente.

São meus votos. Uma feliz entrada de ano a todos. Beijos. Paz.

Pérfuro-cortante

22 out

Qualquer coisa a mais que se escreva sobre como o formato anatômico das músicas em arquivos mp3 transitáveis via web simplesmente mudou o mundo da música – e mandou os álbuns físicos para a UTI em falência múltipla dos órgãos – é desnecessário.

O que não é tão óbvio – embora também não seja novidade – é que não apenas o mp3 Ipod-izável fulminou (economicamente) uma indústria e alguns de seus barões, como fulminou uma idéia: o disco, enquanto conceito, ruiu. Artistas em maioria lançam discos hoje por pura conveniência com uma lógica que ainda não encontrou sucessor: poderiam anunciar simplesmente seus “novos” trabalhos em uma PASTA a ser downloadeada nos sites com o nome (exemplo:) “safra de 2011” ou algo similar. Como ninguém mais compra discos – salvo entusiastas e puristas neuróticos (até porque o preço de um álbum na loja não ajuda em seu saudosismo…) –  infelizmente, sob certo aspecto, não mais importa o trabalho extra-sonoro que alguns músicos realizavam com tanto apuro: um disco muitas vezes não era o resultado apenas de uma safra de canções e sim um trabalho pensado, elaborado junto a um momento-estético na carreira do músico, e não raro acompanhado de um clima visual demonstrado na capa, nas imagens-significante dos materiais gráficos e cores da embalagem.

Não só uma questão de estar dentro ou fora de moda (fora, no caso), pois, mas também como uma espécie de imposição de mercado e de zeitgeist, os discos conceituais e óperas-rock (ou o que o valha) que tiveram tanto ápices gloriosos (Dark Side of The moon do Pink Floyd ou Quadrophenia do The Who, cases clássicos do estilo) quanto retumbantes chatices (à certas coisas do Yes é preferível a tortura gótica) nos anos 70 parecem a peça mais obscura desse museu onde figura o “álbum”.

Eis que em pleno dois mil e onze do nosso senhor, um disco que possui ares de temática coesa e interligada com tons de ópera bufa trash misturados à teatro experimental de autores proscritos (literalmente: a inspiração vem de uma série de peças do dramaturgo alemão Frank Wedeking, do início do século passado), chega nas nossas prateleiras virtuais. E mais: captaneado por uma espécie de semi-deus (Lou Reed, por quem desde logo deixo claro que nunca fui aficcionado, muito embora saiba que é um dos que se tem que tratar por ‘vossa majestade‘). E mais, ainda: acompanhado luxuosamente pela (atenção) banda que ocupa o trono de maior grupo de rock pesado do mundo, o Metallica. Improvável?

A 'velha' Reed à frente dos cavaleiros do apocalipse.

Nasce, pois, “Lulu” o (sim) mais improvável dentre os improváveis disco genial que você vai escutar em muito tempo.

Proto-indies neo-devotos de Reed podem torcer o nariz para o fato de que o velho bardo das sarjetas novaiorquinas quer “ganhar holofotes” se aliando ao Metallica, sem perceber que essa é uma das obras mais outsiders que o cantor já produziu. Metaleiros que não enxergam um palmo à frente das franjas sujas podem até agora estar burramente se perguntando “quem é esse Lou Reed?”, sem perceber o quanto culhão o grupo teve nessa empreitada.

Descontados esses tipos imbecilóides, não é exatamente fácil gostar de “Lulu”, de fato. É, para além dos olhares míopes e infantis, um dos discos mais pesados já vistos: a acidez e a dor das letras e da voz teatralmente amargurada e (em alguns momentos) propositalmente anêmica de Reed se alia a um Metallica veloz e psicótico (um dos melhores bateristas vivos do rock, Lars Ulrich, espanca as caixas, pratos e bumbo como um adolescente perturbado que paradoxalmente está simbioticamente ligado a seu instrumento: violência e maestria).

A tosquice é elevada à obra fina em alguns desleixos friamente calculados de ambos (Lou e a banda) para que as notas e partes façam viver diante do ouvinte o sangue que escorre desde a capa (e a capa de um genuíno álbum é algo importante demais, e em “Lulu” assim o é).

Brandenburg Gate” lembra a versão de “Sweet Jane” que foi o estopim da união dos artistas (dizem que após essa apresentação colaborativa no Rock and Roll Hall of Fame, Lou teria dito aos metallicos algo do tipo: “Ei, precisamos gravar algo juntos, qualquer dia desses”). Nela a voz de Hetfield (que poucas vezes vai se ouvir tão protagonista ao longo do resto do disco) age como um pano de fundo (quem diria?) macio para a aspereza de Reed. “The view” – o single (?) divulgado para o mundo há algum tempo, é marcante e quase inexplicável para os fãs ‘óbvios’ de ambos. “Pumping Blood” é um manifesto sensacional de coragem: poesia estranha e visceral recitada, uma base crua, densa e cadenciada como só o grupo californiano consegue. Há momentos de delírio hardcore (“Mistress Dread“) bem como de beleza maldita (a estonteante “Junior Dad” e sua letra macabra e linda fez James Hetfield e Kirk Hammett chorarem nas gravações). “Little Dog“, sombria e afundada em álcool e opiáceos, nos recorda que é um projeto de Reed apoiado pelo Metallica, e não ao contrário.

Notícia alvissareira para os mais ‘medrosos’: se você quer rock “palatável”, eu arrisco a dizer que “Iced Honey” é uma das mais incríveis canções de Lou Reed. E do Metallica também.

Enfim, senhores, temos um DISCO. Ele pode ser ouvido na íntegra no site oficial da “banda” (AQUI) ou mesmo baixado na mão grande (AQUI)

Ô, simpático: para de formar CAÔ

14 ago

A hiper-conectividade hoje colocou vários ingredientes a mais naquele velho jargão da “pilha” de coisas para ler. Agora temos uma pilha de coisas – físicas e em forma de html ou .pdf – para ler, um monte de filmes baixados para ver, um monte de discos e dvds de shows para ouvir e tudo mais.

Estranho, pois, que apenas um ano depois do lançamento de um trabalho de um artista de quem gosto (Marcelo D2) gravando músicas de um gênio incontestável (Bezerra da Silva) eu CONSIGA dar a atenção devida ao disco e escutá-lo decentemente.

Adianto que a idéia é louvável e certamente vai recuperar algumas pérolas do cancioneiro do velho mestre da malandragem para gente que sequer o conhecia, mas (previsivelmente) as versões originais são incomparavelmente superiores.

Gosto muito de gangsta rap bem como de Criminologia Crítica, mas uma bela escutada no velho Bezerra (seja na fonte, ou nas vozes de D2 e tantos outros) mostra que ele deixou sobrando MUITO POUCO para ambos.

Lembro disso porque nesse semestre estou lecionando entre o habitual Processo Penal, uma cadeira de Direito Penal que chega até o cálculo matemático da pena, passando pelo estudo dos regimes prisionais iniciando pelas famigeradas Teorias da Pena.

Falando com a gurizada sobre o tema, cheguei à conclusão que é praticamente IMPOSSÍVEL falar sobre tais teorias sem ao MESMO TEMPO verter sobre elas resmungos demolidores. A coisa é tão alarmante que parece não haver nenhum meio idôneo e não-oligofrênico de tratar do tema de modo a cartesianamente explicar as teses para depois procurar problematizá-las. A problematização niilista é o único caminho no estudo da matéria.

“Intimidação” (via aumento de fixação penas abstratas das quais ninguém têm conhecimento – a despeito do brocado), “reforço” do sentimento social (via suplício penal), “ressocialização”, “cura” ou destruição, pura e simples. Gosto muito de reflexões teóricas e fartamente dissonantes quanto o conteúdo dogmático puro, mas confesso que é aflitivo dar aula sobre uma série de justificações teóricas que não se sustentam em pé em meio a farpas de realidade vinda de uma sociedade plural ao nível do caótico, desnivelada ao ponto do ininteligível, complexa tanto quanto interessante e que ainda por cima, para quem quiser discutir nesse nicho, envolvida por uma teia constitucional que impede justificações oficiais contrárias à índole que o sistema destila (no papel).

Enquanto isso, invejo profundamente autores de obras que conseguem a proeza de dar as costas a todo esse mar de inconformidades e elencar teorias de acordo com momentos históricos (linha do tempo) que não se entrecruzam nem aparecem para bagunçar os liames técnicos e fáticos umas das outras. Ou não. Ignorance is bliss? Não creio. Mas que discutir esse tipo de coisa em um MUNDO como o nosso, numa LATITUDE como a nossa é meio estranho, é. Os catálogos de intenções sobre a pena e a atividade estatal são hilários. Mesmo os mais pretensamente críticos são solapados pela vida imprevisível.

E quando num domingo o cara percebe pela SEPTUAGÉSIMA QUARTA vez na vida que um punhado de sambas serviriam mais de matéria prima de discussão sobre punitivismo do que qualquer livro, o lance é AFASTAR o chimarrão para o lado, abrir uma gelada e batucar em algum objeto próximo.

Bom REST(inh)O de final de semana a todos.

Estuprando Aristóteles e outros “dadaísmos jurídicos”

6 maio

O discurso jurídico-conservador, sobretudo na área criminal, surpreende por várias coisas. Uma delas é um coitadismo imbecil que acusa diuturnamente ideologias a ele contrários pela culpa de seus males (sendo que esses ideologias jamais viram – muitas vezes – a luz do sol sob a forma de reconhecimento majoritário e/ou legal). Outra é quando o conservador propõe barganhas que nem disfarçam metade de sua real intenção de atrelar ainda mais a realidade à estagnação. Outra, ainda, é quando, não podendo mais debochar da erudição de quem tem a mente aberta, apela para uma espécie de disk-erudição onde chavões prontos vêm agir como “respaldo” na medida. Aí saem da toca as gafes mais engraçadas (ou não).

Por vezes surgem coisas tão estapafúrdias como seria argumentar frente a um fanático religioso usando o “Deus está morto” de Nietzsche ou fazer um ODE À MASTURBAÇÃO com base no “Conhece-te a ti mesmo” socrático. Enfim.

Você conhece a história: logos nas primeiras páginas do primeiro Capítulo de manuais penalistas, aquele intróito característico sobre os “primórdios” da aplicação de sanção penal-estatal, sempre iniciado com um discurso chinfrim sobre as guerras entre os clãs e/ou as hordas nos “tempos imemoriais” onde o pau comia a onça bebia água e ninguém era de ninguém nas afamadas “vinganças de sangue” (Puxa! Sorte nossa que os homens, PELAS TANTAS, resolveram ir ali no cartório do Tabelião Rousseau fazer um “Contrato Social” e acabar com isso, não é mesmo?)

O jurista típico dos dias de hoje é uma espécie de reprise sem requinte, uma xerografia bizarra, do intelectual modelo do século XVIII (um misto de filósofo, jurista e cientista-político): alguém que, em que pese a formação acadêmica em uma área restrita do conhecimento, se sente capaz de falar qualquer coisa sobre qualquer tema. Um sujeito com o rei na barriga que leva às conseqüências mais fajutas e despropositadas o adágio de que “tudo o que é humano lhe interessa” (sei…).

Voltemos ao primeiro capítulo do manual: daí nos empurram aquela meia dúzia de registros informativos pretensamente históricos sem citação alguma (presumindo que hordas e clãs se espetavam no bronze exatamente como assim o concebemos hoje – tudo baseado na “erudição” do autor, que afinal, não precisa consultar compêndios históricos nem antropológicos, não é mesmo?), nem nenhuma – ou praticamente nenhuma – referência a pesquisas que enfrentam o tema. O jurista presume que a gente presume, e, para chegar logo ao que interessa – que, sabemos, é a delonga sobre a concepção jurídica delitual tripartite e seus derivados – uma meia dúzia de abobrinhas historicistas, mais ou menos como aqueles comerciais obrigatórios que somos obrigados a ver nos sites de entretenimento, antes que inicie o vídeo que queremos assistir (que, invariavelmente diante da oferta disponível, versa sobre o último bafo promovido pela Britney, ou sobre impropérios ditos em briga de treinadores de futebol).

Segue-se o festival de estultices quando do comento, por exemplo, da inimputabilidade (onde vai despejada sobre o leitor  toda a cultura de almanaque do autor sobre “desvio comportamental” e “transtorno de personalidade anti-social“) e vários assassinatos de Saussure e Heidegger quando se discorre sobre as “palavras” da lei e sua “hermenêutica” (que a essa altura do championship, virou sinônimo de “leitura atenta“).

Mas uma das coisas que mais me irrita não é a epidérmica profundidade das pesquisas realizadas pelos ditos tratadistas de plantão, e sim o uso despudorado de citações-delivery, onde um pensamento, uma idéia geral ou mesmo frases são pinçadas clinicamente do arcabouço intelectual inteiro de certos pensadores universais para usos à la carte que configuram apenas uma coisa e podem ser exprimidos em uma só palavra: golpe.

Assistia dia desses um painel sobre as possíveis mudanças no Processo Penal brasileiro através de alterações legislativas importantes: o (ao que parece, criogenizado no fundo de alguma gaveta úmida e obscura da Câmara) Projeto de Lei do Senado n. 156 – o dito “Novo Código de Processo Penal Brasileiro” – e o (esse, aparentemente, quente e sangrando, pronto para servir) Projeto de Lei 4208 de 2001 (que aliás, foi sancionado sob a forma da lei n. 12403/11confira), que chega(rá/ria) para regular finalmente as medidas cautelares em meio ao sistema atual do CPP.

PELAS TANTAS, me vem um cidadão e, bradando exatamente em contrário a tudo aquilo que boa parte dos processualistas pátrios (me incluo na cota) tem por “avanço” no texto da possível nova lei.

Enquanto argumentos de todas as ordens possíveis eram forjados e exibidos ao vivo pelo painelista para tentar fazer sumir a idéia de que são necessárias mudanças cruciais quanto ao acompanhamento de inquéritos (“Juiz de Garantias), às prisões cautelares (extirpação de conceitos genéricos como “ordem pública“, maior taxatividade nos requisitos e prazo fixo), e o sistema acusatório-democrático (vedação de o juiz tomar medidas que substituam a atividade de acusador), entre outros, o mesmo ataca, em um arremedo filosófico – que era preciso, COMO PARA ARISTÓTELES – buscar o “Equilíbrio“, a equanimidade no ponderar da questão.

O que ele queria equalizar, ficou bem claro, era em realidade o deglutir em meio à teoria processual e suas definições, o espaço, ou de parte do espaço, do processo penal enquanto instrumento de garantia (noção que há muito custo vem se sedimentando, embora ainda esteja como casca de ferida recém solidificada – se é que está), para retomar o lastro “perdido” doutrinariamente no campo de definições de processo enquanto moedor de carne a serviço do movimento do (de um) direito estatal de punir como se crédito ou obrigação de fazer perante o réu fosse (Karl Binding diria, sem todo esse veneninho: pretensão punitiva).

O que o amigo pugnava enquanto ‘Equilíbrio aristotélico” na elaboração de um novo CPP era como que a vasilina necessária para tornar palatável um aríete de argumentos que, dependendo de quem opina, tangenciam a mediocridade e(/ou) beiram a face dura do mal (DO SUCESSO, Paralamas. Rio de Janeiro: ali por 1985).

Os bordões do “equilíbrio” e da “moderação“, travestidos, ainda, de prudência, têm sido as maiores armas do conservadorismo para se empenhar na sua sórdida tarefa de manter tudo como está, pouco importando se mudanças para algum lado (qualquer lado) sejam desesperadoramente necessárias. A normalidade estagnada é a religião secreta do convervador, mas só vêm à luz ou sai na rua disfarçada de ponderação, cautela, “equilíbrio”, como queiram. E não é qualquer equilíbrio, vejam: é o de Aristóteles!

Mais do que o uso ao bel prazer de expressões como essa, o descuido e a idéia de que se pode transitar entre obras milenares pulando de clichê em clichê como se chavões fossem pedrinhas em meio ao leito do riacho das teorias irrita. E envergonha.

Tão estapafúrdio como argumentar frente a um fanático religioso usando o “Deus está morto” de Nietzsche ou fazer um ODE À MASTURBAÇÃO com base no “Conhece-te a ti mesmo” socrático (via oráculo de Delfos) – Nota do Redator: ficarei extasiado se vocês ampliarem a lista desse tipo de piadinhas nos comentários.

No fim das contas, ramo muito explorado, porém pouco divulgado esse, do ensino e do cotidiano jurídicos: a delicada arte dadaísta de abrir QUALQUER livro, cirurgicamente extrair QUALQUER predicado e usá-lo como fantoche em QUALQUER ocasião.

Não quero nem erudição (ando me contentando com pouco). Quero apenas um mínimo de contexto. Mereço isso, aliás.

*****

Para aturar essa semana, só mesmo com “Wasting Light“, o novo disco da banda mais trí do mundo, o Foo Fighters.

Recomenda-se SER FELIZ ao escutar a obra prima que encerra o álbum, “Walk“. Puta que pariu. Que AULA de ROCK: