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Ritual

22 jan

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Alguns dos mais profícuos e certeiros pensadores da cultura ocidental contemporânea – tais como Pascal Bruckner, Charles Melman e Joel Birman – identificam uma série de problemas advindas do que pode ser resumido como um estado de ‘infantilização‘  que acomete o homem moderno.

Estamos forjando paulatinamente uma sociedade que desconhece meios, ferramentas e principalmente a necessidade de lidar com a negação, a ausência, a dor e a incapacidade: para ficarmos ‘felizes‘, uma pílula, para consumirmos quando a conta está pelada, crédito a prazo, para o luto, a negação e para os choques e interdições cotidianas, o narcisismo que nos impele a erguer o nariz e fingir que o problema se deve apenas ao outro (críticas são lidas sempre como ‘recalque’).

Sobre a necessidade de ‘felicidade’ constante e os subterfúgios que a humanidade constantemente é estimulada a inventar para driblar problemas sem efetivamente encará-los de frente, já se escreveu demais. Há, contudo, um aspecto dessa temática que eu nunca vi abordado, ou nunca vi abordado com a devida profundidade – ou, ainda mais, desconheço (por ignorância) alguma abordagem mais incisiva: poder-se-ia fazer um estudo sobre a cultura cinematográfica/televisiva (especialmente agora que alguns seriados televisivos atingiram um patamar de qualidade e reconhecimento crítico “artístico” sério) e a forma como a massificação é também um reflexo dessa ‘infantilização’.

Estamos – ou a maioria esmagadora do público consumidor desse tipo de produto –  tão mentalmente preguiçosos que não conseguimos conviver com alguma peça artística que não nos ofereça, no geral, alguma ‘responsabilidade’ na interpretação. Mais: não conseguimos conviver com elementos simbólicos no enredo e com desafios roteirísticos, senão que estamos vivendo uma segunda era do ‘drama’ grego em contrapartida à ‘incômoda’ tragédia que deixava com o espectador mais problemas do que respostas. Precisamos de prólogos, de epílogos (muitos epílogos), explicações, glosas. E precisamos de episódios. Muitos episódios. Infinitas temporadas e episódios. Precisamos de uma ‘parte 2’, uma ‘parte 3’ uma ‘parte 4’ um ‘Capítulo final’, um reboot, um remake, uma releitura. Não acaba nunca.

É lógico que muito disso tem a ver com o dinheiro envolvido, mas o público tem ‘culpa’ direta nesse cartório: para uma galinha dos ovos de ouro e produtores que querem secar a pobre galinha até o último suspiro vital, há, em simbiose, um público que quer tantas explicações e desfechos que praticamente clama por ganchos roteirísticos que pedem mais ‘partes’, mas ‘temporadas’, mais seguimentos. Não se consegue botar um ponto final que minimamente ‘perturbe’ o público e que deixe com ele algumas reflexões.

Digo isso porque ontem assisti os dois primeiros episódios da elogiada produção “True Detective” da HBO: produção de alto nível roteirizada por Nic Pizzolato, dirigida por Cari Jojy Fukunaga e cujo elenco conta com os (ótimos) medalhões Woody HarrelsonMatthew McConaughey. A trama gira em torno de um sinistro e complicado assassinato com ares rituais e satânicos no interior da Louisiana e a dupla de protagonistas tem de lidar tanto com as farpas que a relação entre as personalidades díspares de ambos (os dois são os policiais destacados para o caso), quanto com o absurdo e o mistério da situação.

Decidi que vou acompanhar a série (e quem me conhece sabe como isso é raro – apesar de admirar várias produções atuais e de quase ser seduzido por várias sacadas interessantes de enredos, eu praticamente não acompanho seriados por não ter paciência religiosa/novelística para ‘seguir’ os episódios e/ou fazer os respectivos downloads).

Sinceramente? A primeira temporada está programada para ter oito episódios. Torço ferozmente para que ao fim desse ciclo, praticamente nada fique explicado. Estou quase torcendo para que fique desse enredo mais tumulto e dúvidas do que soluções. Chega de facilitar para nós, os infantilóides do século XXI. Tomara que esse enredo rompa com essa monotonia socrática de tapar todos os furos e deixar todas as arestas devidamente aplainadas. Tomara que sobrem dúvidas. E, principalmente: tomara que haja o mínimo de ‘temporadas’ possível. Quiçá apenas uma. Quiçá que nem a primeira termine. Quero terminar de assistir o seriado inconsolável, irritado e confuso, para variar dessa chatice cartesiana e desse quadro maçante e clichê onde em um ‘season finale’ tudo se explica e todas as sub-tramas ou se fecham ou ficam picando para garantir a necessidade de mais e mais e mais no semestre que vem.

É fácil de perceber que a fronteira do genial (perturbador) e do ridículo (pagação de mico), nesse caso, passa pela escolha dos produtores em tentar tapar todo e qualquer furo ou em deixar alguns elefantes (ainda que filhotes) na sala.

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Área VIP

9 set

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Quando do lançamento do primeiro filme efetivamente mainstream de Sofia Coppola – e o primeiro onde ela realmente chama a atenção como diretora, Lost in Translation (“Encontros e Desencontros“, 2003 – o anterior “As Virgens Suicidas“, de 1999, parece uma espécie de transição, e isso não é uma crítica negativa), uma pulga ficou atrás da orelha de alguns críticos, mesmo em meio à enxurrada de aplausos e avaliações positivas: o filme era tedioso, chato, em alguns momentos uma ode à monotonia.

Defendi a obra veementemente de todas esses ataques – até hoje gosto bastante dessa película –  com base em um único argumento, para mim, conclusivo: o filme transpira, sim, essa ‘chatice’, essa ‘melancolia’, essa solidão. É intencional: faz parte da ideia dele enquanto peça artística. Solidão e angústia de vários tipos, mesmo aquelas que se pode sentir caminhando em meio à rua mais lotada de uma das metrópoles mais populosas do planeta (e aquela Tóquio inteiramente barulhenta e iluminada de um modo nauseante é um trunfo magistral do enredo).

Dia desses, enquanto assistia “The Bling Ring” (2013) – novo trabalho de Sofia atrás das câmeras – me peguei um tanto irritadiço com algumas cenas iniciais do filme e com o ‘amadorismo’ de certos atores (bem como com alguns recortes da edição): parecia tudo artificial e vazio. Foi quando a lembrança do comparativo me veio à mente (e coincidentemente eu passei a me acomodar melhor e o filme ‘cresceu’): em se tratando de uma grande reflexão sobre o vazio, “The Bling Ring” só pode trazer consigo esse ar de futilidade, de banalidade, esse desassossego quanto ao acabamento ‘redondo’. A urgência da velocidade nos moldes internéticos é a “Tóquio”, o trunfo da vez, da diretora. Ao contar a história (verídica) de uma ‘gangue’ de adolescentes ricos e entediados que não vê maiores problemas em assaltar casas de personalidades famosas de Hollywood ou mesmo do jet set de Los Angeles – duas coisas de semelhante ‘capital simbólico’, mas definitivamente diferentes nos dias de hoje, intercalando as imagens com snapshots das fotos reais que a trupe exibia em suas redes sociais particulares, ela acerta tremendamente o alvo.

Uma geração marcada por pessoas cujo ‘furto’ é muito mais relativo à aura de glamour plastificado das ‘celebridades’ do que quanto ao valor monetário das mercadorias,  e cuja necessidade de exibição pública na web não poderia ter uma história romantizada nos moldes tradicionais. A narrativa beira o tosco em alguns momentos, mas rapidamente Sofia mostra a você que vernizes não interessam muito. Aliás, nada interessa muito: a vida deve ser vivida na medida de uma inconsequência que atua em um limite fino entre a insanidade autista e o calculismo mais frio, com pitadas de aventura pueril (e de precisar de símbolos de inserção e significantes de poder capitalista em um certo universo análogo ao do criminoso famélico). É quase como se os ‘furtos’ praticados pela trupe não tivessem qualquer sentido sem o complemento de publicações, fotos, ‘postagens’ ou do simples e imbecil espalhar da ‘novidade’ para os colegas, o que causou a fama efêmera (e também a prisão) do grupo.

Uma sensação parecida foi verificada assim que terminei de assistir “Spring Breakers” (2012), de Harmony Korine. Não gosto do diretor pelo mesmo motivo de que ironicamente ‘gosto’ de alguns outros: pelas tantas, alguns enquadramentos e tomadas e estilos de edição fazem com que parece que estamos assistindo ao mesmo filme, sempre. Até o ponto em que o filme se transforma inteiramente no padrão-modelo Korine (várias sacadas identificáveis ao longo de toda trama se ‘entregam’ definitivamente a partir de um ponto do enredo – não vou dizer qual é), achei uma obra bastante interessante.

O mesmo tédio, porém aqui usado como desculpa para fugir da mesmice, se entregando ao(s) vazio(s) e ao(s) artificialismo(s) por parte das garotas que acabam se envolvendo criminosamente (mais e mais) a fim de experienciar (e depois manter) uma vida de fruição eterna de festa e visceralidade distante de sua realidade limitada e tendente à apatia. As garotas de “Spring Breakers” decidiram ser as biatches sobre as quais as de “Bling Ring” cantam quando estão drogadas circulando em carros furtados.

Ambos filmes tem trechos que se irmanam: quando os jovens de “Bling Ring” vão aos clubes noturnos para se esbaldar na pista de dança ao lado dos famosos e socialites que acabaram de roubar (‘postando’ um arsenal de fotos no Facebook com o dinheiro e os artigos de luxo recém pilhados, sem dar muita bola para a exposição que levou a própria turma à ruína posterior), há um claro paralelo quando o traficante vivido por James Franco em “Spring Breakers” saltita em sua cama rodeado por dinheiro vivo, armas, gadgets, pares de tênis e peças de roupa de marca em cores e estampas de mal gosto proclamando que está vivendo ‘o novo american dream‘. As trilhas sonoras que abundam em hip-hop festivo e gritado em termos de ‘ostentação’ (no primeiro filme) e o frenesi do dubstep (no segundo) são um capítulo a parte: é uma estricnina sem dó nem conteúdo para além da celebração non-sense. São quase ‘atrizes’, personagens da trama.

Duas obras com referenciais bem atuais para se pensar as novas (e velhas) ‘drogas’ (lato senso) que têm sido usadas para preencher o vazio perene residual do tédio (esse sim, uma ‘doença’ juvenil constante).

Para quem se interessar, achei um curioso link no YouTube que simplesmente RESUME Spring Breakers inteiro em recortes e screenshots:

Emancipate yourselves

13 jul

Sempre fui fã do The Clash e de Joe Strummer e há tempos sabia da existência do documentário relativo à vida dele (já havia, aliás, assistido trechos variados e recortes do mesmo).

Dia desses eu e a Fernanda qui em casa tiramos um tempo para, com uma cópia em DVD emprestada, parar e assistir todas as quase duas horas de “The Future is Unwritten“, de Julien Temple (1997).

A conclusão é apenas uma: mais que um ídolo, um polemista, um grande performer, Joe Strummer foi um gigante.

Sua alma não aprisionável transitou entre o hippie e o hype, o punk e as rádios mainstream, o niilismo e o ativismo. Ao fim e ao cabo, percebe-se que na verdade ele não perpassou os rótulos: os rótulos é que estavam correndo atrás dele em busca de identificação. Seu pleito de união, amor, emancipação e busca de redenção no caos o configuram como um estranho nômade que por vezes foi rotulado, por outras se deixou rotular.

Sua luta por um mundo com valores mais simples (especialmente em seu ‘recomeço’ ao final da carreira) e os depoimentos acalorados de um sem número de pessoas influentes que se assumiram como ‘imitadores’ (no bom sentido) e ‘adoradores’ de Strummer falam por si: de Bono a Johnny Depp, passando por Steve Buscemi e Jim Jarmusch, uma série de personalidades artísticas aparece, ao redor da fogueira – como deve ser – para relembrar e homenagear o amigo e o ídolo.

Se você ainda está pensando se por acaso deve procurar assistir a película, uma dica: deixe-se contaminar pelo ‘teaser’ oficial do filme (video acima) onde Strummer interpreta “Redemption Song” (Bob Marley), enquanto um muro em sua homenagem é grafitado e ele discursa as palavras que encerram o filme:

As pessoas podem mudar tudo o que quiserem.

Qualquer coisa no mundo.

As pessoas vão seguindo seu caminho, e eu sou um deles.

Mas você precisa parar de seguir só nossa pequena trilha de ratos. As pessoas podem fazer qualquer coisa.

Isso é algo que eu estou começando a aprender.

As pessoas estão por aí, fazendo coisas ruins uns aos outros. É porque elas estão desumanizadas. É hora de recuperar a humanidade e coloca-la no centro do ringue.

 E ficar assim por um tempo.

A ganância não leva a lugar algum. Tinha que escrever isso numa grande placa da Times Square.

 Sem as pessoas não somos nada. É isso o que eu penso.

Lembrei-me disso – também – por causa do seguinte:

Nesse momento a Câmara de Vereadores de Porto Alegre segue ocupada por um grupo de manifestantes que pode ser descrito como integrante de uma ‘segunda onda’ de protestos nesse 2013 brasileiro (em que pese – creio eu – muitos desses integram ‘ondas’ de protestos e protestam sem ‘fazer onda’ e mesmo quando protestar ‘não está na onda’,  há tempos).

Ocorre que contraposições de ideias previsíveis e choques de posturas imagináveis devem ocorrer quando da necessidade de diálogo (ou quase isso) travada entre os manifestantes e uma nefasta camarilha de ‘políticos’ calcada na fisiologia, no clientelismo e em um elitismo puro e simples. E se o sujeito é elitista e burro (várias acepções do termo), a chance é imensa de ele ser mais um do estapafúrdio grupo que eu costumo chamar de fanáticos da homeostase política: os grandes catimbeiros jurídico-legais que procuram fazer de tudo para evitar qualquer discussão do mérito das ideias em debate ou fugir de qualquer tomada de postura enérgica em relação a algo.

Ontem – me contaram – um vereador criticou os pleitos dos manifestantes costeando o debate nuclear da discussão e saindo pela tangente de apelidá-los de “comunistas de MacBook”. Fantástico.

Em um mundo onde há pessoas que acreditam que tudo pode ser superficialmente tratado como ‘perturbação do trânsito’ ou mesmo ‘da ordem’ (lato senso), não admira se tudo isso não passar, para alguns, de uma questão de reintegração de posse. Concedida a liminar, a força policial retira todo mundo e o fato de o povo ter adentrado (alguns pela primeira vez na vida) em uma câmara legislativa vai ser colocado em segundo ou terceiro plano junto com suas eventuais reivindicações (legítimas ou não).

Enfim: caso a questão queira ser simplificada para algumas mentes obtusas, basta lembrar que Joe Strummer não poderia ter dito nada do que disse, nem feito nada do que fez, afinal, não poderia ter sido hippie ou punk, porque era um filho de diplomata.

Boa noite.

O SIM nega. O NÃO afirma.

11 mar

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O interessante “No” (Chile, 2012, Dir. Pablo Larraín) trabalha de forma um pouco amarga a questão dos paradoxos: em pleno 1988 (destaque para a fotografia do filme, que é propositalmente “oitentista” e deixa a experiência de se assistir no mínimo curiosa), um plebiscito fora convocado no Chile no apagar das luzes dos anos de chumbo para “decidir” se o governo ditatorial de Augusto Pinochet deveria seguir ou se o país deveria abrir as portas para uma nova era democrática, pós-golpe que depôs o ex-Presidente Salvador Allende quinze anos antes.

Visto por muitos como um simples reboot no próprio golpe, disposto a legitimar Pinochet naquilo que seria uma vitória certa com a máquina pública e os cães de guarda armados jogando a favor, o plebiscito levou a nação chilena a uma transição tão esperada quando surpreendente, em certo aspecto.

Desde o embate entre o “Não” e o “Sim” para decidir a permanência do regime militar, os contrapontos afloram: o protagonista (o talentoso Gael García Bernal, sempre adequado) parece a todo momento perdido em meio à vida de uma espécie de yuppie sul-americano às raias do fim do século, cercado por todos bens de consumo possíveis para a metade rica da população terceiromundista. Em compensação, parece perdido também quando a discussão eminentemente política se acirra no ambiente ao seu redor. Ele rigorosamente pensa em ‘vender’ (produtos ou ideologias, o que seja) em todos seus olhares e movimentos, em todos seus instantes, arroubos e mesmo letargias. Parece tão distante das coisas que acredita (se é que acredita) como o “acreditador” (ou vendedor) profissional que é. Seria isso mesmo?

Vemos no filme outros antagonismos, como uma esquerda e uma direita ‘clássicas’  tendo que fugir de alguns anacronismos e buscar ajudas impensáveis (o mercado publicitário “cool“) para sobreviver no imaginário popular.

Mas para além das segundas intenções semióticas, há uma questão que deve ser pensada em tempos de crises políticas (e éticas e institucionais) que se reiteram e propagam por todos os meios possíveis: a estratégia rejeitada pelo publicitário e anteriormente desejada pelo comando da campanha anti-ditatorial vislumbrava uma exibição midiática da dor, com temas revanchistas e eminentemente sombrios. Um ataque ressentido. Uma exposição de chagas. Uma descida ao campo do adversário e deliberada aceitação e ingresso na ‘guerra’.

Acusado de ser “alienado”, colonizado e falso, o protagonista decide focar a “alegria” como mote da campanha democrática pelo “não”, trazendo uma mensagem certeira que se apoiava em standards malandramente trabalhados: a “alegria”, a esperança do novo, a união, o sorriso. O emblema da campanha, o arco-íris, é exposto em uma reunião de cúpula como uma espécie de simbologia para a união de todos partidos de esquerda, mas é uma explicação mal-disfarçada. É, em realidade, mais um significante visual para essa “alegria” proposta, que ao lado de uma impensável “afirmação” de não (“No“) gerou um efeito de logomarca poderoso.

É perigoso reduzir a questão (inclusive histórica) trazida no filme a isso, mas que sirva, ao menos em porcentagem, de lição: não há êxito possível em combater certas machines, em certas ocasiões, com rage against. Fazer o jogo do adversário em alguns contextos é pedir para ser engolido.

O “fascismo fascinante” que deixa gente ignorante “fascinada” e o ideário reacionário podem, em vários momentos, ser confrontados com aquilo que o lado oposto tem de melhor.

Nunca vi um imbecil ser convencido de sua imbecilidade ao ser simplesmente informado de sua condição de imbecil ou de ser, em virtude dela, agredido.

Por vezes, o que se deve fazer é não responder à baixeza. Por vezes, o que se deve fazer é seguir propagando a paz e o amor e fazer valer a máxima de que uma ideia, cujo tempo chegou, é o que há de mais forte já visto. De minha parte, procuro fazer com que os índices de compartilhamento de humanismo sejam sempre equivalentes aos de ataques frontais à injustiça usando a ira que é arma típica dela, mas propositalmente fazendo o primeiro prevalecer sobre o segundo. Não me parece haver nenhum problema em recuar algumas casas em prol de alguns consensos que surtirão muito mais efeito prático do que um radicalismo de veias expostas a todo instante (sem abandonar a essência desse radicalismo nem aconselhar que essas veias estejam, sim, expostas e jorrando, em outros momentos). Será pecado ser ‘estratégico’ com seus ideais? Nem sempre. Eu e o protagonista concordaríamos.

Vencer discussões, ou garantir um resultado final favorável, nelas, é importante. Há que se ter um limite, sob pena de heróis revolucionários padecerem inócuos ante o momento mais crucial do combate.

Não é a todo momento que abriremos uma luta “franca” e obviamente não vai ser toda hora que derrubaremos o adversário com um nocaute de fazer medo. Por vezes se ganha nos pontos e na decisão dos árbitros e da platéia.

Imbuído da urgência dos oprimidos – e só, o “não” talvez não atingisse a vitória ou ao menos não penetrasse no âmago do imaginário popular. Armado com sua propositura sólida, e escancarada de modo a quase sempre estar no limite da pieguice, ora vejam, venceu.

À sua maneira, o protagonista (e toda equipe de publicitários) proporcionou parcela importantíssima da vitória democrática, mesmo que tenha de certa maneira jogado um jogo que tecnicamente também pertence ao adversário: um jogo, no entanto, que não era o mais sujo que o adversário conhece, nem onde ele leva sensível vantagem, necessariamente. “Vencer” deve ser ao menos levado em conta por quem luta.

A beleza intrínseca do ‘lutar’, quando desconsidera no mínimo a possibilidade e a vontade de triunfar, não é ode à  entrega e à valentia em si, senão que desculpa.

Trevas

28 jul

CERTA VEZ quando eu era menor, estava lendo uma revistinha do Super Homem (ali por mil novecentos e qualquer coisa – ainda não tinha internet, mas JURO que a televisão já era colorida) em que ele, desolado pela matança de inocentes ocasionada pela sua incessante guerra frente os supervilões que assolavam Metrópolis – e por uma certa crise insuspeita de meia idade – decidiu deliberadamente abandonar a terra e vagar sem rumo pelo espaço, errando entre planetas e civilizações até então desconhecidas.

O mesmo, guardadas as proporções, certa vez ocorreu com o Capitão América, que, ao metralhar um terrorista que iria matar reféns de modo despudorado (ah, o Capitão “América” e sua tendência típica relativa à bondade dos bons) entrou em depressão profunda: era um terrorista, sim, mas era antes um homem e por ele foi metralhado sem dó.

Ambos personagens, lá pelas tantas, se livraram de seus demônios internos como se em uma propaganda de tratamentos para impotência sexual masculina e recobraram a alegria de serem ‘heróis’ trazendo de volta seus uniformes para a lida diária da salvaguarda do mundo.

Batman é o único super-herói quadrinesco que jamais entrou em crise, nem jamais saiu da crise: quando o pequeno Bruce Wayne teve sua vida psíquica esfacelada por bandidos que mataram seus pais a sangue frio na saída de uma sessão de cinema em Gotham City, ele simplesmente passou a ser a crise.

Para entender corretamente o espírito que move o homem-morcego no seu incessante e frenético combate ao crime na sombria Gothan, uma premissa é básica: Batman/Bruce Wayne é um psicótico.

Seu desprezo pela vida na terra depois que dois terços de todo calor humano que o cercavam partiram diante de um ato de crueldade injustificável (o único que resta é o paternal e carinhoso mordomo Alfred que se desdobra em pai, mãe e melhor amigo do herói) é simbolizado por uma singela, porém perceptível, questão: Batman não é a ‘identidade secreta’ do playboy ignóbil ‘Bruce Wayne’, mas o contrário. ‘Bruce’, um milionário estúpido cuja intelectualidade é sobrepujada por um certo ar boçal de quem tem o mundo aos pés de sua conta bancária, é a tristonha alegoria que o amargurado Batman oferece ao ‘mundo real’. É ele o disfarce para o Morcego que jamais dorme (literal e figurativamente) nas entranhas da carcaça. Bruce, a farsa, é uma máscara debochada para o pequeno Bruce que a frieza do mundo matou junto com seus pais em um beco escuro numa noite gélida.

Talvez a constatação mais chocante a ser feita é de que no planeta inteiro, apenas uma pessoa pode ser comparável a Batman e apenas ela poderia revelar a chave da verdade que reside no coração petrificado do homem por trás da capa: o Coringa. O magistral vilão que é a sombra do herói e nele se vê refletido. Ambos loucos, movidos por uma demência que em Batman é obsessão e no Coringa é alegoria absurda. A racionalidade com que Batman pretensamente explica o leitmotiv de sua caminhada é moída diante do circo caótico do Coringa.

O Coringa é a demência de Batman exibida no espelho e devolvida com uma lisergia non-sense que foge a qualquer sentido natural.

A singeleza arquetípica dos elementos que compõem a trama de Batman é tão evidente que chega a ser risível em alguns pontos: sombra e luz evidenciadas, bem e mal procurando desesperadamente apartar e dispersão um para com o outro. Fracasso: ao ver Batman, não sabemos mais onde está sua sanidade e onde ele não quer e/ou precisa da sombra que o amaldiçoa para sempre.

O show tem que continuar, no entanto: algumas cenas do penúltimo filme da recente trilogia cinematográfica elaborada para o personagem por Chris Nolan dão um certo tom anestésico para tanta coisa em jogo e tanta tensão: Batman fraqueja ao pensar se deve seguir sua ‘carreira’ abdicando da paixão de sua amada ou ignorar o fato; as pessoas presas em balsas por uma armadilha do Coringa abrem mão de supostamente aniquilarem umas às outras para (também supostamente) salvarem sua própria pele. Em Hollywood, a bondade (dos bons) precisa estar em alta.

Faltou muito pouco, muitíssimo pouco, para que – em “O Cavaleiro das Trevas” (2008) o público se defrontasse com o que os fãs mais ardorosos de quadrinhos já tiveram que engolir doloridamente, esfolando a garganta: Batman é tão (ou mais) completamente maluco do que a turba de malfeitores aprisionada no Arkham Asylum – e não é à toa que, a despeito de lanchar punguistas nas horas vagas, Batman seja o super-heróis que mais está comumente às voltas com maníacos absolutamente problemáticos e envoltos em realidades absurdas como uma criatura que pensa ser o bobo da corte do baralho de cartas, até um sujeito travestido de espantalho, passando por um cidadão que se crê uma ave polar e grasna como tal.

A realidade do absurdo multicolorido que cerca a sobriedade austera de Batman é uma dica para que percebamos que o mundo, sua mente e seus sentimentos zombam dele a todo instante. Morto ou trancafiado sob ferros o último criminoso, tanto faz: sua luta (consigo mesmo) jamais terá fim.

***

Estou particularmente empolgado para ver o último filme dessa trilogia.

Confesso que quando foi lançado “Batman Begins” (2005) fiquei extremamente reticente. E não era para menos: as incursões infantilóides de Joel Schumacher pela condução dos trabalhos da série em “Batman Forever” (1995) e no ainda mais ultrajante “Batman and Robin” (1997) dão calafrios em qualquer pessoa com mais de seis neurônios em atividade.

Gosto demais dos dois filmes dirigidos por Tim Burton (que ainda se mostrava em sua fase gloriosa – considero-o hoje uma triste carreira decadente correndo atrás de si mesma), “Batman” (1989) e “Batman Returns” (1992). Em uma clara ‘homenagem’ ao seriado dos anos 60, Burton em uma Gothan literalmente gótica carnavalizou o enredo na medida certa para não cair no total ridículo e contou com um time de peso que inclui um fenomenal Jack Nicholson como um Coringa bonachão e demente, um Danny de Vito se superando em um assustador Pingüim e a inesquecível caracterização sado-mado de Michele Pfeiffer, sensualíssima e possibilitando achar crível algo como a ‘mulher-gato’.

O novo filme, é sabido, traz pirotecnia, exageros virtuais e explosivos e uma certa dose de necessária credulidade por parte de uma platéia de fãs (volto a dizer: por mais que se esteja vendo um filme sobre um mascarado que pula de edifícios fantasiado, a existência de uma “Batnave” e uma ‘mulher gato’ – mesmo que seja a fantástica em todos sentidos Anne Hathaway – é bizarra).

O vilão Bane – que fora absolutamente mal-explorado nas tenebrosas versões de Schumacher – faz a vez de antípoda para tudo que o homem-morcego representa. Não creio que conseguirá superar a atuação e a escolha certeira de elenco do filme antecedente – Aaron Eckhart é tanto fisicamente quanto gestualmente o sujeito perfeito e seu rosto transparece a beleza e o tom ‘paladino’ que o vilão – antes de virar um símbolo-pastiche da esquizofrenia (o Duas Caras) precisava ter. Sem falar naquela que (suspeito) é a maior caracterização de um ator em toda a história do cinema, que foi a de Heath Ledger como o Coringa em 2008 (fora o gênio Gary Oldman encarnando um Comissário Gordon dos sonhos de todo fã de quadrinhos).

Não sei o que ocorrerá nesse final de semana depois que eu assistir “The Dark Knight Rises”. O que é factível é que todo e qualquer filme ‘de super-herói’ precisará passar por uma cortina de fogo após o altíssimo (e adultíssimo) nível onde Chris Nolan e sua equipe levaram Batman.

Há cura?

2 abr

Contadamente, já li 11 obras de Sigmund Freud, 16 de Carl Jung e uma cacetada (cacetada mesmo) de obras SOBRE as teorias de ambos. Inclusive já escrevi um livro que envolve ambos autores (às vezes, juro, esqueço disso).

Isso faz de mim um especialista no assunto? Certamente NÃO, embora eu me considere uma espécie de “curioso com pedigree”.

O suficiente para, com muita tristeza, anunciar que há algo de (muito) errado no filme atualmente em cartaz sobre o triunvirato que engloba o pai da psicanálise e guardião zeloso de sua teoria (Freud), seu mais brilhante e mais rebelde discípulo inicial (Jung) e a paciente que mexeu com a cabeça e o coração do segundo e que notadamente intrigou o primeiro, Sabina Spielrein, “Um método perigoso”.

Baseado na peça de Christopher Hampton (The talking cure) e em outras obras literárias que englobam a conturbada relação de afinidade, cumplicidade e posterior ranço entre Freud e Jung, tendo o furacão Sabina na vida de Jung como tempero, o filme – minha exclusiva opinião – perde com a direção do tétrico David Cronenberg. O canadense nunca passou na minha goela, e sempre recebi mal seus filmes por mais que o roteiro seja interessante (das loucuras com um quê de aurora cyberpunk dos anos 80, como Scanners e Videodrome, até filmes que englobam uma brutalidade mais física e crua e urbana como Marcas da Violência). A bronca com a condução do filme pode ser realmente ausência de paladar, meu, para Cronenberg.

Mas o que o espectador não pode negar é a urgência com que eventos cruciais da relação Freud – Jung (principalmente para quem se interessa pelos bastidores da história da psicanálise e já conhece os fatos narrados) é trazida ainda crua para a tela: uma série de acontecimentos incríveis é apresentada a toque de caixa, como se quisessem realmente englobar em apenas duas horas tudo o que houve de importante na relação conturbada desses dois gênios. O momento em que Freud se recusa a ser “analisado” por seu “pupilo” e mesmo a incrível e lendária vez em que Jung “prevê” barulhos estranhos na mobília justamente quando tenta convencer Freud a lidar com eventos a-causais e não estritamente “científicos” surgem na tela sem emoção e sem nenhuma chance de cativar a audiência.

O que mais me irrita, no entanto, é o fato de que, diante de todo o brilhantismo, de toda controvérsia, de toda a ousadia teórica e toda coragem de ir fundo em um campo de pesquisa tão denso, Jung, uma das figuras mais incríveis da história do pensamento ocidental sempre, sempre e sempre é retratado no cinema apenas como um quadradão patético, por vezes bruto, por outras choroso, que não tinha habilidade nem para ser fiel a uma esposa nem para ter uma amante fixa.

Sabina é realmente uma figura interessantíssima (especialmente porque o filme faz uma certa justiça ao mostrar o que muitos escondem: as teses da – posteriormente “curada” e psiquiatra formada – “discípula” dos dois mestres veio a se fazer sentir dentre os sistemas teóricos de ambos, ainda que nem mesmo eles tenham admitido) e sua relação com Jung digna dos mais incríveis folhetins (mais incrível ainda por ter sido real e envolver quem envolveu). Mas essa prioridade ao romance violento entre ela e seu analista, e ao chauvinismo de Jung no trato com a questão, sempre suplantam qualquer possibilidade de se filmografar de forma biográfica a carreira (ou o resto dela) do suíço. Resumindo: sempre que envolveram Jung cinematograficamente, a coisa descamba (apenas) para um novelão das seis sobre um romance proibido.

Em suma: com a qualidade dos atores envolvidos (o trio – Michael Fassbender, Viggo Mortensen e Keira Knightley –  é afinadíssimo, embora, todos comentam, com uma certa razão, Knightley em seus surtos esteja quase à beira do abismo do ridículo. A participação de Vincent Cassel é um tanto insossa para um personagem interessante) e o ‘tamanho’ do projeto, eu esperava bem mais.

Uma dica para os tradutores responsáveis pela obra: até quem não entende inglês sacou que quando Sabina diz a Jung que quando seu pai lhe batia ela “get wet” não era exatamente URINAR (como na legenda) ao que ela se referia…

Melancolia (e a tristeza infinita)

19 ago

“The Earth is evil. No one will grieve for it”

Poucos aportes já fazem de “Melancolia“, de Lars Von Trier, um filme interessante.

Um deles é o fato de que uma seqüência inicial interminável que retrata um casamento onde NENHUM dos presentes parece não levar a vida dentro de uma farsa doentia é muito mais angustiante e assustador do que a possibilidade de um planeta estranho colidir com a terra e extinguir a vida toda.

A outra é a tétrica personagem de Kirsten Dunst, cujo misto de autismo com lucidez profunda em relação à miséria do mundo lega à platéia a frase definitiva (acima).

E se o fim do mundo – literal – for mesmo um alívio? Não há como FUGIR de algumas coisas (os cavalos do filme que o digam. O carrinho de golfe também).

Diante de toda covardia angustiante, um maremoto de fogo embebido em uma trilha sonora onírica e dilacerante parece um bálsamo. Sublime.

Não sei se morrer é realmente uma boa idéia. Mas morrer de mãos dadas com a Kirsten Dunst, certamente não é (N. do R.: SIM, é estranha. SIM, acho linda, não obstante. SIM, quem paga minhas contas sou eu).

Lars von Trier certamente é menor do que ele próprio imagina. Mas está na categoria dos que entendem DAS COISAS. Está, FROUXO.

Assistam.