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Senhor, piedade.

18 fev

yoani_efe(1)

O escritor cubano Pedro Juan Gutierrez (já falei dele, para o bem e para o malaqui) é constantemente comparado literariamente a Charles Bukowski, notadamente pelo submundo urbano que recheia suas obras plenas de sexo, drogas, obscuridade, malandragem e por sua escrita coloquial e amiga de palavras ditas ‘de baixo calão’.

Gutierrez volta e meia se aborrece com a comparação dado o fato de que enquanto seu colega germano-estadunidense admite um ‘amor’ (louco…) pelos derrotados, losers, vadios e desclassificados, o cubano nega essa proposição: seus personagens, segundo ele, estão jogados à miséria da vida de uma Havana marginal no pós-anos 90, mas de modo algum são ‘perdedores’: amam a vida, possuem sangue nas veias, fazem das tripas coração e carregam a coisa do jeito que dá. E são bem sucedidos na empreitada, de um jeito ou de outro. Quem já leu obras de ambos sabe que a comparação é pertinente e a opinião de Gutierrez sobre ela é mais pertinente ainda. Ele não faz troças de seus ‘losers‘, senão que sofre, vibra e (vá lá) vence junto com eles.

Fico admirado de ver que toda uma parcela de pessoas que comungam de uma certa postura política que vai de nuanças de liberalismo bem intencionado (como os defensores da ‘meritocracia‘), passando por pessoas que creem que Reinaldo Azevedo é (1) um intelectual e (2) um colunista digno de confiança até aqueles medíocres que ficam bradando bobagens como “direitos humanos para humanos direitos” tenham simplesmente COMPRADO irrestritamente o coitadismo com cor, cheiro e cara de fraude promovido por Yoaní Sanchez, a blogueira cubana que relata (veja bem…) desde o antro da miséria ditatorial habanera as agruras do regime.

Acreditei (piamente) na palavra de Yoaní Sanchez por um certo período da minha vida. Esse período durou de eu conhecer seu blog (Generación Y) até umas duas ou três semanas depois.

É muito estranho que uma ditadura que já fez muito mais e muito pior com muita gente tolere essa “grande” e “perigosa”  opositora, e ao invés de cortar os naipes dela, fique sistematicamente a prendendo e a espancando toda semana (segundo relatos dela própria) e abandonando ela da viatura em frente à sua casa, toda semana, para onde ela se esgueira até relatar tudo isso (toda semana…) em seu site.

Mais estranho ainda é o fato de que no Brasil do século XXI ainda haja pessoas que pensam que ‘vencem‘ uma discussão de cunho político associando toda e qualquer ideia colocada como “de esquerda” a uma espécie de apoio ao castrismo (e todos seus elementos, coerentes com o ideário marxista ou não) e/ou creia que para encerrar o assunto basta sugerir que o interlocutor “se mude para Cuba”. É de uma pobreza maior do que a dos barracos da periferia da capital cubana o estofo ideológico de acreditar que só existe ou desenvolvimentismo de notas elitistas ou o comunismo no formato que lhe deu Fidel e seu bloco político na ilha e que as pessoas são obrigadas a optar por apenas um ou outro, sem paradas ou restrições.

Enfim: jamais fui apoiador do regime castrista (jamais serei), mas é OFENSIVO à inteligência (a minha e, creio, a sua também) que uma mulher que se estivesse “do outro lado” seria tachada de farsante em dois minutos (ou duas semanas) seja o ‘símbolo’ que toda uma lógica PRECISA para se manter em pé apoiada em verdades que todos já conhecem.

Tudo

1 nov

No coração é que se travam as batalhas decisivas. Nessa remota arena em que Ronald Soares travou sua guerra contra o destino, a vida venceu a morte.

Não se trata de um impulso ‘sensual’ de se ‘torcer pelo bandido’ – bandido, fora-da-lei arquetípico – ou não apenas, o que faz com que a personagem literária, teatral, cinematográfica, etc, que se depare com o abuso da força da ‘lei’ ganhe o prestígio e a simpatia de quem sorve a história (ficcional ou não), muitas vezes.

Há um componente claro de ‘justiça’, essa volúvel constante, que oscila entre lados opostos como em um piscar de olhos paradoxal: nem sempre quem faz alguém sofrer agruras pode angariar apoio, ainda que seu ato esteja por algum nível de racionalidade e burocracia, justificado ou justificável.

O caso de Ronald Soares – ou, na identidade literária adotada por Luiz Eduardo Soares em seu livro, para contar a história de Ronald, Lukas Mello, há uma estranha e sob certo aspecto, perturbadora variável a ser contabilizada: o leitor da epopéia que culmina com o relato do capítulo mais sombrio da vida do economista carioca e de elementos que ajudaram a construir a pessoa (não um mero ‘anti’-herói ficcional), se afeiçoa a ele de modo a sofrer seu calvário quase como se ao seu lado estivesse.

A vida anterior de Lukas se manifestara sob uma forma biológica e mental, emocional e cognitiva inteiramente diversa daquela para a qual o cofre dentro do cofre servia de incubadora. Para resistir à dissipação da lucidez, Lukas precisaria raspar o tacho do amor à vida e amarrar as tripas do coração para formar um escudo protetor que lhe salvasse a autoestima e a compaixão. Para evitar que outro tipo de animal fosse gestado no lugar de sua alma, atrás da casca de seu corpo, seria necessário agarrar-se à memória dos filhos e da mulher, da mãe e também do irmão e do pai que se foram cedo de mais, e do mar – do mar cortado por um veleiro.

Lukas/Ronald foi pego por uma das mais meticulosas organizações policiais do mundo com dezenas de bocas nas botijas: filmado, grampeado, escutado, monitorado, devassado por mais de um ano, silenciosa e sorrateiramente, bem como vários outros membros de um mega-esquema de comércio de cocaína que ligava via oceano a Colômbia e a Inglaterra, não teve saída nenhuma se não se submeter a um longo e atordoante julgamento, onde a culpa e a condenação, certas, cresciam aos olhos do júri a cada escrutínio de evidência no telão e nos documentos.

Lukas/Ronald traficou drogas, em grande, enorme quantia, para a Inglaterra. Foi (do ponto de vista exclusivamente processual-penal), merecidamente condenado. Cumpriu parte da pena na ilha da Rainha. Extraditado ao Brasil, seguiu cumprindo outra parte aqui. Aí se dá o fenômeno incrível. Aí se dá o questionamento crítico maior: em praticamente nenhuma página ocorre ao leitor ou leitora acreditar piamente no protagonista como um malfeitor, um pulha ou um genuíno ‘bandido’.

Que estranho (ou não) movimento instintivo-básico é esse que faz com que leiamos uma obra sobre um traficante confesso e jamais pensemos nele do modo totalmente atabalhoado e absurdo como os agentes penitenciários da Inglaterra (que dada a quantidade de drogas por ele transferida, classificaram-no como um dos “presos mais perigosos do país”)?

Que tipo de sentimento percorre o leitor ou leitora que faz com que soframos com ele a loucura psíquica panóptica e doentiamente vigilante da prisão de Belmarsh? Quem somos nós, quando torcemos descarada e desenfreadamente para seu (malfadado) plano de fuga dar certo e para vermos o protagonista foragido das garras da coroa? O que nos faz ter raiva da brutalidade argumentativa da promotoria? O que exatamente faz com que vibremos, eufóricos, ao perceber que um erro (sim, um erro) diplomático-judicial foi o que fez com que Lukas/Ronald pudesse ‘progredir de regime’ quando fora extraditado ao Brasil – contrariando ordens e disposições expressas da Justiça Britânica?

Prisões não prescindem dessa visão estática e refratária às mudanças, uma vez que seu ofício é fixar o indivíduo ao ato do qual foi sujeito. A isso chamam sem involuntária ironia, regeneração ou ressocialização. Privar uma pessoa de sua liberdade é diferente de responsabilizar o cidadão por seus atos. Há formas civilizadas e evolutivas de fazê-lo, inclusive em benefício das vítimas. O animal humano não evolui em cativeiro.

Não há, em nenhum momento, em página alguma lida, a sensação, para quem lê, que o protagonista (em que pese um agente consciente do tráfico internacional de drogas) não seja um homem de bem. “Cidadão de Bem”.

Ainda que se tome alguma licença poética ou se deixe navegar por algum grau de parcialidade do autor (e como o Luiz Eduardo contista é bom! Tanto quanto o Luiz Eduardo meticuloso relator antropológico do cotidiano), não há como não mergulhar junto com Lukas/Ronald no absurdo teratológico de um mundo em que não querem que você se sinta confortável nem em meio ao maior relax nem assumidamente no mais forte dos business.

Não ‘torcemos’ por Lukas/Ronald só por saber que um homem não-violento por princípio, bom pai de família, branco, rico, e inteligente corria riscos degradantes em um depósito humano pestilento e sanguinário como é um presídio no Brasil. ‘Torcemos’ por ele também em meio à higiene total e angustiante das ultra-modernas prisões inglesas: sofremos com ele, como forma de darmos uma mão ao pobre sujeito que perigava enlouquecer diante de um zelo excessivo na medida do diabólico. Lukas/Ronald quase enlouqueceu (e/ou morreu) de solidão segura, de tristeza asséptica, em um cofre dentro de outro cofre, onde sobravam condições dignas (na medida do possível) apenas em relação ao corpo (e nenhuma em relação à alma).

Analisada sob o prisma do raquítico esteio meramente “jurídico” (é um livro muito bom e muito maior do que isso), “Tudo ou Nada” não se trata da velha e rasa crítica ‘ao sistema carcerário brasileiro’ – o sofrimento de quem lê diante da inaceitável situação de Lukas/Ronald também em presídios ingleses que alguns ignóbeis tupiniquins diriam que é “hotel de luxo” para “vagabundos” (seguido da eterna e estúpida cantilena que aduz a falsa noção de que estaríamos “pagando comida e roupa lavada para marginais”).

Torcemos por Lukas/Ronald nos momentos mais simples e nos mais descaradamente criminosos também. Percebemos (mérito inegável para a pena indefectível de Luiz Eduardo) o homem, o coração batendo, e percebemos que alguém como ele (independentemente de cor, classe ou credo) não pode ser tratado como o ‘malfeitor’ que, de fato, não é.

Lukas/Ronald e Luiz Eduardo não querem a pena nem a compaixão religiosa do leitor. Não há choramingos com o reles intuito de criar uma aura de vítima, fora aqueles momentos em que o próprio personagem assim devaneia – para logo depois ele mesmo, de sobressalto, abandonar a vertigem. Ele não é vítima, não se declara injustiçado e não atordoa o leitor que acompanha atento sua história como se o cordeiro imolado fosse. É um homem que errou dentre um negócio calculado onde o erro poderia ser grande na mesma proporção do lucro. Foi racional. Foi choice. Lukas/Ronald não foi marionete de ninguém e a sinceridade com que isso transborda é proporcional à lealdade que os leitores percebem na narrativa: Lukas/Ronald merece respeito, merece ser ouvido. Merece ser compreendido. Merece carinho, justamente por jamais optar pela fraqueza patética da vitimização.

A fronteira da pieguice é visível, mas os grandes sabem como navegar próximos a ela sem cruzá-la despudoradamente. Que sujeito responsa é Lukas/Ronald. E que história dele Luiz Eduardo nos conta.

Uma leitura indispensável.

Os Lóides

29 fev

Cheguei (bastante) atrasado, confesso, um pouco por preguiça, outro tanto por um pé atrás, para a festinha da nova geração de autores literários franceses (pós)modernetes.

Ano passado me arrisquei, depois de muito relutar, no Houellebecq (“Partículas Elementares“): a experiência foi positiva e divertida e várias leituras e pouco mais de um ano depois, fui de cabeça no Dantèc (“Raízes do Mal“), experiência  de leitura igualmente prazerosa e satisfatória. Baita livro.

O que chama a atenção é o fato de que os autores franceses disso que podemos chamar de ‘escola‘ ou estilo do final do século XX estão – ou devem estar – para a literatura de massa naquele país assim como a Martha Medeiros (e congêneres) está para a nossa. Antes que você tenha um surto (em todos sentidos), explico: a literatura incensada nos trópicos dos franceses maluquinhos da geração dos autores citados me parece extremamente pop (no sentido de popular, popularesca e de pop – remetendo à pop music, mesmo e também). Parece-me que é uma literatura para visitas descontraídas e descompromissadas. Assuntos como física quântica explicada em tom de ingenuidade ou ironia debochada, insights filosóficos de butiquim, amarguras humanas em metáforas escatológicas e amor (por que não? – englobando inclusive o sexo explícito) são pautas recorrentes.

O que me chama a atenção é o fato de que mesmo na literatura francesa mais rastaquera, referências possíveis são feitas tanto à Madonna quando a Mendelbrodt, tanto a grifes de roupas e marcas de cigarros quando a Freud e Jung e se diz muito palavrão e se evoca muito Camus, também.

Digo isso porque soa em mim um alerta ao ver que a mais urgente (para não dizer outra coisa) literatura francesa (o que deve espelhar um bocado também o modo de ser e de pensar de parte da população francesa atual) está apta a ter como “populacho” um romance que fale de pelos pubianos com a mesma simplicidade que fale de pitadas de neurociências e bioética. Em nosso país no entanto, ser ignóbil parece não apenas ser comum como sempre foi, mas agora, moda.

Enquanto isso, na grande ágora tupiniquim neo-conquistada (as redes sociais) qualquer pessoa que promova um pensamento mais reflexivo frente a alguma charada que o senso comum já matou é tachado de intelectualóide.

Sim, eu sei que existem (e como) categorias diversas de intelectuais que perdem seu tempo exclusivamente construindo castelos de areia mentais e teoréticos que servem apenas para deleite dos habitantes do laboratório (ou do monastério) e para nada mais.

Mas, percebam: “intelectualóide”, muitas vezes (na maioria dos casos), é um adjetivo que burros convictos e praticantes adotaram com fervor para defender sua burrice de alguma ameaça de inteligência exterior. Se você procura refletir, pensar, discutir seriamente algo, é grande o risco de ser tachado de uma farsa, um arremedo de intelectual que só cria e recria teorias para serem aplaudidas por uma casta de outros intelectualóides como você.

Fica a pergunta: onde estão, afinal, os intelectuais, se, na visão de alguns, só existem intelectualóides?

O que é preciso para ser um intelectual true? Ficar quietinho?

Não vejo necessidade nem propósito nenhum em fazer críticas ‘acadêmicas’ de fenômenos como o sucesso mundial da pior de todas as músicas do repertório do Michel Teló, mas igualmente vejo com um certo medo a transformação da ‘raiva’ contra os intelectuais partindo de supostos ‘descontraídos’ que estariam se sentindo ‘acuados’.

Se você quer defender uma espécie de direito natural à sua burrice inata, ok. Mas se quiser “permitir” o upload, estamos aí. Nós, os intelectuais. Ou lóides. Enfim.

Suciedád

24 jan

– Yo también. Todos los dias pensaba en ti veinte veces

– Serás puta, pero te quiero.

– Artista, artista…que es una puta? Una artista. Una actriz. En el vallú de Milagros yo era perfecta. Ellos no se daban cuenta que lo mío era teatro. Montaba una obra diferente para cada cliente. Atendía a tres o cuatro a cada dia. Si demoraban y pagaban más, jájájájá.

– Somos del mismo gremio.

– Los dos somos artistas, papi. Cuando bailaba era igual. Yo con mís bailes eróticos. Era la estrella del Palermo. Nadie sabía se era verdád o mentira. Ni yo mismo sé lo que bailaba era real o se lo fingia lo erotismo.

– Igual que mi con mís novelas. Ní yo mismo sé lo que es cierto e lo que es mentira.

– Al final, todo es verdád.

(Animal Tropical, p. 242)

A viagem de uma amiga à Argentina e o fato de que a edição da Cia. das Letras se mostrava (como até hoje) esgotada das prateleiras foram o que bastou para, à época em que deu vontade de ler a “Trilogia Suja de Havana” (e vontade é coisa que dá e passa, portanto, mãos à obra – literalmente), eu encomendar sua versão espanhola (ainda não havia sido publicada também a nova versão em português, pela Alfaguara).

Deleite: é difícil não se sentir completamente dilacerado pela narrativa, que se aproxima de um determinismo naturalista marginal como poucas coisas já escritas (ainda que o texto cru e o excesso de gírias e palavrões faça parecer simplesmente chulo e mal-escrito em alguns momentos – o que é verdade para vários trechos, mas não uma regra). Neo-Comunistas utópicos de botequim universitário glorificam o livro como uma espécie de manifesto de resistência. Penso, sinceramente, que Pedro Juan iria cagar para opiniões como essa, até porque, no metiê, os cubanos andam vivendo na merda há muito tempo e não, isso não é poético; o “empresariato“, por sua vez, não se cansa de usar o livro como uma espécie de diário de Anne Frank e/ou bula neo-liberal, opinião que igualmente, imagino que desagradaria Pedro Juan eis que (no arroubo que mostra o que de melhor há nele e em suas obras) já frisou que seus personagens não são nem nunca foram losers ou derrotados, e em que pese tudo, ele jamais pensa em deixar a ilha (oportunidades nunca lhe faltam). Todos falham e o texto está absurda e artisticamente acima da pobreza de análises político-partidárias sobre o mais controverso rincão caribenho.

O fato é que em meio a uma Cuba devastada mais pela nostalgia de um passado fake do que pela tenebrosa crise econômica, a amoralidade reina lado a lado com uma inexplicável ternura, e os desejos carnais desenfreados e a drogadição fornecem um panorama enlouquecido de uma cidade inteira vivendo em uma espécie de carnaval sangrento e caótico, onde todos tentam tocar a vida do jeito que dá, e estão constantemente  inebriados por alguma coisa (sexo, rum, macumba, ódio, paixão, vingança, fome, e a lista prossegue).

Apanhei um pouco para a contextualização de algumas expressões, no início (mais do que um livro escrito em língua hispânica, é um livro escrito em Cubano, ou, mais, em centro-habanero – sim, isso existe), mas a riqueza do texto me fez tomar uma importante decisão: sempre que fosse ler as obras desse cara, eu optaria pelo idioma original.

Alguns meses depois, adquiri El Rey de la Habanaque me pareceu uma espécie de remix do “Trilogia…” colocando em formato de novela toda a ambientação que o livro anterior trazia sob a forma de relatos e crônicas. O livro é igualmente muito bom, mas não há como negar que uma molécula de decepção rondava o desenrolar da obra quando notei que o autor em alguns momentos simplesmente reaproveitava material de maneira quase literal.

O próximo livro do autor que eu viria e ter em mãos – entre o final de 2009 e o início de 2010 – foi “Nuestro GG en La Habana” e novamente o problema da revisão (quando não transposição) de situações, personagens, desdobramentos de outros textos, mas, aqui, amenizada e turbinada por uma história original e divertidíssima: diz a lenda que o livro era uma “encomenda” da Cia. das Letras para integrar a coleção “Literatura ou Morte” – em que autores consagrados redigiam histórias fictícias envolvendo autores clássicos em tramas de mistério e crie – veja-se o livro de Veríssimo sobre Borges, o de Fonseca sobre Molière, e o de Scliar sobre Kafka por exemplo. A trama que envolvia seitas macabras, mafiosos americanos, travestís, bebedeiras e confusões com um farsante se fazendo passar por Graham Greene (e a inusitada aparição do próprio numa Havana dos anos 50 – palco de uma de suas mais famosas obras, “Nosso Homem em Havana“) tinha, segundo a mesma lenda, putaria demais e não pode ser aproveitada do jeito que era (…) Lançada fora da coleção, para o bem dos leitores, é uma historieta curta e envolvente.

No final do ano passado, achei que era o momento de pedrojuaniar novamente, já bem calejado pelas experiências anteriores. Escolheria um título aleatório do autor e encomendaria a versão espanhola. Caso fosse mais uma reprise infinita das mesmas situações e causos, o paredão do meu Big Brother particular votaria pela ELIMINAÇÃO de Pedro Juan.

Terminei semana passada a leitura de “Animal Tropical“. O resultado: o livro não é uma reprise dos anteriores, simplesmente. É uma espécie de reprise das sobras das sobras do lixo do ensaio dos anteriores.

Nos momentos bons, e Pedro Juan é bom, “Animal Tropical” brilha pouco perto das obras mais consagradas. Nos ruins, no entanto, chega a um nível desesperador de ruindade que rompe diversas vezes a barreira do CONSTRANGEDOR.

O “Pedro Juan” (misto de personagem, com alter-ego e por vezes ele mesmo, repórter do cotidiano) dá lugar a um aborrecido Pedro Juan Gutierrez literal e cinqüentão que está às voltas com suas jodiendas de sempre enquanto trata de administrar sua falta de grana crônica e lidar com duas (número incrivelmente baixo em se tratando do autor e do que ele costuma propagar sobre si mesmo) mulheres: uma é Glória, a mulata cubana e jinetera do Malecón que o eleva às alturas na cama. A outra é Agneta, uma sueca que ficou fascinada pelo sexismo da “Trilogia Suja…” e quer a todo custo levar Pedro Juan para junto de si, em Estocolmo.

O que era para ser o triste relato da maturidade do antigo personagem (se é que se pode chamar assim) vira – quando tenta ser “cabeça” – um festival de lamúrias com poucos momentos brilhantes, e atua – na maior parte do resto do texto – como um relato sem fim de um sexismo troglodita e completamente inoportuno. Páginas e páginas são gastas para descrições completamente sem nexo das sessões de nudez contemplativa e masturbação do protagonista, que por 12 ou 13 vezes perde cerca de dois parágrafos descrevendo o próprio falo e sua alardeada magnitude.

O sexo, componente tão importante no universo das tramas do autor, vira um enjôo em suas minuciosas descrições e para quem já leu outros livros de Pedro Juan – o fator “chocante” de crueza já soa como aquela piada que na primeira frase já conhecemos e terminamos por rir por complacência perante o amigo que conta : algo que eu jamais havia sentido com tanta intensidade nas obras de Pedro Juan veio à tona e inúmeras cenas de sexo narradas em detalhes corporais parecem marcadas pela total desnecessidade.

Se, segundo o New York Times, o sexo (na “Trilogia Suja…“) era a arma com que os cubanos do universo do autor golpeavam a cara da realidade enlouquecedora, em “Animal Tropical” o autor estaciona em uma espécie de pornografia sem fim e sem contundência alguma. Se a idéia é ser mal-educado, visceral, outsider, o tiro saiu completamente pela culatra e as cenas de nudez e sexo (e suas descrições “cirúrgicas”) que ocupam praticamente uma a cada três páginas tornam o livro chato e absolutamente infantil.

A cena em que, na Suécia, em uma vernissage, Pedro Juan saca para fora seu membro e propõe à amante uma pequena sessão de sexo oral em um canto reservado é praticamente como o símbolo do livro: quando se menos espera, em meio a uma narração sonolenta de um momento absolutamente murrinha, o sexo irrompe sem nenhum contexto, ou sensualidade ou propósito.

E assim como “El Rey de La Habana”, “Animal Tropical” (calma: no spoilers) termina de um jeito abrupto demais. Não aquele abrupto como uma cortina que desce tal uma navalha, e sim um abrupto que se assemelha mais a um bloqueio criativo.

Uma lástima que um autor notável por não deixar a peteca cair, na primeira vez que me apresenta algo ruim, o ruim é em um nível tão assustador que tenho dúvidas se ainda quero seguir com o projeto de completar toda sua coleção. Quem sabe eu me recupero do susto e encaro um próximo, que pode voltar a me conquistar? Enfim.

Fica a dica (ou não).