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‘Alento’

20 dez

foot

Dentre as variadas historietas de uma Porto Alegre que os anos não trazem mais catalogadas e volta e meia compartilhadas por meu pai, várias dizem respeito ao mítico Oswaldo Rolla. O “Foguinho“, como era chamado o professor Rolla foi um dos (se não o) maiores atletas da história do Rio Grande do Sul e uma sumidade no quesito futebolístico, onde, diz uma de suas lendas, ele foi tudo, ‘menos bola‘: jogador, árbitro, bandeirinha, dirigente e treinador.

É de sua fase na casamata que vêm alguns de seus mais divertidos folclores. Dentre eles, uma tirada que meu pai sempre recorda, de quando o professor Rolla era técnico do Grêmio: na iminência de contratar um zagueiro, a direção do clube queria o criterioso aval do decano maestro. Apresentado pessoalmente ao candidato à vaga, Rolla conversa com o atleta por alguns instantes, e escuta dele que o cabeceio é o seu ponto forte. De pronto, Rolla propõe um rápido teste de aptidão que o atleta prontamente se dispõe.

Então o seu forte é o cabeceio? Vejamos…cabeceia, negrão!” – grita Rolla jogando uma bola rente ao chão. O atleta mergulha como um golfinho em direção ao asfalto e cabeceia a bola com o nariz rente ao solo em uma manobra plástica e improvável.

Está dispensado, meu filho”, diz Rolla, para um incrédulo atleta – “bola no chão não se cabeceia, se chuta“.

Edinho, ex-atleta com passagem vitoriosa pelo Internacional, volante à moda antiga, mais propriamente chamado de cabeça de área, ao ser contratado pelo Grêmio, essa semana, cumpriu a praxe de todo o novato que quer agradar protocolarmente os dirigentes e torcida do tricolor porto-alegrense nos últimos tempos e conforme a liturgia gremista usou termos como “suar sangue”, “lutar bravamente” e uma insólita declaração que, se assim for necessário, dará “carrinhos de cabeça”.

Alguém avise o Edinho, por favor, que, apesar de eu torcer muito pelo sucesso dele no meu time, nós precisamos, especialmente nesse momento de vacas magérrimas, de duas coisas: primeiramente, de alguém que jogue bem. Seja bom de bola, simples assim.

Chega dessa confusão tosca de ares falsamente espartanos entre a ideia de um atleta de habilidades (tidas por inúteis) e pouco comprometimento e um atleta cujo valor está no esforço e na ‘vontade’. Vontade, amigos, é item de série que deve vir com o salário que um atleta profissional ganha no Brasil. “Luta” é o mínimo que se espera de um profissional, aliás. O imaginário, a mitologia gremista dos últimos tempos é de uma inspiração louvável, porém caolha e caótica, em um passado recente onde atletas que marcaram a trajetória do clube são lembrados apenas por sua ‘raça’, esquecendo-se que seus triunfos são igual ou diretamente proporcionais à sua qualidade. De Leon, Baidek, Dinho, Goiano, Lucas Leiva e outros que são comumente referidos no álbum de retratos de estimação da torcida tinham a imposição física e o caráter de batalhadores intermináveis (e a ausência de medo de rasgar os meiões e sujar o calção) como marca. Mas jogavam. Sabiam o que fazer com a bola em um nível acima da média.

(A outra é a noção extraída da lição de quem conhece: bola, no chão, se chuta, brother).

Especialmente Dinho, um dos meus maiores ídolos, que injustamente é sempre lembrado por sua truculência intransigente com as canelas adversárias e sua bandidagem, mas que raramente é referido como um meio campista de chute potente e certeiro, visão de jogo soberba, habilidade no passe longo e experiência de posicionamento (vale lembrar que antes de ser multicampeão no Grêmio, Dinho igualmente o foi no refinado São Paulo de Telê Santana, bi-campeão da América e do Mundo).

Há muito tempo a torcida do Grêmio se contenta com esse tipo de farsa mitológica, aplaudindo jogadores ruins como se uma velhacaria aqui, um pontapé mau-caráter acolá fossem o máximo esperado de um jogador macho que ‘impõe respeito’ e atua no ‘espírito gaúcho’ (outra invenção antropológica de quinta categoria, se querem saber, mas isso é assunto para outra hora). Edinho pode ser uma improvável e deliciosa afirmação no meio de campo gremista, tanto quanto pode terminar sendo mais um tristonho capítulo dessa idolatria da mediocridade travestida de tons supostamente aguerridos, esse padrão de elogio da mediocridade sob a desculpa de se opor, injustificadamente, rudeza e seriedade à qualidade futebolística.

Pensei nisso quando vi a repercussão das manifestações absolutamente infelizes promovidas pela atual gestão do DCE da UFRGS – uma chapa que se diz, orgulhosamente, de “direita” e que supostamente é “apartidária” e que, estranhamente, se vangloria em sua principal plataforma, de afastar os ‘ideários’ do PT do PSOL e do PSTU do diretório acadêmico central – o nome da chapa, aliás, que utiliza a expressão ‘livre’ para simbolizar essa plataforma é adequado a um país onde o novo PFL se chama “Democratas”.

Uma manifestação de natal bastante inadequada para uma comunicação de um órgão representativo oficial traz garotas seminuas vestidas de “mamãe noel”. Membros da gestão se manifestam continuamente nas redes sociais em odes contra “os comunistas” (Feliz 1954 para você também), e aderindo a discursos rasos, imbecis e inaceitáveis em “apoio” à eventos relacionados à ditadura militar e a cantilenas reacionaristas de baixa estirpe.

Não sei como chegamos a esse ponto, mas suspeito que o “fascismo fascinante que deixa gente ignorante fascinada” (como diz uma canção do meu tempo – período mezozóico) está em um momento de glória: pessoas descontentes com discursos históricos de esquerda (alguns, pré-históricos, admitamos…) estão como que prontas para aderir a qualquer orelhada ridícula de qualquer sub-teórico conservador que faz do ataque ao governismo petista e suas derivações uma profissão cega de fé que ousa debochar da inteligência dos interlocutores se auto-proclamando “livre” ou “sem partido”.

Adoraria – repito, repito, repito e repito – ver um desenvolvimento nacional de uma autêntica direita que (1) se assuma enquanto tal e (2) assuma uma pauta que não blasfeme contra a paciência de qualquer cristo que conheça alguma coisa sobre as agendas políticas.

Enquanto a “direita” se confundir com um militarismo revanchista, um elitismo patético, e um patrimonialismo asqueroso, meu posicionamento político segue tolhido e sem opção: virar sempre para a mão que a maioria das pessoas usa o relógio é mais do que uma escolha ideológica. É uma medida para que eu possa dormir em paz.

Ser “contra” a esquerda, o governo Dilma, os partidos de índole precipuamente socialista não precisa necessariamente significar abraçar a latrina política brasileira e seu pacote de preconceitos e seu livro de receitas burro e tacanha. Assim como ter ‘hombridade’ no futebol não se resume apenas a dar um bico na canela do atacante adversário e cuspir na cara do árbitro. A quantidade de bobos alegres é impressionante. Mas compreensível: ler Olavo de Carvalho e mirar a trava da chuteira no meio da tíbia do oponente é mais fácil do que pensar de verdade ou bater uma falta no ângulo. E sabendo disfarçar bem, você passa por batalhador. E por alguém que tem conteúdo. Pelo menos nos dezesseis minutos iniciais dá para enganar, eu garanto.

“Cabeceia, negrão“.

Onde mora o coração – cinco coisas que MEUS OLHOS VIRAM no Olímpico

29 nov

Meu pai, bem como toda turma de sua geração já assistiu os jogos de seu time em duascasas‘ diferentes. A minha geração – que não sabia o que era ilson –  vive agora um momento paradoxal: monumentos do mundo ‘como o conhecíamos’ (tais e quais o Papa João Paulo II, o Banco Meridional, o Michael Jackson, a trema, entre outros) ruíram ante o poder das cascas douradas dos dias que passam e símbolos monolíticos de uma vida toda dão lugar à novas construções, novas paisagens, novos cenários, nem sempre naturais ou benvindos, mas inexoráveis.

O Grêmio está prestes a abandonar o Estádio Olímpico e abraçar uma portentosa Arena em corner oposto do mapa da capital gaúcha. Enquanto “estrutura”, ninguém duvida que teremos um estágio melhor, mais bonito e mais adequado. Mas…o que fica de memória afetiva relacionada a um determinado solo, um determinado trecho de céu, de um determinado amontoado de concreto sujo em um determinado bairro?

Sem nenhuma pretensão de enumerar os MAIORES ou MELHORES ‘momentos’ vividos dentre a metafísica que habita o espaço abaixo dos refletores do ‘remendão da Azenha’ (nem seria possível historicamente, isso), decidi eleger cinco momentos que foram marcantes para os meus olhos e minha própria e exclusiva medula óssea. Concorde comigo, ou não. Essa é minha homenagem a um local onde tal um rei, chorei. E principalmente, sorri. Emoções vivi.

Certamente são escolhas tão aleatórias e irracionais quanto as podem ser aquelas do peito e da retina. Seriam os ‘seus’ momentos diferentes dos meus? Certamente. Mas, enfim:

5. Dener

Até hoje um princípio de riso destilado de ironia ronda o canto esquerdo dos meus lábios quando alguém elege o novo-velho-melhor-futuro-jogador-do-mundo. Suas características são sempre as mesmas (e ele é sempre brasileiro, o que nos poupa trabalho empírico de análise) : geralmente se evoca o arquétipo da lenda de David para mitificar algum neguinho raquítico que consiga elaborar uma ou duas diabruras com a bola frente a ontológicos ‘valentões maldosos’ ao ponto de realizar um papel que oscila entre o abuso de categoria e a micagem circense improdutiva. “Ginga”, “malícia”, “ousadia e alegria”, dizem.

Nesse quesito, o único sujeito que verdadeiramente  fez meu coração palpitar foi Dener. Por um motivo bem simples: Dener – e isso era visível de um modo cristalino ao ponto de ser constrangedor – era um neguinho true. Eu e meus primos Santiago e Thomaz assistíamos ali pelo início dos anos 90 algum jogo aleatório do campeonato paulista (estilo TV ligada, modo nonsense) e repentinamente o jogo que era apenas fruto do costume de ter o aparelho funcionando entre o som e a fúria perdidos no living se transformou na atração principal da sala daquele apartamento da 24 de Outubro. Havia um sujeito fazendo chover em campo e distribuindo gols e dribles com a camisa da Portuguesa, do tipo que sequer nos toscos jogos de videogame da época eram possíveis. Em 1993, a incipiente estrela – parece conto de fadas – desembarca no Grêmio por empréstimo. Não havia dúvidas de que Dener seria um dos maiores jogadores do mundo. Existia uma aura de investimento seguro nessa tese. No curto espaço de tempo em que esteve no Olímpico, Dener foi vice campeão da Copa do Brasil e teve fundamental atuação com a camisa tricolor na conquista do Campeonato Gaúcho. Mas um lance, ao menos, eu jamais esquecerei e foi mais impressionante do que qualquer outra coisa referida a ele quando me lembro de sua existência. E ocorreu ali, no ‘meu’ estádio.

Era um sábado frio e eu assistindo uma partida do gauchão que não valia absolutamente nada (entendam que na época eu tinha uns 14 anos e limitadas possibilidades de passatempo que não fugiam à regra do skate, dos livros e quadrinhos, dos Ramones, e das festinhas em início de carreira boêmia) a ponto de não lembrar se era contra o Novo Hamburgo ou o Lajeadense, quando, no lado o posto do campo, um adversário totalmente mal-intencionado desfere em Dener (o sujeito que eu havia ido lá para ver com meus próprios olhos)  uma coisa não chamarei de ‘carrinho’, uma vez que que se assemelhou a um leopardo raivoso abatendo um cervo em programas dominicais do Nat Geo. O neguinho deu uma espécie de salto ‘tesourinha’ e sabe-se lá como não só escapou das travas da chuteira adversária em um arrojo de fazer inveja aos produtores da série Matrix como ainda deu um jeito de fazer a bola passar por entre as pernas do adversário. Foi tranquilamente (em que pese não se conseguisse distinguir exatamente o que o garoto fez – mandinga ou negação das leis da física?) o maior drible que já vi. Na verdade, foi mais do que o cervo escapar do leopardo. Foi o cervo escapar do leopardo, correr até a toca, dar um prego na mulher do leopardo e deitar na sua cama para um ronco antes de seu algoz conseguir achar o caminho de volta. Felizmente o destino quis que Dener fizesse algo similar, desta vez registrado pelas câmeras e ora postado na rede mundial. Milagre tecnológico. Dener, lamentavelmente, viria a falecer tristemente em um acidente automobilístico no ano seguinte, defendendo a camisa do Vasco da Gama. O vídeo abaixo dura apenas 5 segundos. É quase um reles  giff animado. Mas define Dener e a promessa de um mundo melhor que ele deixou naqueles poucos meses de Olímpico, como nada mais poderia.

4. “…Uh, Fabiano”

Meu grande amigo (com quem aliás, há muito não falo) Frederico tinha uma habilidade rara, às raias da serventia nin-jitsu de transformar qualquer coisa ao seu redor em uma arma. Um Gambit juvenil com atuação entre o bairro Moinhos de Vento e aquela Capão da Canoa que os anos não trazem mais. Com bolachas recheadas São Luiz Nestlé (agora, neste século, denominadas “Bono“), então, o efeito era letal: passíveis de entrar no estádio sem serem barrados na revista, os pacotes de bolacha do Frederico eram um problema em potencial para os técnicos, auxiliares e jogadores adversários que estavam na casamata do banco de reservas em frente às Sociais do Olímpico: graças a um estilo de arremesso (que consistia em forçar a bolacha ‘em pé’ e usar o dedo médio para apoia-la e fazer pressão giratória no momento de atirar), o ‘projetil’ atingia uma velocidade rodopiante alucinatória e perigosa. Explodiam contra a casamata adversária em todos os jogos cerca de onze a vinte e seis bolachas. Eu disse explodiam. Dava medo. Olhares apreensivos por sobre o ferro indicavam curiosidade para ver a fonte dos ‘ataques’ e ao mesmo tempo medo, como o soldado entrincheirado tem, na olhadela de revesgueio por sobre a proteção da murada. Em um certo dia de sol de 1997, arremessar bolachas contra a casamata onde estavam os reservas do Internacional foi nossa principal e única diversão. O time insosso era goleado em Grenal (o único Grenal em que estive para presenciar uma derrota tão estrondosa – e a marca de uma geração onde o Inter tinha que se contentar com esses pequenos mimos de deus, uma vez que não havia chegado a fase de louros da década seguinte, e cujos grandes títulos ocupavam um passado quase lendário). Além de tudo, quase apanhei no T-5 na volta, presenciei dois assaltos e uma abordagem policial violentíssima, e fora o fato de que o ônibus fora alvejado por um tijolo no vidro próximo à Av. Osvaldo Aranha. E fora, ainda, que tomei uma flauta à distância de um então recém colega de graduação – e hoje admirável jurista Augusto Jobim – que fora ao campo rival trajando (não me perguntem), uma camisa do River Plate (não, não tem – infelizmente – como esquecer de nenhum causo ou detalhe desse dia horripilante) 

3. Outra história de Grenal (e um certo rapaz chamado Ronaldo)

Tempos um pouco mais felizes sucederiam aquele fatídico dia em que o Inter veio ao estádio Olímpico para fazer cinco gols tão estrondosos que fizeram quase serem desconsiderados cavalheiristicamente nas rodas de anedotas dos minguados dois que o Grêmio impôs (tanto que se fala costumeiramente daquele Grenal como o jogo em que “o Grêmio levou cinco”, e só).

O fato é que lá estávamos, eu, Thomaz Divan, Michel Carrard, Antônio “Gralha” Tettamanzy, Otávio Migliorini e tantos outros gremistas à espera de um clássico vingador em que pudéssemos comemorar o título gaúcho em cima do rival. Nossa torcida era majoritária e procurava botar a ordem ‘em casa’ cantando mais. Possuíamos um sólido meio campo guarnecido pelo capitão da equipe que era, inclusive Oleúde José Ribeiro, o coincidentemente alcunhado “Capitão“, um dos grandes volantes da era glacial do futebol brasileiro e um dos desportistas mais carrancudos da história (não havia como encará-lo por mais de quatro segundos sem fugir ou ser transformado em uma estátua de sal, dizia a lenda). Mas a jóia rara do escrete e grande esperança de brilho era um menino que cresceu ralando o joelho na grama daquele estádio, cresceu vestindo as três cores do Grêmio, à sombra e aos cuidados do irmão que podia ser muito bom de bola, mas parecia saber desde sempre que quando o caçula crescesse, não seria simplesmente um grande jogador. Seria o maior de todos. Era como a espera do messias, guardada a proporção de que esse messias era real, dentuço e sua vinda era uma questão contada de tempo até o atingir de sua idade profissional. A cada ano que passava, a ‘lenda‘ do garoto, enfileirando adversários e prêmios, categoria por categoria, aumentava. Sua chegada definitiva aos profissionais e seu batismo de fogo se deu naquele momento: com a mística de sempre fazer gols decisivos contra o Inter (até nisso eles têm nos imitado e parece ser D’Alessandro que é o encarregado da função reversa, nos últimos tempos), cabia a ele enfrentar entre outras coisas, a marcação cerrada do tarimbado e icônico capitão do lado de lá: Dunga.

O que se viu foi um show de covardia sem precedentes: o experiente e eterno líder da Seleção não via a cor da bola diante do assalto sem piedade do menino que além de ser o autor de um belo gol na partida, protagonizou jogadas absolutamente vexatórias para o até então temido e internacionalmente conceituado meio-campista. Dunga – bem como todo o time do Inter – passa pelas tantas a apelar para uma insuspeita violência raivosa que de nada adianta. Dizem que aí se originou uma espécie de ranço eterno de Dunga para com o ‘moleque’ que (intrigas) refletiu até mesmo no notório boicote que  ele, nos últimos tempos, ora treinador da seleção, promoveu perante o craque agora já experiente, igualmente, e mais afeito à noites de samba do que a treinamentos exaustivos. Enfim: o jogo foi todo do Grêmio e o show foi todo do menino. “Pelé! Pelé” comparava Paulo Sant’anna pelas ondas do rádio, um tanto de embriagado, outro de ufanista. Mas naquele domingo, toda comparação astronômica foi pouco. Finda partida, título ganho, fomos envolvidos em uma catarse em limites e pulamos da Arquibancada para o fosso e do fosso para o gramado, onde a trupe correu desgovernada de braços abertos como se não houvesse amanhã (e logicamente se dispersou contra a vontade – voltei para casa à pé, eis que meus documentos e dinheiro estavam na pochete de algum amigo que não recordarei agora). Foi a segunda (e última) das duas vezes em que ‘invadi’ o campo. O céu era o limite: nossa prata da casa havia humilhado o ídolo deles. O título era nosso. Nosso camisa dez era o melhor jogador do universo. Prenúncio de tempos felizes e idolatria duradoura. Como diz a tela, em certo momento daquele filme de Gaspar Noé: “O tempo destrói tudo”.

2. O gol de Ailton. Obviamente: aquele.

Em 1996 a senda (heh!) de vitórias e conquistas que justificavam delírios bravateiros parecia não se esgotar. Era, em termos futebolísticos, como fazer um estágio por cerca de quatro anos no paraíso adocicado prometido por fanáticos religiosos: certamente se o homem bom que morreria e iria para um céu equivalente a um spa luxuoso, com direito a néctar dado na boca por virgens desnudas, quisesse assistir a um futebolzinho, para variar de tanta fruição sensorial nesse édem de ternura, seu time seria o Grêmio da era Scolari na segunda metade dos anos 90.

O panorama dos jogos era esse: ou o Grêmio venceria com tranquilidade; ou o Grêmio poderia até vencer com dificuldade alguns jogos, mas satisfaria sua torcida com um espírito de luta sem igual; ou o Grêmio empataria quando lhe fosse preciso apenas o empate para saciar alguma classificação marota; ou o Grêmio perderia o duelo, mas de um jeito tão corajoso e determinado que deixaria fenomenalmente sua torcida ‘feliz’ mesmo com a derrota e o adversário (não raramente auxiliado por algum erro de arbitragem) consternado. Era a lei, Praticamente a regra, quebrada por umas pouquíssimas e desprezíveis derrotas ‘feias’ em todo o período. Torcer para o Grêmio era um passatempo glorioso, radiante, fleumático e feliz. Foi uma boa época futebolística.

Vieram gauchões, sequências de Grenais vitoriosos, a impressionante Libertadores na esteira de uma Copa do Brasil, a Recopa Sul-Americana e, em que pese o Mundial onde o cano da arma engasgou diante do imperial Ajax (que time, aquele – a base da seleção holandesa pelos aproximadamente cinco anos seguintes), a ausência de um título do Campeonato Brasileiro (levantada apenas em 81) já era “reclamada” por aquela então mimada torcida.

O Grêmio veio no campeonato enfileirando vitórias e resultados paralelos que lhe permitiram chegar na fase marcada por um estilo de fórmula onde nenhuma equipe do universo foi maior do que aquela: os confrontos diretos no estilo ‘mata-mata’ (contra o Grêmio, não raro os adversários diziam que era “morre-morre“). Passamos por uma série de adversários até o time se deparar com uma das ‘sensações’ daquele torneio: a Portuguesa (novamente ela, em meio a esse post…). Uma equipe jovem, veloz, habilidosa (onde o atual maestro da meia cancha tricolor, Zé Roberto, desfilava sua categoria para o mundo ver, pela primeira vez, entre outros craques). Parada dura. Uma derrota em São Paulo possibilitou que o time lusitano sonhasse com a manutenção da pedreira em Porto Alegre e pudesse ser alçado a uma condição inédita de campeão nacional.

Operava contra o Grêmio ainda o fator bairrista (interno e externo): o Grêmio àquela altura era o sul arrogante e cheio de brios, o time mais enjoado do decênio, que acumulava zica de todos seus rivais nacionais e uma plataforma de títulos incríveis nos anos anteriores contra a simpática, bem, Portuguesa. Ao chegar no Olímpico naquela tarde, pude perceber que a secação seria manifesta, admitida, desavergonhada e cruel: torcedores de todos times paulistas (destacadamente do Corinthians) vieram a Porto Alegre engrossar a minguada torcida do adversário.

Quando Paulo Nunes fez um gol antes dos primeiros oito minutos de partida, parecia um jogo de pouca intensidade cardíaca. Era contudo preciso dois gols. E o tempo passava. Lembro até hoje da acertada decisão de assistir o jogo em pé, colado à parede do último andar de degraus da Social: o panorama do campo visto dali é lindo, inebriante, lisérgico ao ponto de fazer esquecer do cansaço nas pernas. É uma espécie de upgrade em relação à imagem vista e captada pelas cabines de televisão que ficam logo mais acima. E ali eu sofri, tremi, tive uma brutal dor de barriga. Vi petecas da high-society portoalegrense desferindo palavrões inverbalizáveis. Vi crianças berrando. Vi idosos emulando enfizemas.

O tempo passava, a tensão aumentava, o título oscilava entre um tão perto e um tão longe. O jogo terminaria: o Grêmio deixaria escapar o caneco que esteve em seu colo por praticamente uma partida toda. Desespero em meio ao valhala.

Eis que…em uma bola toscamente alçada em linha reta para a área, em um notório lance de inconsequência que sabidamente não resultaria em (quase) nada, quando a Portuguesa estava a menos de dez minutos de silenciar toda torcida gremista, um dos zagueiros do time adversário escora a bola de cabeça de um jeito surpreendentemente desajeitado, despretensioso, não-intencional e abençoado, para trás. Seria um típico lance fútil, desgraçado e irritante de final do jogo em que a bola alçada na área parece ser a solução final dos descontrolados. Mas ele, o zagueiro, teve sua execução maculada por uma aberratio que custou caro demais a toda a história do clube paulista. O zagueiro cabeceou a bola na medida para um até então vendido no lance Ailton. E Ailton deu um chute-esporro que além de dar ao Grêmio a conquista de título mais emocionante que o estádio já presenciou, lhe permitiu sem nenhuma reserva comemorar o gol dentre unhadas dos companheiros gritando um já folclórico “Eu sou foda!” como nem a ausência de som da transmissão da Globo deixa mentir.

Longe de ser a primeira, e a última vez que um jogo no Olímpico me levava às lágrimas.

1. A Libertadores de 2007: quando um ESTÁDIO e uma TORCIDA quase ‘venceram‘ um campeonato:

Alguns dirão que eu não poderia escolher como meu “maior” momento vivido dentro do Estádio Olímpico uma alusão ‘genérica’ a todo um torneio que inclusive acabou sendo perdido pelo time em uma dolorosa dupla de jogos finais onde o Boca Jrs. orquestrado por um sobrenatural Riquelme simplesmente ‘fumou’ o título sem qualquer margem para discussão. Enfim. Tenho comigo a certeza de que se fosse o Olimpico um moribundo à beira de ter a aurora de seu ‘último pedido’ atendido, gostaria de ser lembrado, para sempre assim.

À merda com a ausência de títulos: em 2007 a sinergia manifestada entre equipe, estádio e gritos da torcida foi a maior coisa já vista e tornou a experiência de se torcer por uma equipe em um campo de futebol, algo análogo à felicidade bruta. Quem prestar atenção no vídeo abaixo pode ‘bater’ o relato com alguém como eu e outros tantos que estiveram em TODOS jogos no Olímpico daquela campanha, até a malfadada final: o estádio estava SEMPRE assim, em TODOS minutos de TODAS partidas.

A todos que já viveram, vibraram, choraram, xingaram, amaram, sofreram, pularam, chutaram, cuspiram, rezaram, blasfemaram, conspiraram, sorriram e  cantaram nas arquibancadas do Olímpico, essa é minha singela homenagem. Parabéns para nós:

Louco é quem me diz. E não é feliz.

15 set

Um apavorante e não suficientemente explicado atraso no ônibus que me traria de Passo Fundo para Porto Alegre, por motivos supostamente  mecânicos,  impediu que eu chegasse na manhã desse sábado na capital, na hora habitual. Impediu, pois, que eu realizasse uma série de pequenos compromissos que tinha planejados (nada muito grave, por sorte), mas impediu (isso sim, lamentável) que eu participasse de uma das mais bonitas e originais homenagens que um clube de futebol já recebeu: no derradeiro ano de uso do Estádio Olímpico, hoje, na data de aniversário do Grêmio, a sede da mais incrível parcela da história do time recebeu um ‘abraço simbólico’ de uma multidão de torcedores.

Isso me fez lembrar o (tenho certeza de que muitos vão estranhar)  um dos anos futebolísticos mais importantes da caminhada gremista – ao menos para mim: dois mil e sete. Não, você não leu errado: dois mil e sete do nosso senhor, um ano em que o Grêmio culminou uma inacreditável campanha na Libertadores com uma legítima FUMADA orquestrada por Roman Riquelme e minguou ao fim do ano com apenas um Gauchão na conta.

Algo porém, ocorreu no meu peito naquele ano incomum: por mais que os títulos grandes não tenham vindo, era paradoxal (à época) o sentimento por mim vivenciado. Era febril, confortably numb: eu estava feliz com o time se doando em campo, com o que a torcida de forma épica fazia a cada partida, com o futebol “eletrocardiograma” apresentado, com o clima do estádio. Feliz. E isso era tão independente das grandes conquistas e títulos que chegava a ser misterioso.

Dizemos do Brasil que é o ‘país do futebol’: discordo. Perdemos ao longo do último século uma alegria marota – cadência do samba – e uma irreverência no quesito ‘torcida’. O brasileiro torcedor de futebol médio se transformou num baba ovo de estatísticas internéticas que faz driblezinhos com o Dí Maria e o Rooney no videogame usando camisa do Messi. Nessa toada, acho que era bom dar uma espiada por cima do prata para nossos vizinhos uruguaios e argentinos, ou – para os admiradores xiitas do velho mundo – ingleses, para aprender um pouco sobre o que significa torcer e, bem, amar um time.

Não importando a boa ou má fase, as conquistas recentes ou passadas, o atual elenco, os verdadeiros apaixonados torcem. Sofrem, bem verdade, mas igualmente se divertem e fazem de algo como o futebol algo relativo e próprio para cumprir sua verdadeira função.

No dia em que o país vier (ou voltar) a ser o país do futebol, trocaremos brigas estúpidas e provocações infantilóides por uma gozação irreverente, camarada, verdadeiramente malandra. E abandonaremos enfim esse racionalismo burocrata que promoveu uma EA-SPORTSização do nosso passatempo favorito. Estaremos então (ou novamente) prontos para amar nosso clube. E quem ama, bem verdade, não quer se ferir, mas, igualmente, não pensa muito nisso.

Quando me senti ultrajado e apunhalado pela Unesul por não ter ido ao Olímpico num sábado abafado para me amontoar com milhares de outros doentes mentais não para ver uma partida de futebol, mas sim para promover um ‘abraço’ em um prédio, percebo mais uma vez como o amor verdadeiro pode ser inebriante.

Parabéns, Grêmio. E obrigado por cada dia, por cada troféu, por cada Gre-Nal vencido, e perdido; por cada impedimento roubado da gente e por cada vitória magra. Por emoções que vão do Japão a Recife. Do Hamburgo ao Asa de Arapiraca. Obrigado por ajudar – com irracionalismo e despretensão – à vida ter mais sentido.

“Está valendo!” (depois de transitado…)

9 dez

 

Dia desses, em meio a uma conversa entre um almoço e um carioquinha na companhia da nata da Procuradoria da FEDERAL BOX, discutíamos como vezenquando ocorre, o esporte bretão.

A pauta girava em torno da então polêmica punição para o zagueiro colorado Bolívar, cujo prego duraria (em decisão de primeira instância, já revertida) até a recuperação física do lateral Dodô, cuja lesão fora causada por uma jogada, digamos, não muito cuidadosa por parte do General (veja).

Não houve quem não achasse a medida um pouco estranha e digna de períodos hamurábicos (em que pese a grossura do defensor solando o meio da canela do adversário): meu pai – colorado antigo (sim, não torço para o mesmo time que meu pai, já devo ter falado sobre com você que está lendo sobre isso) – retrucou dizendo que era um retorno ao Talião e questionou que se porventura o jogador baiano viesse a falecer após uma colisão com o não muito delicado defensor do Inter, esse não iria, pelo STJD ser condenado à morte.

Brincadeiras à parte, nós, na mesa, e todos (salvo, imagino, os familiares do baiano Dodô – pouparei a piada infame que envolveria Armandinho e Osmar, aqui) conseguimos perceber o quão patética e desmedida por vezes consegue ser a ingerência de um Tribunal sobre assuntos futebolísticos que muito bem devem se resolver na bola, na raça e no apito dentro das quatro linhas (Bolívar merecia de fato o vermelho. Levou o Amarelo do árbitro).

Não há cristão fã do esporte em questão que já não tenha torcido o nariz para alguma decisão prolatada pelas instâncias da “justiça desportiva”: e assim craques são impedidos burocraticamente de entrar em partidas, pontos importantes são surrupiados da tabela, técnicos são barrados e uma infindável série similar de elementos nitidamente do jogo são estabelecidos não por um passe de 30 metros, na trivela de um meia habilidoso, mas sim pelo canetaço de um magistrado numa sala ar-condicionada.

Hei de ver raiar o dia que quanto à justiça dita comum pairará as mesma indignação e perplexidade: a judicialização extrema de questões futebolísticas é metáfora para a condição em que vivemos. Ao invés de usar a jurisdicionalidade como muleta acessória para regular aquilo que é estritamente drástico no nosso convívio social, a idéia que inexplicavelmente mais se engrandece como um centroavante corpulento tal um touro em disparada correndo em direção à área é a de que devemos cada vez mais pugnar pela indispensabilidade da justiça.

A justiça é indispensável (fato). A jurisdicionalidade: não sei. Ou melhor. Cada vez mais SEI…

A questão poderá ganhar ares de discussão mais madura (ou não) quando as pessoas começarem a transmitir a mesma inconformidade com o crivo jurisdicional para questões de nítida economia interna dos gramados para a visão jurídico-política do mundo real: a burocratização leviatãnica que é condição do Estado tanto quanto é seu efeito colateral não possui mais guarida pacata no nosso imaginário. Falta algum tipo de empurrãozinho e ela cai.

Paulatinamente se vai destrinchando as cortinas do palco que esconde um Mágico de Oz que se revela fracote e inseguro, e mal posso esperar para quando juízes, promotores, procuradores e – principalmente – toda sua clientela habitual passar a crer na judicialização das relações sociais não como algo a ser obrigatoriamente feito para um tipo de chancela da realidade para torná-la real, mas sim numa escala que vai de mal necessário (para alguns casos extremos) a MICO proveniente de CHILIQUE a ser coibido.

Enfim.

***

Sobre o brasileirão e sua eletrizante rodada final, especialmente, eu diria que tudo deu errado em termos emotivos para mim: queria sinceramente ver o Vasco campeão, o Corinthians fracassando, o Cruzeiro rebaixado, o Atlético-PR na primeira e o Grêmio vitorioso no clássico. Aliás, falando em Grêmio, 2011 bem que poderia ser um ano futebolisticamente riscado do calendário. Nada anormal diante de um quadro tenebroso em que a própria diretoria ‘decreta’ o encerramento da temporada uns bons dois meses e meio antes de seu efetivo fim. Que venha a próxima, por tudo que há de sagrado.

Em um ano que esse incrível Vasco da Gama conquistou a Copa do Brasil, beliscou a Sul-Americana, foi vice do Brasileiro, com um elenco mais afinado que orquestra e gerido por genuínos craques (os veteranos Felipe, Juninho e o biruta Diego Souza, uma estranha e impressionante versão anos 2000 para o animal Edmundo), estranho que se passe o tempo todo falando das variações cada vez mais ridículas do corte de cabelo de Neymar.

CHOREI SANGUE

18 mar

PUTA QUE O PARIU. Que troço lindo.

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Flecha do tempo/alvo da memória

9 mar

VERSA uma conhecida lenda urbana porteña que desde sua morte, Carlos Gardel canta cada vez melhor.

Tempo, mano velho. Essa eterna incorporadora que ergue e derruba coisas.

Os mitos durante muito tempo tiveram o tempo em seu exclusivo favor. Vento em POPA. O tempo fazia o mito. O mito era maior e mais apreciado a cada vez que a memória se inebriava com o licor dos dias que passam.

Daí vêm essas malditas tecnologias que MEIO QUE eternizam a memória e o mito passou a ter que suar mais. Tempos difíceis para quem vivia uma vida de marajá.

Assisti ontem a Barcelona 3 x 1 Arsenal na ESPN. O futebol praticado pela esquadra catalã praticamente empata com aquilo que todo admirador desse esporte idealiza como a perfeição em campo: os toques curtos sorrateiros dos jogadores do time espanhol fazem deles bailarinos, TRAPEZISTAS que estão no lugar certo e no momento exato para receber o passe na linha tênue que separa o espetáculo da tragédia – embora façam isso quase sem se olhar e com uma expressão facial que denota desdém, típica dos GRANDES quando querem fazer pensar que nem precisam treinar para o serem.

O trio formado por Xavi, Iniesta e Messi – a estrela maior da Companhia – promove brincadeiras tão precisas e é dono de uma seriedade tão festiva que a gente nem sabe mais o que é o que. UM que ROLA para o outro que ESTICA para o um que olha para LÁ e LARGA a bola para cá onde não tem ninguém e…TEM. No jogo do Barcelona eu, você e o adversário sempre achamos que não tem ninguém. Sempre tem alguém. É um tal de Daniel Alves entrando correndo no vácuo da ponta, um Villa se apresentando no meio dos zagueiros como um leopardo, um Abidal que chega de longe e enfia a bicanca. Se o brasileiro Adriano fosse melhorzin’ e resolvesse tipo CHUTAR visando o gol ao invés de PIPOCAR visivelmente nas DUAS ou SEIS vezes que recebeu a bola de presente, cabia mais uns dois gols na META do pobre goleiro inglês que bem que ajudou bastante a evitar que a derrota ganhasse ares de massacre.

Saí da frente da TV meio abalado: como seria o Botafogo de Nilton Santos e (óbvio) a instituição do inconsciente coletivo futebolístico brasileiro, o “Santos de Pelé”? Jogavam tal e qual isso que eu acabara de ver?

Para desespero da mitologia, levando-se em conta nível técnico, preparo físico e condições de aperfeiçoamento humano (maiores hoje que em 1968, certamente), TUDO impõe a crer que o Barcelona que andamos vendo ultimamente esteja credenciado a ser tido como (por que não?) a equipe que joga o melhor futebol da história.

Diabos: a memória dos caciques da tribo não falha. Não falha? TANTOS FILÓSOFOS, tal e qual o BIGODE já provaram que esquecer não é uma potência má da natureza e sim algo que POSSIBILITA a vida; NEUROLOGISTAS já comprovaram que a (in)capacidade humana para memorizar tudo o que vê-ouve-cheira-sente é inclusive uma impossibilidade plástica do cérebro. E inúmeros POETAS de bar na MADRUGADA nos contam que o tempo funciona nas lendas como muito mais que um tempero.

Cresci com meu pai me ensinando que fora aqueles dois que você já sabe quem são (um argentino nanico e um negão dos nossos), os melhores jogadores de todos os tempos foram o húngaro Puskas, o holandês Cruyff, o espanhol Gento e o argentino/espanhol Di Stefano.

Temos alguns registros em vídeo de Puskas metendo uma que outra bucha (era meio gordinho). Temos uma imortalização da LENDA de Di Stéfano pelo Real Madrid, de quem é patrono. Quanto ao GENTO, a primeira vez que vi a CARA do cidadão (nunca tinha ocorrido) foi agora pouco, via Google.

Cruyff  já é um jogador das eras de Copas do mundo televisionadas, e Maradona muito mais, tanto que no auge do seu brilhantismo pude vê-lo em campo com a camisa argentina e com a do Napoli.

Pelé teve o momento mais bonito de sua carreira (dizem os peléologistas ou Peléontólogos) num jogo contra o Juventus paulista em um gol que – INCRÍVEL – não foi filmado: a seqüência de balõezinhos nos adversários foi recriada por computador segundo (hrrann-haannn – pigarro) a memória das TESTEMUNHAS oculares (aqui).

O QUE VAI OCORRER com essa turma toda se temos, agora, concorrendo com a MEMÓRIA videos espalhados pelos quatro cantos do globo registrando as peripécias de Messi; e os toques de Ronaldinho (o pilantra) quando vestia a mesma camisa 10 azul e grená; e de Cristiano Ronaldo enfileirando defensores e disparando um míssel no canto do indefeso goleiro; e de Riquelme segurando a bola (fortaleza) e deslizando por entre adversários com uma cara de vítima enigmática e irritante?

O QUE VAI OCORRER com a memória dos mais velhos frente a uma criança que tem como referência de mitos fundadores Romário e Bebeto – e que TEM PROVAS de quanto o baixinho e o baiano realmente apavoravam? Pouco a pouco, as gerações não mais aceitarão elementos memoriais nas discussões (bem como os cultores da razão moderna não aceitam o misticismo e  a pajelança como explicações para nada), até porque um tempo em que sequer Youtube havia, vai ser a pré-história de um futuro muito breve.

Enfim: o prognóstico é o de que caso não haja algum CRIME como ocorreu o ano passado (sem tirar os méritos da Internazionale, que triunfou em uma atuação épica sobre o próprio Barcelona) o time espanhol merece (e tem tranqüilas condições para) vencer se não todos os torneios que disputar pelo menos a maior e melhor parte deles, incluindo o troféu maior da europa e a taça dentro do seu próprio quintal.

Afinal…bem, veja você mesmo, AQUI : na jogada que começa a 1:25 min. Iniesta como se um cirurgião fosse, INSERE uma bola no meio da defesa inglesa e Messi, tal um super-herói dá um toquinho por cima do goleiro e AFUNDA para dentro da rede. Na jogada que inicia aos 2:51 min. o mesmo Iniesta coloca a bola em Pedro que com um toque absolutamente blasé encontra Xavi na área livre para a COVARDIA. A correria que todos os jogadores do Barcelona promove os faz brotar como formigas na área adversária. Ali pelos 3:13 min. começa mais uma troca rápida de passes que resulta em Xavi achando Pedro que (adivinhem) VEM CORRENDO de ALGUM LUGAR não identificado por mim nem pelos zagueiros adversários e sofre o pênalti convertido por Messi que termina por sacramentar a vitória do Barcelona (para quem se interessar, aos 2:07 min., o gol do Arsenal: Busquets, marcando contra – o Barcelona faz até o gol do OUTRO time).

Time Flies

5 jan

Não sei como vai se desenrolar o – prometido para hojecapítulo final da novela que promete colocar Ronaldinho de volta ao futebol profissional Brasil para enfim encerrar a carreira devolver ao grande público o desaparecido e fino bailar de seus dias alegres.

Escrevo antes de saber o desfecho final das sempre TRAMPOSAS negociações conduzidas pelo pau-no-cu seu irmão-empresário, Assis, que prometem vestir no ídolo a JAQUETA de Grêmio, ou Flamengo. Ou Palmeiras. Ou Blackburn Rovers. Ou Liverpool. Ou  _________ (nunca se sabe. Para todos casos deixo aqui avisado que minha galera costuma jogar às 20:30 dos domingos na HD próxima à PUCRS e volta e meia falta alguém para COMPLETAR time).

É preciso dizer um dos episódios marcantes de minha vida de fã futebolístico foi a – até agora – última vez (das várias, acredite) que a felicidade me fez transbordar de alegria ao ponto de INVADIR no mais puro aba-retismo Popeye Terror style o gramado do MONUMENTAL após uma partida e correr COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ pelo tapete verde macio mal e mal se dando conta do despautério. E fugindo das IMINENTES borrachadas da Brigada na malandragem logo após o ARROUBO inicial para pular da arquibancada pro fosso e do fosso pro campo e então correr de braços abertos como um debilóide.

O ano era o de 1999 do nosso senhor: o Grêmio humilhava o colorado (apesar do magro 1 a zero) e levava o título do Gaúchão. O gurí aprontou: para quem não lembra, esse vídeo aqui rememora o gol que fez Paulo Sant’anna berrar de forma oligofrênica durante meio minuto na Gaúcha “Peléééééééééé….Pelééééééééé” – uma janelinha em Anderson e um chute pra dentro do filó, após um passe milimétrico do inesqueícel Capitão Oleúde. Fora que Dunga – que visivelmente perdeu a sanidade e se rebaixou ao longo da partida tentando resolver no coice o que não conseguiu fazer na préza, levou uma entortada e um chapéu que o deixaram procurando a pelota até hoje de tarde (atentem para o final do vídeo, onde rola um champagne SEXY na banheira do vestiário – e corrente dourada).

ACONTECESSEM as coisas diferentes em uma realidade paralela e Ronaldinho não tivesse (orquestrado por Assis, fato, mas sem qualquer traço de inimputabilidade…) deixado o Olímpico em uma transação em que apenas ele e seu irmão embolsaram grana e o Grêmio ficou a ver uma de suas maiores minas de ouro potenciais ir embora sem nem dar tchau, uma ano a mais, possivelmente, e teríamos um quadro completamente inverso, ao menos para metade de Porto Alegre: Ronaldinho seria celebrado em sua volta, custasse o que tivesse que ser pago a Assis, ao Berlusconi, aos sheiks, a quem quer que seja.

Seria uma década inteira de gremistas orgulhosos com cada mergulho do neguinho com a camisa do Paris Saint Germain como um falcão rastreando a grande área alheia em busca da presa fácil. Uma década inteira de regozijos a cada vez que o Barcelona vencia em virtude de seus dribles e lançamentos sobrenaturais. Uma década em que uma torcida inteira vibraria com o menor sinal de bobajadas como o toque firulístico para o lado, enquanto o rabo de cavalo fashionmente controverso e o olhar miram para outro.

Ao contrário, fora instalada pelas circunstâncias uma cultura do ódio que amargou um calor putrefato nas entranhas durante o biênio 2004/2005, quando o traíra se enfileirava de vez entre os maiores jogadores de todos os tempos, mas que fora transformado no DOCE CHANTILLY do RANCOR vitorioso quando o atleta, cada vez mais ex, fracassou em seu último ano de Barcelona, e veio como um boi avariado escada abaixo acumulando fiascos inenarráveis que quase (nessa era de instantaneidades) BORRAM nesses últimos 5 anos tudo o que ele já fez de incrível na vida: na Seleção o declínio físico e técnico se verificou e agora vemos o cume invertido de uma por vezes comum (nos melhores casos), por outras absolutamente patética atuação com o manto secular Milanês.

Hoje, famoso por sambadinhas melancólicas a cada vez que marca seus escassos tentos e muito mais afeito a freqüentar pagodáços onde se veste como um proxeneta over do que por jogar O QUE SABE, Ronaldinho periga vir para o Grêmio. Ou para o Flamengo. Ou Para o Palmeiras, whatever (meu dedo coça…vai ser a MAIOR ATUALIZAÇÃO videogamística da história dos meus Fifa 11 e PES).

Diante do inegável – contudo – sucesso de PÚSTULAS mercenários que têm voltado aos seus times de origem por valores astronômicos disfarçados de sentimento “quero o bifinho com farofa da minha avó”, talvez seja hora de, friamente, pensar em tudo o que o sujeito fará o time que o acolher lucrar. Entre BURBURINHO lucrável, camisetas patrocinadas, à venda de ingressos, passando pelo aumento de sócios, chegando nas maiores cotas de TV à CONSTÂNCIA no Globo Esporte (em caso de tanto de glória como de vexame) e em todos os noticiosos esportivos brasileiros e quiçá internacionais.

Vale lembrar que, se além de tudo isso resolver BATER um pouco de BOLA na MEIA-BOMBA do velho estilo, periga igualmente fazer pela esquadra o que fizeram Adriano (que saiu da semi-mendicância em Milão para fazer do improvável Flamengo o campeão brasileiro de 2009), Ronaldo (que mesmo sem jogar há um ano praticamente guardou no próprio bolso os títulos da Copa do Brasil e do Paulistão do mesmo ano), Robinho (que caiu como uma luva no já azeitado time do Santos) e, o caso, na minha opinião, mais emblemático se o clube em questão for o Grêmio: Riquelme, que saiu do ostracismo-loser que parece QUERER o acompanhar e voltou para o seu velho Boca para não deixar pedra sobre pedra no biênio 2007/8 (eu que vi com os próprios olhos O HOMEM jogando, atesto: assombroso).

Tenho uma teoria meio TWILIGHT ZONE sobre o nítido ódio que Assis sente pelo Grêmio e o modo bizarramente ganancioso com o qual ele gerencia as contas do irmão: foi numa (quase) transação parecida que o próprio Assis, na década de 80, poderia deixar o Grêmio pelo Torino, da Itália. O Grêmio teve fôlego para bancar a oferta italiana e o desfecho todos sabem: de promessa inebriante do futebol brasileiro a um fim de carreira apagado passando por clubes chinfrins da Europa – quando foi enfim vendido, algumas lesões e o afundamento do próprio Grêmio no início da década de 90 ajudaram a esconder o habilidoso jovem para o mundo, também. Fora isso, o golpe de misericórdia: a FESTEJADA casa com piscina na Zona Sul portoalegrense – no bairro do Guarujá (o “plus” pela permanência de Assis diante da oferta italiana) foi palco da trágica morte do pai dos craques, em 1989, que após terum mal súbito, caiu para nunca mais acordar dentro do buraco então vazio de água. A permanência no Grêmio pelo amor à camisa e pela promessa de recompensa inconscientemente fora a tragédia do irmão mais velho, que fez o possível e o impossível para não deixar que isso ocorresse com Ronaldinho.

Enfim. Fico aqui atualizando sites esportivos, filosofando sobre o quanto, para o bem e para o mal, essa bobagem chamada futebol mexe com a gente.