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Rampa

26 dez

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E, na reforma, tiraram a ‘Pista 13’ da quadra de mini-golf da praça da Igreja em Capão da Canoa.

A ‘Pista 13’ era algo mais ou menos como eu desenhei acima (com o dedo e o uso de um aplicativo vagabundo desses), sobre uma foto atual do local: uma rampa absolutamente inconsequente voltada para rua, cujo “buraco” residia logo após o beiral. Normalmente o pessoal se excedia na força da tacada, o que ocasionava uma bolinha de golfe voando pelos ares do município, cruzando a Rua Andira com velocidade, acertando carros, vidraças e transeuntes.

Não raro ela, a bolinha, invadia a outra quadra a dentro e era furtada por algum moleque.

Saudades dos dias em que esse tipo de coisa era a “confusão” habitual que ocorria na praia.

Hoje as pessoas afundam intermitentemente a buzina do carro em meio a uma tranqueira motivada pela falta de lugares para estacionar.

Em algum momento, entre essas duas realidades, foi o ponto exato onde tudo começou a dar errado nesse lugar do mapa.

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Boneca russa

9 ago

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Não tenho por costume pautar minhas escolhas de aquisições literárias usando critérios como “este é o livro número um do New York times essa semana e…” ou alguma lista de destaques em suplementos culturais fornecidos nos próprios caixas das livrarias que querem me vender as obras ali expostas. Não é pedantismo nem ares falsos de intelectualismo excludente: é, como já disse, costume.

No entanto, não há como exultar o fato de que por vezes, escolhas de público e crítica especializada convergem, listagens de ‘mais vendidos’ acertam na mosca e que, como nos quatro primeiros álbuns compostos ajuntamentos de singles e versões mersey beat de quatro acordes dos Beatles, por vezes, algo pode ser extremamente ‘pop‘ e singelo (quase ao nível do mar), sem pretensões filosóficas densas e ostensivas, e, ao mesmo tempo, extremamente qualificado.

É o que parece ter acontecido com Jöel Dicker, suíço que, com quase trinta anos, escreveu “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert”: o livro exibe a saga de Marcus, um escritor que – com quase trinta anos – vive um bloqueio criativo e vai se refugiar na casa de praia de seu mentor e ídolo, Harry Quebert (do título), para recarregar as baterias na pacata costa leste estadunidense e descobrir como o veterano, certa vez, venceu uma crise criativa para escrever seu mais famoso rebento literário (o, tido por grande romance americano do século,  “As origens do mal“).

A ironia poderia ficar circulando em torno das agruras da vida editorial, de tudo que vem fácil com o status de celebridade a nível global (e escoa fácil, igualmente no mesmo contexto) e das idiossincrasias do universo da escrita e da consequente indústria que lhe opera nos bastidores. Tudo isso está no livro, mas há (bem) mais: quase imediatamente após descobrir que, à época de parir o seu grande sucesso, Harry (uma mistura inusitada de Ernest Hemingway que por vezes descamba para a fragilidade de um Bill Murray de alguns dos filmes de Wes Anderson) mantinha um ‘caso‘ secreto com uma jovem de 15 anos que há três décadas desaparecera estranhamente sem deixar vestígios para a polícia local, Marcus é, como todos na localidade e no país inteiro, pego de surpresa. Uma escavação de rotina para jardinagem revela que a ossada da jovem esteve durante todo esse tempo enterrada no quintal da propriedade de Harry.

Como chegou ali? Quem enterrou seu cadáver assassinado e, por óbvio, quem (além do lógico suspeito, Harry Quebert – que veementemente nega o envolvimento com o ocorrido) poderia ter matado a jovem e doce Nola Kellergan?

No desenrolar da trama, o protagonista Marcus já não sabe exatamente se está investigando um caso por conta própria para inocentar seu professor, guru e amigo, se está tão curioso como todos tablóides sensacionalistas, se está envolto em um senso de justiça que não pouparia nem Harry em caso de culpa – ou se está, singelamente, construindo a teia para uma nova obra que teimava em não ganhar a luz do dia.

Praticamente todos elementos de uma boa trama policial se fazem sonoramente presentes na narrativa de Dicker: a vida supostamente pacata em uma cidade do interior de New Hampshire e seus costumes pitorescos (e sinistros), o envolvimento (direto, paralelo ou tangencial) que todos habitantes escondem ou despistam que possuem com o caso da morte de Nola, as reviravoltas (muito plausíveis e bem construídas) em relação à suspeita principal – e tudo de modo deliciosamente tendente ao clichê (mas sem cair na vala comum que tornaria o livro desnecessário e ruim) fica guardado até o último suspiro do livro.

Fora isso, Dicker – em uma auto-ironia (ou auto-sarcasmo) sensacional – explora com maestria (no limite antes de cruzar a fronteira com a pieguice) a estratégia do “livro dentro do livro” (que se revela, depois, mais complexa do que parece: mais de um livro dentro de outro, e pitadas bem vindas de meta-narrativa).

A diversão proporcionada pela leitura opera em níveis sensoriais absurdos: do tipo de livro que justifica um comentário vintage – mas pobre, retoricamente – a respeito da dificuldade que o leitor tem em largar a obra, página após página. Aliás: suas quase seiscentas páginas só não passaram mais voando para mim porque eu tratei de retardar, o que pude, da velocidade da leitura.

Do tipo de livo que, inesperadamente, ao concluir, repousei sobre a cabeceira e aplaudi. De pé. Está longe do panteão clássico da literatura, mas, diabos: é bom demais. Dá vontade de dançar.

“I wanna hold your hand”.

REFUSE/RESIST

6 maio

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“A praça é do povo, como o céu é do condor” – Castro Alves

“A Praça Castro Alves é do povo / como o céu é do avião” – Caetano Veloso

No ano passado eu estive presente em uma das noites da ‘ocupação‘ da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (narrei AQUI como foi o incrível episódio) e noto um interessante paralelo entre aquele evento e a situação desencadeada em resposta (enfim) à vergonhosa condução político-acadêmica da Faculdade de Direito da UFRGS.

Os manifestantes do ano passado queriam não muito mais do que ter direito à publicização dos valores, rubricas e pormenores relativos aos lucros das empresas licitantes do transporte público portoalegrense – demanda que não me parece nem um pouco abusiva e, mais, um tanto óbvia diante da grande discussão que assaltou o país a respeito de (entre outras coisas) os porquês e pingos nos is relativos aos aumentos visivelmente abusivos das tarifas de ônibus nas metrópoles todo país.

Muitos torceram o nariz (para dizer o mínimo) diante das ‘ocupações’, dado o (incrível) argumento último de que as Assembleias e Câmaras legislativas, ultima ratio, não são ou não seriam lugar para o ‘povo’ demandar.

Sensacional.

Diante das notícias de que, protestando desde o verão passado contra vários episódios de concursos docentes que são visíveis, escancaradas, mal disfarçadas e levianas fraudes, os alunos da Faculdade de Direito da UFRGS essa semana resolveram promover uma ‘ocupação’ do prédio, me ponho a pensar (um pouco, não dói).

Não me surpreendem, contudo, muito (tristemente), duas notícias: a primeira é a de que alguns professores estão adotando uma postura de nítido ‘boicote’ (lockout?) à manifestação inteiramente legítima e corajosa dos alunos e  trazendo o argumento falacioso de que não dariam aula no prédio relativo à falta de ‘condições’ para tanto, uma mentira desmentida pela própria postura dos ‘ocupantes’:

 

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Sinceramente, isso, em minha opinião de professor universitário e (sempre) ‘aluno’, igualmente, é a de que há uma plena facilitação no caso para dividir o corpo docente entre os que apoiam os alunos e, bem, os cretinos. Simples.

O outro fato que entristece é a total e vexatória fuga da raia promovida pelas ‘autoridades’ da instituição, o que revela, lá pelas tantas, uma condescendência – quando não um apoio irrestrito – à fraude, como fora noticiado aqui.

Reitoria rejeita negociar com alunos…” – há quem pense que a praça não é para manifestantes, que a Assembleia não é para demandas diretas do povo e que Universidades não existem em função de seus alunos. Paciência.

Fica, por fim, uma pergunta, parafraseando uma pichação e um mote que tem sido constantemente trazido à baila quando os (des)mandos internos da UFRGS são questionados nos últimos tempos: se essa porra não deve funcionar em prol dos alunos, é para quê(m)?

Foi criada uma ‘Comunidade’ no Facebook para maiores informações sobre o episódio e o histórico levante –> “Ocupa Castelinho”. Siga, se informe, participe e, especialmente, “não compactue com a mediocridade”.

Congonhas (ou “La revolución”)

26 abr

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Há coisas que eu (mesmo eu,  apenas um rapaz latino-americano com algum dinheiro no bolso – ainda que não muito – que ama de paixão as possibilidades da interatividade/conexão internética) decididamente não consigo compreender.

De uns tempos para cá, especialmente em relação ao público que costuma usar transporte aéreo, é possível perceber que aumentou vertiginosamente o número de pessoas (a ponto de ilhar de forma involuntária os dissidentes) que precisam muito, de forma desesperadora, quase ansiolítica, ligar o aparelho celular e conectar os serviços relativos à web móvel – não apenas quando o aeroplano está na pista e os avisos em bom português (e em inglês nem tanto) pedem para que isso ainda não seja feito, mas desde o momento em que um dos trens de pouso (qualquer um) encoste no solo. É uma busca quase automática, como a de um viciado à caça do bálsamo. A tranquilidade só parece  ser atingida, mais do que quando o pouso (o momento crítico da aeronavegação, dizem) corre perfeitamente, no instante onde tudo está em seu devido lugar, o que surpreendentemente – mesmo para um usuário crônico da interatividade digital, como eu – se estabelece quando da volta dos sinais que indicam conexão telefônica e 3G (como um desenganado que vê a flatline do medidor cardíaco se transformar em uma alegre e compassada ondulação angular).

Não quero nem mencionar os tipos estúpidos que ignoram as ordens, recomendações e pedidos (tecnicamente embasados) da tripulação, e insistem em tentar burlar a vista das aeromoças para manterem seus aparelhos (sabe-se lá porque) ligados durante o voo, uma vez que o texto aborda uma espécie de patologia da vida moderna, na qual a má-educação e a burrice não se encaixam exatamente.

Fazendo baldeação no Aeroporto de Congonhas -SP, dia desses, já perturbado com a neurose das pessoas ao meu lado na cabine em ligarem os celulares (que jaziam trêmulos em suas mãos desde que a aeronave embica em procedimento de decida, como um piloto que desliza a sola no acelerador antes do sinal verde da largada), com a aeronave mal aterrissada, tive contato com a cereja do bolo, em uma revista com notícias, dicas turísticas e trivialidades, editada pela própria assessoria de imprensa do aeroporto em questão.

A notinha (na foto que ilustra essa reflexão) exalta o novo serviço oferecido, mormente no centro financeiro do país, em relação à ideia de alguém não precisar ‘perder tempo’ em deixar de trabalhar nem quando está literalmente em trânsito (considerando o caótico fluxo de carros na capital paulista, e o tempo gasto pelos motoristas mesmo em trajetos mais simples, não se pode negar que fora uma iniciativa de visão mercadológica).

Eu sinceramente não sei exatamente o porque estou fazendo todo esse introito/arrazoado para começar a explicar o que há de errado com tudo isso, eis que me parece um tanto quanto óbvio que a maioria das pessoas envolvidas em expedientes como esses é um misto doentio de prisioneiro e carcereiro, quando não de vítima e juiz da execução, todos amalgamados. Aliás, se você faz parte do contingente de seres que não percebe absolutamente nada de errado no conteúdo da junção de informe e propaganda acima disposta, você, infelizmente, está classificado em dois grupos díspares: o grupo relativo às pessoas com quem eu gostaria de conversar e por quem gostaria de ser escutado e, paradoxalmente, o grupo que tem chances quase insignificantes de não acreditar que eu sou um bobo alegre. Paciência.

Se o businessman que acredita que ser workaholic é mais um lifestyle do que uma doença ou uma triste condição lacaia, e que come um fast food em meio a um engarrafamento enquanto não para de ‘produzir’ a bordo de seu Navigator pensa que não tem nada a ver com a realidade que o circunda e com o funcionamento emperrado do planeta (sentido amplo), está ou enganado de uma maneira barbaramente incomum, ou é um mentiroso convicto, ao nível da psicopatia.

A revolução verdadeira, amigos, acreditem: começará no dia em que ocorrer de o primeiro telefonema importantíssimo que valha mais de um milhão de dólares não ser atendido prontamente por motivos de: são os minutos finais da prorrogação da semifinal ou ‘desculpe, estava ali em frente, levando o cachorro para mijar’. Ou não ser retornado desesperadamente em razão de: hoje eu vou jantar pizza e não quero incomodação. O temor religioso que se costuma advogar como pertinente perante deus se aplica ao mundo dos negócios. A revolução começará quando mais pessoas tiverem ímpeto em deixar para responder e-mails após lerem a parte esportiva do jornal no banheiro e/ou recusarem incomodações durante o cochilo de vinte minutos após o almoço. E não apenas alguns e apenas por temor subalterno dos que têm juízo (e por isso obedecem). Muito embora haja quem seja servil por gosto (‘crente‘ e voluntariamente, como expunha La Boètie). Ou quem sinta prazer ao ser carrasco de si mesmo na condição de patrão.

A condução de certos modelos do capitalismo tecnocrata por pessoas que são bizarros protagonistas ao mesmo e singelo tempo em que são figurantes do caminhar de uma máquina inteira me intriga. Não intrigaria (ou intrigaria menos) se fosse um jogo não velado em que as pessoas admitem estar sugando ou sendo sugadas sem vislumbrar qualquer tipo de objetivo maior que não ser um dos pilares dessa (em última análise) grande propaganda em forma de ‘golpe da pirâmide’ que muitas vezes ganha o nome de mercado. O problema (e igualmente a intriga), surge quando pessoas fingem ignorar – em contrariedade a todas as evidências sensatas – de que ela própria (não raras vezes) é a responsável pelo sustentáculo disso tudo que em via reversa, a drena sem dó.

***

Eu e minha mulher visitamos uma mina de ouro (que frase estranha) nos arredores de Ouro Preto-MG na semana, última. A guia do passeio à mina (hoje tombada pelo patrimônio histórico) explicou, entre barro, ocre, tuneis fétidos e água pingando, que um curioso processo de seleção darwiniana fazia com que ou o degredo, ou o ‘uso’ nas lavouras ou mesmo a morte era o destino dos escravos mais altos, em busca de um ‘aprimoramento’ de raça que criasse (via reprodução, tal gado em premiações) uma geração de escravos mais baixinhos e esguios a fim de que pudessem transitar com mais agilidade por entre os túneis e otimizar a coleta do ouro antes de ele ser taxa do e sobretaxado e ir parar cada vez mais em mãos cada vez menos próprias.

A segunda parte, complementar, da revolução (falo mais baixo agora, porque a enfermeira está vindo com a camisa de força e a injeção diária – e quando ela chegar, fingirei sono profundo) ocorrerá paralelamente à primeira quando for público, admitido e notório que o que muitos pensam que é uma deturpação sem escrúpulos do capitalismo é na verdade sua perfeição suprema.  O seu horário de almoço. A meia horinha de sono. A entrada engarrafada da marginal e o trânsito lento nas vias de acesso ao aeroporto. Como ninguém pensou nisso antes? Pensaram sim. Escravos baixinhos. Soluções para um mundo que precisa delas.

 

 

DEVERIA

1 abr

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Deveria ser uma luta de quem quer explicações da Dilma sobre a Refinaria em Pasadena

Deveria ser uma luta do William Waack

Deveria ser uma luta de quem reclama da falta de peças repositórios  para os carros cinquentenários de Cuba

Deveria ser uma luta de quem acha que os Mensaleiros não deveriam ter conhecidos seus Embargos Infringentes

Deveria ser uma (mais) luta de Lobão e sua vida pós-bandida de standards rasos e sensos comuns

Deveria ser uma luta de quem é do DCE (autodenominado) livre da Ufrgs

Deveria ser uma luta de quem comenta no Terra, compartilha memes no ‘fêisse’, vota nas enquetes do Conversas Cruzadas e exibe cartazes seja lá na passeata que for

Deveria ser uma luta dos Gentillis com base no pão que botam na mesa por estarem autorizados supostamente a dizerem as bobagens que costumam pensar, sempre a favor da maré

Deveria ser uma luta de quem usa camiseta do Che Guevara ao lado de quem é da Turma do Chapéu

Napoleão (esse safado inegavelmente esperto dentre os mais safados e mais espertos de nossa história ocidental), tem, para si, atribuída a frase de que se deve escolher os inimigos pela inteligência.

Há inimigos de todos, inimigos com quem não deveríamos querer conversa, com quem não deveríamos compactuar em nada

Há batalhas que devemos travar, contra batalhas que não podemos mais travar

Em Dachau há um monumento que exprime algo simples em duas palavras transversas para várias línguas: Nunca mais. Nunca mais. Nunca mais.

A guerra burra é esperta o suficiente para se reinstalar e reinstalar

Já escolhemos (deveríamos) nosso caminho

E nele não há espaço para conviver com ossos desaparecidos e choques vaginais enquanto política pública

Os uniformes de alguns coronéis fedem

Enquanto houver eles, e pessoas dispostas a justificar um golpe pelo qual até mesmo a Rede Globo pede desculpas semana sim, outra também, há mais de ano, não vai haver poesia.

Feliz dia dos bobos.

“Ainda há…”

11 nov

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Volta e meia algum fato da lida jurídica forense e/ou acadêmica me faz lembrar daquele que, entre tantos e tantos livros bons e instigantes sobre processo penal que eu já li, é talvez um dos único que merece além de tudo o adjetivo de emocionante: “Os Fundamentos Éticos do Devido Processo Penal” de Adauto Suannes – ( confira ). Mormente quando algum magistrado – de quem sou amigo e/ou admiro – ou é expatriado do juízo criminal (proposital e voluntariamente ou não) ou mesmo vem à público discutir e (re)pensar seus cânones (e se na segunda hipótese é caso de só festejar – a acomodação acrítica em relação a si mesmo é tão nociva quanto a soberba in natura – na primeira hipótese é de se lamentar: egoísmo, talvez, mas se pudesse designava todos os melhores e mais humanos magistrados para as Varas e colegiados criminais do país).

A obra de Suannes é emocionante porque sangra de verdade, dor, paixão e redenção desde a(s) Apresentação(s) / Prefácio até o conteúdo de fundo da obra, revelando a monstruosa erudição do autor colocada em uma prosa singela, doce e comoventemente defensora de cada palavra que emprega. E é emocionante, inegável, porque o leitor – nesses mesmos textos preambulares e introdutórios – passa a conhecer um pouco da surrada história da vida de Suannes na magistratura paulista, e o profundo desrespeito que alguns de seus colegas ‘de toga’ lhe propiciaram, sempre e sempre (por ser tido tal um ‘outsider‘ em virtude de suas leituras ‘alternativas’ e de seus posicionamentos ‘constitucional-garantistas’ – sim: ainda existe isso e ainda existe preconceito contra isso, o que me causa mais espanto ainda).

Impossível um leitor atento não ser ‘captado’ pelo episódio em que o autor narra seu primeiro contato – ainda menino –  com uma experiência em que possivelmente um ‘inocente’ iria arcar com o peso de uma acusação injusta e de como isso marcou profundamente o Adauto magistrado de anos e anos depois.

Talvez o ponto-cume do cabo de força ideológico no ranço institucional do exercício da magistratura seja esse: o embate entre vertentes de um conservadorismo jurídico-criminal e uma incansável crença de caráter meio iluminista, meio marginal, meio rebelde e meio disposta a acertar uma pesada conta ético-política. Coisas ocorrem nos bastidores e fora deles. Mudanças de ares são clamores, alterações de rota são contabilizáveis, realocações de caráter ‘biônico’ ainda são uma triste (e inadmitida) realidade.

Essa semana, pude apreciar duas ‘postagens’ diretamente dos blogs de dois magistrados pelos quais ‘torço’ fervorosamente como se o meu Grêmio estivesse em campo (e eles, aliás, têm, há tempos, feito muito mais gols que o modorrento e inoperante Grêmio desse final de 2013).

Marcelo Semer – Juiz de Direito em São Paulo –  está “de mudança” – vai se desligar da jurisdição criminal, por um período que ele mesmo admite (e eu espero) que será “temporário”. Diante disso, decidiu publicar um pequeno apanhado de algumas de suas decisões paradigmáticas do ponto de vista processual-penal: justiça feita com coragem e com consciência crítica (sem recair em ‘decisionismos’ vazios ou em ‘inversões tumultuárias’). É justiça com mão no coração, janela aberta, ouvindo o ‘som ao redor‘ e sentindo o cheiro da rua — confira aqui

Gerivaldo Neiva – Juiz de Direito em Conceição do Coité, Bahia – que também traz farto material sentencial (e muito mais em seu blog), publicou essa semana mais um texto relativo à sua militante e louvável atuação como membro do LEAP – Law Enforcement Against Prohibition , em que aborda a necessidade política e social de um repensar sobre a questão da droga no Brasil (e a já mais do que declarada falência “múltipla dos órgãos” da política repressionista). Gerivaldo não apenas admite a mudança de opinião quanto ao tema quanto faz um sincero e elucidativo relato que ajuda a  embasar sua (atual) opinião sobre o tema — confira aqui

Se não bastasse a jurisdição exercida com competência, caráter e ousadia incomuns, pelo menos por terem, mais uma vez, me recordado de visitar o Suannes vez que outra, mando um abraço afetuoso aqui ao Semer e ao Gerivaldo.

Ainda há, sim, juízes. Em Berlim, em Coité, em São Paulo, por aí. E como lembra outro (ora) magistrado genial, Eugênio Raul Zaffaroni, a história registrou muita gente boa passando perrengues até que pudéssemos nos dar conta que o nome de alguns como Torquemada não é ostentado em lugar algum que se preze.

O DIA EM QUE A TERRA PAROU

18 jul

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El Estado de Derecho implico siempre la possibilidád de una oposición al poder, fundada en derecho, oposición ilustrada por las reconvenciones al rey o por la negativa a pagar el impuesto en circunstancias injustificables, y hasta por el recurso a la inssurección contra un gobierno ilegítimo. Pero el Estado democrático excede los límites tradicionalmente asignados al Estado de derecho. Sufre el ejercicio de derechos que todavía no tiene incorporados, y es el teatro de una opugnación cuyo objecto no se reduce a la conservación de un pacto tácitamente establecido sino que surge de ciertos focos que el poder no puede controlar por completo

(LEFORT, Claude. La invención democrática. Trad. Irene Agoff. Buenos Aires: Nueva Visión, 1990, p.25)

“Alguém poderia ajudar o pessoal a lavar os pratos? O pessoal ali da cozinha está pedindo. Aí, valeu”, e o brado no microfone interrompe “Pecado Capital” do Paulinho da Viola que logo após segue ecoando e coordenando o bater de pés geral e remelexo de cinturas mais ousadas do recinto.

Surpreendentemente – ao menos para a média da racionalidade (pós-moderna) de apartamento – um grupo apavorantemente grande de pessoas se prontificou a atender o chamado e se dirigiu imediatamente à copa improvisada para a lida.

A cena poderia ocorrer em uma gama absolutamente inusitada de lugares, mas nem o mais animado surrealista diria que ela foi presenciada pelos meus olhos que a terra há de comer na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.

Desde o último dia 10 de Julho a Câmara foi deliberadamente ocupada por um sem-número de manifestantes, sendo muitos deles (nem todos) ligados ao Bloco de Lutas pelo Transporte Público, que pleiteia a estatização e consequente redução (ou extinção) do preço das passagens de ônibus na capital gaúcha e contígua região metropolitana. Junto a esse, uma série de pleitos que configurariam o mínimo dos mínimos em um ambiente político verdadeiramente escorreito e democrático (desde transparência nas contas públicas até uma – óbvia, ao menos para qualquer criança, como muitas que brincavam no tapete do recinto – participação maior da população em algumas decisões da respectiva casa que ‘os representa’, ao menos em tese).

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A ‘ocupação’ em si irrita alguns, melindra outros, enfurece uns muitos, ofende outros tantos e perturba algum cardume também robusto. E por quê? Inegável, impossível não perceber que o resmungo tem pouco de ‘voz‘ e muito de susto: aquele bando de gente sentado trabalhando (sim, trabalhando: em se tratando especialmente de agentes independentes de agências de mídias igualmente independentes) nas bancadas onde o povo brasileiro se acostumou a ver apenas raras (e louváveis) exceções trabalhando, efetivamente, aquele monte de cabeças circulando pelo local usualmente preso por formalidades (in)justificáveis, aquele pessoal todo nas galerias e cadeiras, de um modo que nem na mais concorrida sessão plenária acontece, tudo aquilo é bizarro.

As câmaras legislativas brasileiras (em todos os níveis – municipal, estadual e federal) são chamadas de um jeito melado e pomposo de “casa do povo” sem efetivamente o ser. Ontem, foi, e eu senti isso de um modo incomum como apenas o que é mais puro e verdadeiro provoca. Nada de perguntas nem crachás na entrada (alguns tomavam chimarrão e conversavam sobre a vida que segue frente a uma cancela magicamente aberta). Nada de fiscalização nem horários de acesso na escadaria principal (o comércio de quentão alegrava e aquecia quem se escorava nas muretas). Nada de registros ou entraves burocráticos típicos. A Câmara toda era, ironicamente, do povo, pelo povo e para o povo: e o povo estava lá, com cartazes coloridos preenchendo as paredes viáveis (e algumas inviáveis como aquele que apregoava “meu cu é laico” ao lado de um questionável crucifixo sobre o saguão – muito, muito alto. Spiderman manifestante? Bem, sempre foi um super-herói às voltas com abusos empregatícios e o atraso no aluguel…). Lá estava o povo enviando, trocando experiências e filmando tudo para exibição ao vivo para todo Brasil e todo planeta (wi-fi liberado). Lá estava o povo sambando, cantando, brincando, bebendo. Lá estava o povo sendo comunicado de minuto em minuto sobre a audiência judicial que definia o futuro de toda aquela experiência e, especialmente, das agendas que ali eram propagadas e defendidas.

A experiência marcante da democracia real assusta. Nunca, jamais eu estive tão próximo de estar dentro de uma ‘zona autônoma temporária’ nos moldes de Hakim Bey. Nunca aliás, e isso deve ser registrado, passado e assinado: nunca estive a me sentir tão bem dentro de um prédio público. O mel genuíno do comunitarismo brotava dos rostos, vozes e sorrisos e eu, boquiaberto, mal pude perceber que um amigo anônimo – cuja “solicitação de amizade” real eu “aceitei” no ato – bem me viu sentando em uma das cadeiras e veio me esticar uma cuia de madeira de um mate amargo charrua (seu nome era Roberto).

A experiência de estar dentro de uma casa política pública pela primeira vez deixou escapar pelos poros ares democráticos e verdadeiramente livres, para além e longe dos espaços e roteiros sufocantes kafkianos do dia a dia, como n’O Castelo em que nada se decide, nada se consegue, nada se resolve e ninguém se encontra.

Ocupação? Sim. “Baderna”? Não (longe demais disso, aliás: poucas vezes vi um grande grupo horizontal como esse tão preocupado em manter tudo ordeiro no local que visitava). Para aqueles apavorados com a ‘tomada’ de um âmbito legislativo, é bom lembrar que alguns (muitos, felizmente) tiveram a coragem de enfim se desassossegar da legítima, porém confortável, posição de justificar a não tomada de medidas com a própria ineficácia de ‘tomada de medidas’ diante de um ‘sistema’ tão bizarro e deslegitimado. A casa é do povo? Pois foi, enfim, cumprida a profecia. Um grupo de pessoas que ali foram colocadas para exercer representatividade há muito (e em lamentável maioria) está a exercer qualquer coisa que não sua investidura legítima. Surpresa: o patrão deu uma incerta na repartição e resolveu conferir quem, o que e como. Mais: resolveu se instalar ali.

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A democracia para além dos filtros tecnocráticos que nos acostumaram a crer obrigatórios assusta. Assusta de um modo selvagem, carnal, sanguíneo. Assusta por ser direta demais, franca demais, real demais. Assusta porque não parece ter limites (e nada mais apavora os conformistas do que a descoberta da condição de conformidade aprisionada por si mesma).

Em um país democrático, jamais qualquer autoridade pública no âmbito da política representativa deveria ter qualquer tipo de ‘medo’ de manifestações populares análogas, nem deveria ter moral ou a boa e velha cara de pau para tolher as possibilidades de algo assim. Se o povo não se sentisse tão deslegitimado pelas ações de um corpo legislativo fisiologista e inerte, e se não se sentisse tão vilipendiado por quem deveria estar ali representando seus interesses, esse era um tipo de coisa que não se veria.

Como um amigo foi feliz em notar: ontem, na Câmara, no clima de paz, amor, união, e de proposição política ali realizada ao vivo (e a cores – muitas delas, mais do que o habitual), foram certamente promovidos e propagados um número infinitamente inferior de impropérios, pequenos ódios, grandes recalques e exemplos de má-educação do que estamos lamentavelmente acostumados a ver em sessões legislativas “verdadeiras” país a fora.

A Câmara está ali, onde sempre esteve, ao fim e ao cabo. Sim, podemos – guardado um bom número de proporções, regras, impeditivos e proibições – podemos, sim, nós, votantes ‘normais’ acompanhar uma sessão ‘normal’ composta pelos integrantes ‘normais’, quando ‘bem’ (bem…) entendermos. Mas isso, felizmente, jamais será a mesma coisa.

E aqueles que defendem as sombras democráticas na caverna obscura, terão que se acostumar cada vez mais com um povo sedento pelo gostinho da imagem impressionante da democracia verdadeira (que é capaz de cegar os incautos – e os medrosos). Que isso seja o maior, melhor e mais delicioso legado disso tudo.

“Olha, todo mundo está aqui, cantando, e eu me senti encorajada a cantar também. Eu sou integrante de um movimento…o movimento LGBT”, diz uma menina negra com volumosos cabelos crespos. E pegou o microfone. E acompanhada por um bando divertido de (in)experientes músicos cantou mais um samba no rol dos que vinham sendo interpretados com garra pelo pessoal.

Na saída, em meio a um número impressionante de bicicletas ‘estacionadas’ em frente à Câmara e a um menino que usava a rampa de acesso como uma invejável pista de skate, fiquei como bobo pensando em porque diabos não é sempre assim. Como odiar uma política onde você entra e sai de uma casa legislativa em que não te perguntam nada (além de se você quer mais uma cuia de mate), te escutam, e efetivamente os presentes que se adonam os microfones não te irritam porque te representam, como nunca ninguém representou?