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Boneca russa

9 ago

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Não tenho por costume pautar minhas escolhas de aquisições literárias usando critérios como “este é o livro número um do New York times essa semana e…” ou alguma lista de destaques em suplementos culturais fornecidos nos próprios caixas das livrarias que querem me vender as obras ali expostas. Não é pedantismo nem ares falsos de intelectualismo excludente: é, como já disse, costume.

No entanto, não há como exultar o fato de que por vezes, escolhas de público e crítica especializada convergem, listagens de ‘mais vendidos’ acertam na mosca e que, como nos quatro primeiros álbuns compostos ajuntamentos de singles e versões mersey beat de quatro acordes dos Beatles, por vezes, algo pode ser extremamente ‘pop‘ e singelo (quase ao nível do mar), sem pretensões filosóficas densas e ostensivas, e, ao mesmo tempo, extremamente qualificado.

É o que parece ter acontecido com Jöel Dicker, suíço que, com quase trinta anos, escreveu “A Verdade sobre o Caso Harry Quebert”: o livro exibe a saga de Marcus, um escritor que – com quase trinta anos – vive um bloqueio criativo e vai se refugiar na casa de praia de seu mentor e ídolo, Harry Quebert (do título), para recarregar as baterias na pacata costa leste estadunidense e descobrir como o veterano, certa vez, venceu uma crise criativa para escrever seu mais famoso rebento literário (o, tido por grande romance americano do século,  “As origens do mal“).

A ironia poderia ficar circulando em torno das agruras da vida editorial, de tudo que vem fácil com o status de celebridade a nível global (e escoa fácil, igualmente no mesmo contexto) e das idiossincrasias do universo da escrita e da consequente indústria que lhe opera nos bastidores. Tudo isso está no livro, mas há (bem) mais: quase imediatamente após descobrir que, à época de parir o seu grande sucesso, Harry (uma mistura inusitada de Ernest Hemingway que por vezes descamba para a fragilidade de um Bill Murray de alguns dos filmes de Wes Anderson) mantinha um ‘caso‘ secreto com uma jovem de 15 anos que há três décadas desaparecera estranhamente sem deixar vestígios para a polícia local, Marcus é, como todos na localidade e no país inteiro, pego de surpresa. Uma escavação de rotina para jardinagem revela que a ossada da jovem esteve durante todo esse tempo enterrada no quintal da propriedade de Harry.

Como chegou ali? Quem enterrou seu cadáver assassinado e, por óbvio, quem (além do lógico suspeito, Harry Quebert – que veementemente nega o envolvimento com o ocorrido) poderia ter matado a jovem e doce Nola Kellergan?

No desenrolar da trama, o protagonista Marcus já não sabe exatamente se está investigando um caso por conta própria para inocentar seu professor, guru e amigo, se está tão curioso como todos tablóides sensacionalistas, se está envolto em um senso de justiça que não pouparia nem Harry em caso de culpa – ou se está, singelamente, construindo a teia para uma nova obra que teimava em não ganhar a luz do dia.

Praticamente todos elementos de uma boa trama policial se fazem sonoramente presentes na narrativa de Dicker: a vida supostamente pacata em uma cidade do interior de New Hampshire e seus costumes pitorescos (e sinistros), o envolvimento (direto, paralelo ou tangencial) que todos habitantes escondem ou despistam que possuem com o caso da morte de Nola, as reviravoltas (muito plausíveis e bem construídas) em relação à suspeita principal – e tudo de modo deliciosamente tendente ao clichê (mas sem cair na vala comum que tornaria o livro desnecessário e ruim) fica guardado até o último suspiro do livro.

Fora isso, Dicker – em uma auto-ironia (ou auto-sarcasmo) sensacional – explora com maestria (no limite antes de cruzar a fronteira com a pieguice) a estratégia do “livro dentro do livro” (que se revela, depois, mais complexa do que parece: mais de um livro dentro de outro, e pitadas bem vindas de meta-narrativa).

A diversão proporcionada pela leitura opera em níveis sensoriais absurdos: do tipo de livro que justifica um comentário vintage – mas pobre, retoricamente – a respeito da dificuldade que o leitor tem em largar a obra, página após página. Aliás: suas quase seiscentas páginas só não passaram mais voando para mim porque eu tratei de retardar, o que pude, da velocidade da leitura.

Do tipo de livo que, inesperadamente, ao concluir, repousei sobre a cabeceira e aplaudi. De pé. Está longe do panteão clássico da literatura, mas, diabos: é bom demais. Dá vontade de dançar.

“I wanna hold your hand”.

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Congonhas (ou “La revolución”)

26 abr

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Há coisas que eu (mesmo eu,  apenas um rapaz latino-americano com algum dinheiro no bolso – ainda que não muito – que ama de paixão as possibilidades da interatividade/conexão internética) decididamente não consigo compreender.

De uns tempos para cá, especialmente em relação ao público que costuma usar transporte aéreo, é possível perceber que aumentou vertiginosamente o número de pessoas (a ponto de ilhar de forma involuntária os dissidentes) que precisam muito, de forma desesperadora, quase ansiolítica, ligar o aparelho celular e conectar os serviços relativos à web móvel – não apenas quando o aeroplano está na pista e os avisos em bom português (e em inglês nem tanto) pedem para que isso ainda não seja feito, mas desde o momento em que um dos trens de pouso (qualquer um) encoste no solo. É uma busca quase automática, como a de um viciado à caça do bálsamo. A tranquilidade só parece  ser atingida, mais do que quando o pouso (o momento crítico da aeronavegação, dizem) corre perfeitamente, no instante onde tudo está em seu devido lugar, o que surpreendentemente – mesmo para um usuário crônico da interatividade digital, como eu – se estabelece quando da volta dos sinais que indicam conexão telefônica e 3G (como um desenganado que vê a flatline do medidor cardíaco se transformar em uma alegre e compassada ondulação angular).

Não quero nem mencionar os tipos estúpidos que ignoram as ordens, recomendações e pedidos (tecnicamente embasados) da tripulação, e insistem em tentar burlar a vista das aeromoças para manterem seus aparelhos (sabe-se lá porque) ligados durante o voo, uma vez que o texto aborda uma espécie de patologia da vida moderna, na qual a má-educação e a burrice não se encaixam exatamente.

Fazendo baldeação no Aeroporto de Congonhas -SP, dia desses, já perturbado com a neurose das pessoas ao meu lado na cabine em ligarem os celulares (que jaziam trêmulos em suas mãos desde que a aeronave embica em procedimento de decida, como um piloto que desliza a sola no acelerador antes do sinal verde da largada), com a aeronave mal aterrissada, tive contato com a cereja do bolo, em uma revista com notícias, dicas turísticas e trivialidades, editada pela própria assessoria de imprensa do aeroporto em questão.

A notinha (na foto que ilustra essa reflexão) exalta o novo serviço oferecido, mormente no centro financeiro do país, em relação à ideia de alguém não precisar ‘perder tempo’ em deixar de trabalhar nem quando está literalmente em trânsito (considerando o caótico fluxo de carros na capital paulista, e o tempo gasto pelos motoristas mesmo em trajetos mais simples, não se pode negar que fora uma iniciativa de visão mercadológica).

Eu sinceramente não sei exatamente o porque estou fazendo todo esse introito/arrazoado para começar a explicar o que há de errado com tudo isso, eis que me parece um tanto quanto óbvio que a maioria das pessoas envolvidas em expedientes como esses é um misto doentio de prisioneiro e carcereiro, quando não de vítima e juiz da execução, todos amalgamados. Aliás, se você faz parte do contingente de seres que não percebe absolutamente nada de errado no conteúdo da junção de informe e propaganda acima disposta, você, infelizmente, está classificado em dois grupos díspares: o grupo relativo às pessoas com quem eu gostaria de conversar e por quem gostaria de ser escutado e, paradoxalmente, o grupo que tem chances quase insignificantes de não acreditar que eu sou um bobo alegre. Paciência.

Se o businessman que acredita que ser workaholic é mais um lifestyle do que uma doença ou uma triste condição lacaia, e que come um fast food em meio a um engarrafamento enquanto não para de ‘produzir’ a bordo de seu Navigator pensa que não tem nada a ver com a realidade que o circunda e com o funcionamento emperrado do planeta (sentido amplo), está ou enganado de uma maneira barbaramente incomum, ou é um mentiroso convicto, ao nível da psicopatia.

A revolução verdadeira, amigos, acreditem: começará no dia em que ocorrer de o primeiro telefonema importantíssimo que valha mais de um milhão de dólares não ser atendido prontamente por motivos de: são os minutos finais da prorrogação da semifinal ou ‘desculpe, estava ali em frente, levando o cachorro para mijar’. Ou não ser retornado desesperadamente em razão de: hoje eu vou jantar pizza e não quero incomodação. O temor religioso que se costuma advogar como pertinente perante deus se aplica ao mundo dos negócios. A revolução começará quando mais pessoas tiverem ímpeto em deixar para responder e-mails após lerem a parte esportiva do jornal no banheiro e/ou recusarem incomodações durante o cochilo de vinte minutos após o almoço. E não apenas alguns e apenas por temor subalterno dos que têm juízo (e por isso obedecem). Muito embora haja quem seja servil por gosto (‘crente‘ e voluntariamente, como expunha La Boètie). Ou quem sinta prazer ao ser carrasco de si mesmo na condição de patrão.

A condução de certos modelos do capitalismo tecnocrata por pessoas que são bizarros protagonistas ao mesmo e singelo tempo em que são figurantes do caminhar de uma máquina inteira me intriga. Não intrigaria (ou intrigaria menos) se fosse um jogo não velado em que as pessoas admitem estar sugando ou sendo sugadas sem vislumbrar qualquer tipo de objetivo maior que não ser um dos pilares dessa (em última análise) grande propaganda em forma de ‘golpe da pirâmide’ que muitas vezes ganha o nome de mercado. O problema (e igualmente a intriga), surge quando pessoas fingem ignorar – em contrariedade a todas as evidências sensatas – de que ela própria (não raras vezes) é a responsável pelo sustentáculo disso tudo que em via reversa, a drena sem dó.

***

Eu e minha mulher visitamos uma mina de ouro (que frase estranha) nos arredores de Ouro Preto-MG na semana, última. A guia do passeio à mina (hoje tombada pelo patrimônio histórico) explicou, entre barro, ocre, tuneis fétidos e água pingando, que um curioso processo de seleção darwiniana fazia com que ou o degredo, ou o ‘uso’ nas lavouras ou mesmo a morte era o destino dos escravos mais altos, em busca de um ‘aprimoramento’ de raça que criasse (via reprodução, tal gado em premiações) uma geração de escravos mais baixinhos e esguios a fim de que pudessem transitar com mais agilidade por entre os túneis e otimizar a coleta do ouro antes de ele ser taxa do e sobretaxado e ir parar cada vez mais em mãos cada vez menos próprias.

A segunda parte, complementar, da revolução (falo mais baixo agora, porque a enfermeira está vindo com a camisa de força e a injeção diária – e quando ela chegar, fingirei sono profundo) ocorrerá paralelamente à primeira quando for público, admitido e notório que o que muitos pensam que é uma deturpação sem escrúpulos do capitalismo é na verdade sua perfeição suprema.  O seu horário de almoço. A meia horinha de sono. A entrada engarrafada da marginal e o trânsito lento nas vias de acesso ao aeroporto. Como ninguém pensou nisso antes? Pensaram sim. Escravos baixinhos. Soluções para um mundo que precisa delas.

 

 

Maior arquibancada

29 jan

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Dia desses percebi que levemente as redes sociais começaram a pipocar textos e mini-manifestos sobre o bordão reformado “Vem para a URNA” (#vempraurna) como uma espécie de slogan/contraponto ao consagrado #vemprarua que convocava singelamente as pessoas para os protestos do Junho passado nos principais centros populacionais do país.

A ideia é publicitariamente simples, para não dizer outra coisa: substituir a ‘rua’ pela ‘urna’ enquanto sede da ‘indignação’ coletiva.

Interessante: aqui, no colegiado formado por mim e pelos meus três amigos imaginários, concluímos algumas coisas, ainda que prévia e liminarmente:

– vai ser o pleito eleitoral com maior número de votos nulos da história, uma vez que um número esmagador de pessoas que foram #prarua ano passado se dizia ‘sem partido’ e tinha inclusive tanto ódio de ‘partidos’ que volta e meia expulsava ou até agredia (aconteceu na Avenida Paulista) quem se admitia partidário (disso ou daquilo). Não?

– aliás, imaginamos, nós, que, diante do culto imagético à figura de Guy Fawkes (um sabido anarquista e ‘vândalo‘ – além de mascarado), manifestado pelo sucesso total das máscaras imitando suas feições, a maioria dos manifestantes vai simplesmente desdenhar das consequências administrativas e quiçá criminais de se abster de ir votar e vai gerar um colapso no sistema eleitoral. Não?

Fora isso, ficamos aqui catalogando tudo sobre o tema, para fins de elaborar um placar metafísico que exiba o ranking de quem (ou Dilma ou seus opositores) vai tentar usar de forma mais baixa e chapa branca o saldo do quebra-quebra moral do ano passado. Enquanto isso, faz uns 42 graus em Porto Alegre. Tá ruim.

Coletivo

5 abr

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Desde o início da adolescência, o ônibus é o meio de transporte ‘oficial’ da minha aventura na Terra (o dado vem do uso proporcional em relação a todos os outros).

Já oscilei entre vários momentos na vida em relação aos meios automotores de locomoção urbana: desde a idade em que eu não podia pegar ônibus ou lotação/van sozinho sem estar acompanhado por um adulto de confiança, passando à independência no quesito, chegando às caronas de pais e de amigos e até, na idade permitida por lei, a tão ‘sonhada’ carteira de habilitação que me permitiu eu mesmo rodar por aí no volante de um carango reluzente.

Vários desses meios de locomoção não foram abandonados, nem substituídos por mim, sendo que todos eles ainda coexistem em maior ou menor grau – vale lembrar que uso majoritariamente a bicicleta para locomoção em grandes e médias distâncias dentro da cidade e nos finais de semana, nos pequenos trajetos, tenho usado meu skate. Mas ainda pego o carro quando necessário, ainda ganho caronas por (várias) vezes e volta e meia apelo para meios públicos pagos como táxi, ônibus, trem, etc.

Toda essa pressão popular nas recentes semanas para que o governo municipal de Porto Alegre licitasse o serviço de transporte de ônibus na capital gaúcha para, enfim, oferecer à população um serviço de qualidade a um preço honesto me fez refletir sobre algumas coisas .

Sou advogado e professor universitário. Dou aula e moro durante boa parte da semana em uma cidade há cerca de 300 Km de Porto Alegre – cidade onde nasci, me criei e onde parcialmente também moro.

Uma série de razões que envolvem economia, liberdade de horários, otimização do tempo, (des)necessidade “extrema”, entre outras coisas me levam a deixar meu carro (um Renault Logan, preto, que há não muito tempo era ‘zero km’) em Porto Alegre e andar à pé – ou de qualquer outro modo – na maior parte do tempo. Uma delas meu cada vez mais crescente desapego em relação ao veículo – e aos veículos em geral, o que faz com que eu, na maioria das vezes, deixe ele para que possa ser usado por outros membros da minha família.

Costumo tomar um ônibus na avenida nas manhãs em que dou aula na Universidade. É um trajeto não muito longo da minha quadra até o prédio do Direito no Campus e, como faço em viagens  intermunicipais, aproveito o (no caso, curto) tempo para ler, adiantar coisas relativas a compromissos do dia ou mesmo deixar o olhar se perder pela janela enquanto escuto música.

O coletivo volta e meia vem lotado, lugar em que já encontrei alguns colegas professores e onde quase sempre me deparo com alguns(as) alunos(as).

É aí que percebo que muito do problema (do ‘roubo’ das tarifas praticadas, da falta de vontade de alguns de fortalecerem movimentos como o levante que culminou com uma pressão que nem a Justiça nem a Prefeitura de Porto Alegre puderam resistir e com a preguiça mental de achar que os excessos de ‘baderna’ na primeira manifestação foram por parte de todos integrantes e – pior – são mais “discutíveis” e prioritários do que o próprio tema da manifestação em si) esta na mentalidade de alguns em relação ao que, a como e a para quem deve ser o transporte coletivo.

Muitos de nós (me incluo) vivem cercados por um ambiente cultural onde o fetiche automobilístico faz com que entendamos que a sola do pé, o ônibus urbano e a carona são estágios evolutivos de um game onde você chega ao destino ideal se superar todas essas mazelas e finalmente puder ser um motorista. O que está em jogo é o que você vai fazer diante desse inegável ambiente circundante: entrar no jogo e rezar a cartilha, ou ser você mesmo, pelas suas razões (independentemente de quais forem)?

Algumas pessoas certamente estranham ver um professor da Faculdade de Direito dentro de um ônibus, de manhã cedo, com cara de sono, escutando música e pagando a passagem para passar na catraca. Estranham porque, em determinadas cabeças (de porongo),um cara como eu já deveria ter chegado em um estágio ‘evoluído’ de desenvolvimento sócio-econômico para abandonar esse estágio ‘inferior’ e andar ‘de carro’: lamento se é difícil, filho(a) para você compreender, mas quase tudo que eu faço, mormente no quesito de locomoção, é por opção – eu poderia já ter adquirido (mais um) automóvel, mas, entenda, eu não quero, não tenho saco, e não seria inteligente do ponto de vista monetário.

Tem gente que vai até Londres para tirar foto no metrô em frente a algum risível aviso de ‘mind the gap‘, mas que considera pegar ônibus uma coisa para servir de motivo de vergonha. Eu já andei no metrô de Londres, assim como já andei de metrô, ônibus, trem, bondinho e táxi em várias outras cidades do mundo e especialmente do Brasil. Se você também, já viu o que eu vi e a menos que seja muito burro(a) ou desatento(a) já percebeu que em grandes capitais famosas por ditar modas e elementos culturais trendy, as pessoas usam os meios de transporte coletivo, cuidam deles, lutam pelas suas tarifas e tem estima pelos mesmos. É uma questão de praticidade e inteligência e nem o grande executivo que vai até o Canary Wharf nem o vendedor de bala da esquina vêem problema em utilizar o coletivo.

No Brasil, no entanto, não basta você ter um Hummer ou uma Lamborghini: você tem que acreditar que (1) o jipe ou o esportivo o tornam ‘melhor’ que os outros e (2), tristemente, quem não tem o jipe ou o esportivo está sonhando muito em ter para que jamais – como uma gata borralheira enfadonha – precise “andar de ônibus” de novo.

Quem sabe com o pessoal cada vez mais cosmopolita e com as aventuras desse incrível (…) mundo globalizado seja possível importar ou fashionizar também as manias interessantes e a falta de frescura que vemos em alguns grandes centros econômicos e culturais do planeta, quanto a alguns elementos da vida cotidiana.

Trevas

28 jul

CERTA VEZ quando eu era menor, estava lendo uma revistinha do Super Homem (ali por mil novecentos e qualquer coisa – ainda não tinha internet, mas JURO que a televisão já era colorida) em que ele, desolado pela matança de inocentes ocasionada pela sua incessante guerra frente os supervilões que assolavam Metrópolis – e por uma certa crise insuspeita de meia idade – decidiu deliberadamente abandonar a terra e vagar sem rumo pelo espaço, errando entre planetas e civilizações até então desconhecidas.

O mesmo, guardadas as proporções, certa vez ocorreu com o Capitão América, que, ao metralhar um terrorista que iria matar reféns de modo despudorado (ah, o Capitão “América” e sua tendência típica relativa à bondade dos bons) entrou em depressão profunda: era um terrorista, sim, mas era antes um homem e por ele foi metralhado sem dó.

Ambos personagens, lá pelas tantas, se livraram de seus demônios internos como se em uma propaganda de tratamentos para impotência sexual masculina e recobraram a alegria de serem ‘heróis’ trazendo de volta seus uniformes para a lida diária da salvaguarda do mundo.

Batman é o único super-herói quadrinesco que jamais entrou em crise, nem jamais saiu da crise: quando o pequeno Bruce Wayne teve sua vida psíquica esfacelada por bandidos que mataram seus pais a sangue frio na saída de uma sessão de cinema em Gotham City, ele simplesmente passou a ser a crise.

Para entender corretamente o espírito que move o homem-morcego no seu incessante e frenético combate ao crime na sombria Gothan, uma premissa é básica: Batman/Bruce Wayne é um psicótico.

Seu desprezo pela vida na terra depois que dois terços de todo calor humano que o cercavam partiram diante de um ato de crueldade injustificável (o único que resta é o paternal e carinhoso mordomo Alfred que se desdobra em pai, mãe e melhor amigo do herói) é simbolizado por uma singela, porém perceptível, questão: Batman não é a ‘identidade secreta’ do playboy ignóbil ‘Bruce Wayne’, mas o contrário. ‘Bruce’, um milionário estúpido cuja intelectualidade é sobrepujada por um certo ar boçal de quem tem o mundo aos pés de sua conta bancária, é a tristonha alegoria que o amargurado Batman oferece ao ‘mundo real’. É ele o disfarce para o Morcego que jamais dorme (literal e figurativamente) nas entranhas da carcaça. Bruce, a farsa, é uma máscara debochada para o pequeno Bruce que a frieza do mundo matou junto com seus pais em um beco escuro numa noite gélida.

Talvez a constatação mais chocante a ser feita é de que no planeta inteiro, apenas uma pessoa pode ser comparável a Batman e apenas ela poderia revelar a chave da verdade que reside no coração petrificado do homem por trás da capa: o Coringa. O magistral vilão que é a sombra do herói e nele se vê refletido. Ambos loucos, movidos por uma demência que em Batman é obsessão e no Coringa é alegoria absurda. A racionalidade com que Batman pretensamente explica o leitmotiv de sua caminhada é moída diante do circo caótico do Coringa.

O Coringa é a demência de Batman exibida no espelho e devolvida com uma lisergia non-sense que foge a qualquer sentido natural.

A singeleza arquetípica dos elementos que compõem a trama de Batman é tão evidente que chega a ser risível em alguns pontos: sombra e luz evidenciadas, bem e mal procurando desesperadamente apartar e dispersão um para com o outro. Fracasso: ao ver Batman, não sabemos mais onde está sua sanidade e onde ele não quer e/ou precisa da sombra que o amaldiçoa para sempre.

O show tem que continuar, no entanto: algumas cenas do penúltimo filme da recente trilogia cinematográfica elaborada para o personagem por Chris Nolan dão um certo tom anestésico para tanta coisa em jogo e tanta tensão: Batman fraqueja ao pensar se deve seguir sua ‘carreira’ abdicando da paixão de sua amada ou ignorar o fato; as pessoas presas em balsas por uma armadilha do Coringa abrem mão de supostamente aniquilarem umas às outras para (também supostamente) salvarem sua própria pele. Em Hollywood, a bondade (dos bons) precisa estar em alta.

Faltou muito pouco, muitíssimo pouco, para que – em “O Cavaleiro das Trevas” (2008) o público se defrontasse com o que os fãs mais ardorosos de quadrinhos já tiveram que engolir doloridamente, esfolando a garganta: Batman é tão (ou mais) completamente maluco do que a turba de malfeitores aprisionada no Arkham Asylum – e não é à toa que, a despeito de lanchar punguistas nas horas vagas, Batman seja o super-heróis que mais está comumente às voltas com maníacos absolutamente problemáticos e envoltos em realidades absurdas como uma criatura que pensa ser o bobo da corte do baralho de cartas, até um sujeito travestido de espantalho, passando por um cidadão que se crê uma ave polar e grasna como tal.

A realidade do absurdo multicolorido que cerca a sobriedade austera de Batman é uma dica para que percebamos que o mundo, sua mente e seus sentimentos zombam dele a todo instante. Morto ou trancafiado sob ferros o último criminoso, tanto faz: sua luta (consigo mesmo) jamais terá fim.

***

Estou particularmente empolgado para ver o último filme dessa trilogia.

Confesso que quando foi lançado “Batman Begins” (2005) fiquei extremamente reticente. E não era para menos: as incursões infantilóides de Joel Schumacher pela condução dos trabalhos da série em “Batman Forever” (1995) e no ainda mais ultrajante “Batman and Robin” (1997) dão calafrios em qualquer pessoa com mais de seis neurônios em atividade.

Gosto demais dos dois filmes dirigidos por Tim Burton (que ainda se mostrava em sua fase gloriosa – considero-o hoje uma triste carreira decadente correndo atrás de si mesma), “Batman” (1989) e “Batman Returns” (1992). Em uma clara ‘homenagem’ ao seriado dos anos 60, Burton em uma Gothan literalmente gótica carnavalizou o enredo na medida certa para não cair no total ridículo e contou com um time de peso que inclui um fenomenal Jack Nicholson como um Coringa bonachão e demente, um Danny de Vito se superando em um assustador Pingüim e a inesquecível caracterização sado-mado de Michele Pfeiffer, sensualíssima e possibilitando achar crível algo como a ‘mulher-gato’.

O novo filme, é sabido, traz pirotecnia, exageros virtuais e explosivos e uma certa dose de necessária credulidade por parte de uma platéia de fãs (volto a dizer: por mais que se esteja vendo um filme sobre um mascarado que pula de edifícios fantasiado, a existência de uma “Batnave” e uma ‘mulher gato’ – mesmo que seja a fantástica em todos sentidos Anne Hathaway – é bizarra).

O vilão Bane – que fora absolutamente mal-explorado nas tenebrosas versões de Schumacher – faz a vez de antípoda para tudo que o homem-morcego representa. Não creio que conseguirá superar a atuação e a escolha certeira de elenco do filme antecedente – Aaron Eckhart é tanto fisicamente quanto gestualmente o sujeito perfeito e seu rosto transparece a beleza e o tom ‘paladino’ que o vilão – antes de virar um símbolo-pastiche da esquizofrenia (o Duas Caras) precisava ter. Sem falar naquela que (suspeito) é a maior caracterização de um ator em toda a história do cinema, que foi a de Heath Ledger como o Coringa em 2008 (fora o gênio Gary Oldman encarnando um Comissário Gordon dos sonhos de todo fã de quadrinhos).

Não sei o que ocorrerá nesse final de semana depois que eu assistir “The Dark Knight Rises”. O que é factível é que todo e qualquer filme ‘de super-herói’ precisará passar por uma cortina de fogo após o altíssimo (e adultíssimo) nível onde Chris Nolan e sua equipe levaram Batman.

Paixão

8 abr

A famosa 'cruz' no topo da igreja no topo do Morro

Desde 1960 a Paixão de Cristo na sexta feira santa ganha sua encenação mais tradicional e rumorosa no estado do Rio Grande do Sul: a procissão do Morro da Cruz, cujo protagonista é vivificado pelo vereador Aldacir Oliboni há 31 anos.

Conhece a sua cidade? Tem certeza? Lindo cityscape de Porto Alegre ("Morro da Polícia" e suas antenas e parte do Guaíba vistos do terraço da Igreja da Cruz).

Eu já havia estado por duas vezes no topo do Morro da Cruz, há muito tempo, a passeio, e movido pela curiosidade de explorar locais da cidade que eu não conhecia. Neste momento é preciso salientar duas coisas: por mais que você ache estranho alguém subir um morro que outrora fora famoso pelo banditismo por algum motivo recreativo/observador que NÃO o de ir atrás de alguma boca de fumo, saliento que sim, é verdade, eu fiz (não, não estava cumprindo promessa). Em segundo lugar, para que os que acham que simplesmente encarar uma longa rua agora asfaltada, encarar alguns lances de escadas e ser contemplado por um inusitado e belo visual da cidade é uma espécie de loucura, aviso que, como vocês podem ver, fui metralhado, retalhado, estuprado e MORTO nas duas vezes.

Os jornais anunciaram cerca de 15 mil pessoas que acompanharam as encenações desse ano, que iniciam no asfalto na Paróquia de São José do Murialdo e depois percorrem a íngreme ladeira morro acima, para culminar com a crucificação no topo da vila.

O mais legal é acompanhar como a população do bairro se envolve naquilo que é a maior festa da região: moradores das imediações fazem sua “festa” particular para acompanhar a tradicional encenação e o público não arrega para subir a lomba atrás de Jesus e de seus algozes romanos que o fustigam e rufam tambores. Mesmo na sexta-feira santa, ali não é pecado comer um bom churrasquinho acompanhado de cerveja como num camarote da Sapucaí para, nas franjas da ladeira, seguir e aplaudir o cortejo. Há bastante policiamento acompanhando a função inteira, mas não há maiores problemas fora da garotada ouriçada (moleques e garotas visivelmente capricham no look para todo o dia e a festa que persiste após o fim da encenação). Todo mundo está tomando a sua gelada ou sua purinha. Avistados um bolinho pequeno de jovens fumando maconha e só. Refrigerante, água e salgadinhos ajudam a aplacar o calor e a sede da subida. O povo que mora no topo do morro aguarda a procissão como quem espera uma visita de queridos amigos.

Quem tem casa com varanda na ladeira do cortejo tá mais por cima do que proprietários de camarote no carnaval!

No ápice da procissão, a chegada do cortejo e a crucificação de Cristo, um palco fora montado com um grupo de oração da paróquia local promovendo cânticos e incitando o pessoal para o grande momento. A galera se acotovela no topo da Igreja e na pista em frente ao palco e o lance ganha ares de euforia.

Pagode, roda de mate, churrasquinho, ceva, prosa entre amigos: o evento é religioso, mas a festa é democrática e plural.

A fuzarca é grande e é visível que a confusão típica de qualquer aglomero de pessoas em festas populares que misturam música (funk em altos decibéis começa a rugir nos carangos ao longo da ladeira depois que a procissão passa) e bebida vai ter início em breve (baderna com som alto e bebedeira não é privilégio de pobres, como se bem sabe). O que fica é o prazer de poder aproveitar mais um recanto da cidade onde as pessoas um pouco bobamente (mas não inteiramente sem razão, lógico) tem receio de ir. Fica a dica para quem quiser ver a cidade de um local (mais um!) onde o entardecer é incrível.

Partenon e Petrópolis vistos no visual da descida: Porto Alegres que não se vê todo dia

Passada a celebração o morro volta ao normal, para sua rotina de chuva, barro, suor, sangue e lágrimas. E samba, eis que tem mais Deus para dar do que para tirar, como dizem.

DESESPERANÇA

20 dez

No estranho verão do ano de 2000 do nosso senhor, em terras sulinas, um fato absolutamente inesperado a jamais dantes visto assombrou a programação das FMs e das noites e dos músicos de barzinho e das rodas de amigas e (suspeito eu) refestelaria os perfis e feeds das então inexistentes redes sociais – se houvessem: Djavan fora convertido em ídolo pop.

Djavan, você sabe, é aquele cantante alagoano que imortalizou “Oceano” (o canal Viva voltou a passar a novela Top Model, vocês viram?) e um bom punhado de canções sem nexo similares com temas intrigantes como “besouro“, “mosquito“, “açaí“, “samurai” e que conseguiu a proeza de tentar elogiar alguém dizendo que quando o deus altíssimo criou a pessoa ele provavelmente estaria inspirado a ponto de também criar, bem, os dinossauros.

Repentinamente, por ocasião do lançamento de um álbum ao vivo e duplo, Djavan de modo surpreendente ocupava todas as sintonias radiofônicas e televisivas, rareava nas prateleiras (as pessoas compravam discos em lojas, ainda, no longínquo ano em que o mundo acabaria por que os computadores estavam prontos para trabalhar com apenas dois dígitos, ou algo assim, não lembro agora) e fora até mesmo convidado como grande estrela do então festival (sic.) Planeta Atlântida.

A juventude linda – sobretudo feminina – que se esganiçava de braços para o céu entoando “Meu bem querer“, “Flor de Lis“, “(não sei o que não sei o que) Leonardo di Caprio” e cada uma das 24 músicas do disco posteriormente esqueceu Djavan (eu daria graças se as “modas” das radiolas não viessem numa escala descendente gritante a cada ano). Esqueceu mesmo. O substituiu, não apenas pela coqueluche ter arrefecido, mas simplesmente apagou da memória o cantor de “São Jorge por favor me empresta o Dragão” em prol de outros que ocuparam seu posto no ranking do preenchimento quase acéfalo e mecânico dos gostos musicais sazonais da massa.

Quando o ano iniciou, uma onda de manifestações no contrafluxo das pautas normais de países totalitários do oriente médio e do norte-africano eclodiu, de baixo para cima, e (muito) para os lados, pedindo (e ganhando, ma medida do possível) democracia, ou algo que a isso mais se assemelhe. Na Espanha, milhares de jovens em um arroubo sensacional “tomaran la plaza” para fazer política ao vivo. No Brasil, em imagens que envergonharam muitos dos membros do alto comando militar, manifestantes em prol da discussão da descriminalização do consumo das drogas apanharam sem dó da polícia paulista, que teve que engolir o próprio STF dando a eles o direito de protestar, posteriormente. E, lógico, não se pode deixar de mencionar a imensa massa humana que ocupou o núcleo da cidade mais nuclear da história do capitalismo para propor alterações estruturais no way of life econômico mais famoso do planeta.

Se no início do ano eu estava esperançoso do que tudo isso poderia resultar – especialmente do papel crucial das redes sociais internéticas nisso tudo – hoje vejo a coisa com especial descrença ao perceber o que se aproveita disso tudo num país jovem e continental como o nosso.

Os muitos “protestos”, “marchas” e até “flash mobsorquestrados (essencialmente orquestrados) no Brasil são reflexo de uma juventude que, como numa moda midiática tal e qual os “caras-pintadas” do início dos anos 90 e/ou como os sazonais fãs de Djavan, estão prontos a aderir a qualquer causa enquanto uma espécie de ‘hit’ passageiro.

Some-se a isso o profundo desgosto que percebo no Facebook, com a POBREZA argumentativa e a IMPRODUTIVIDADE dominando o teor das “indignações”: meu feed de notícias da rede – daquilo que eu AINDA não tive o prazer/NECESSIDADE de cancelar, é tomado diariamente por SELOS bobocas, piadas RUINS, analogias DEBILÓIDES e por uma série (mais recentemente) de pleitos de ESPANCAMENTO de supostos ESPANCADORES, MORTE de supostos ASSASSINOS e torturas góticas para pessoas que maltrataram animais.

A coisa é tão insana e baixa que tenho medo de me manifestar para com certos MENTECAPTOS, como se minha indignação fosse um atestado de que eu aprovo que uma cretina maltrate a esmo um cachorrinho.

Gosto de piadas. Gosto de humor non-sense e acredito que não é necessário viver com uma cara amarrada na vida para se sentir ultrajado pelo cruel e injusto mundo circundante. Não é a existência de ‘piadinhas’ o que me preocupa. É a conversão total de qualquer meio público de interação em um antro de piadinhas que, além disso, refletem uma escassez de referenciais tão grande quanto assustadora. O que uma pessoa genuinamente PERDE se desconectando das redes sociais, hoje, no Brasil? Falo, fico triste e dou importância porque acho que essas ferramentas são mais do que “sucessos de público e crítica” além de modismo. Acredito que as redes sociais (que já possuem vida, linguagem e elementos próprios de evidência, não similares sequer à linguagem das ruas, que por elas, aliás, vem sendo cada vez mais influenciada, num repuxo impressionante) poderiam significar muito.

Não se trata de apoteose nem nada do gênero. Apenas achava que a interação, a customização, a horizontalização e o nível de home-brew-ismo (inventei) das redes poderia proporcionar um modelo interessante de caminho contra-cultural.

Infelizmente no Brasil, a imbecilidade (que existe e existirá) não apenas está ali como sufoca qualquer tentativa de se fazer disso algo com um mínimo de seriedade. Ou de bom gosto.

Enquanto isso, quem for cool que vá migrando. Será que em 2013 estaremos reclamando de uma Facebookização do Google+?