Archive | janeiro, 2015

“…digam ao povo que: fui”

28 jan

CAM00380 Ciudad de La Habana, desde a Fortaleza de San Carlos

 

 

Texto: Gabriel Divan

Ideias, memórias, notas e fotos: Gabriel Divan e Fernanda Tramontin

 

 

Em algum momento de “Bom Dia, Vietnam” (EUA, 1987, Barry Levinson), os personagens reunidos em uma taverna brindam aos goles de Ba Muy Ba, a dita “melhor cerveja” local, para, alguns minutos depois, concluírem meio consternados: Ba Muy Ba, a única cerveja local.

A cena poderia se repetir em algum bar de Havana: Bucanero, a única cerveja de Cuba. Ok, existe também a Cristal, mas é uma legítima bosta.

Em verdade, se você quiser um toque de familiaridade e for adepto do amargor da boa e velha Heineken, sem problemas: a oferta da holandesa da garrafa verdinha é farta em praticamente todos os bares da ilha, bem como de sua compatriota Bavária (bem similar à Heineken e em nada lembrando a desgraça brasileira de mesmo nome).

Na realidade, mesmo, a opção generosa de bebidas, refrescos, drinks e aperitivos de várias categorias encontra até mesmo um espécime que supostamente seria impossível de ser avistado no país, mas cuja aparição não é nem um pouco dificultada: a Coca-Cola.

Há quem pense que encontrar uma Coca-Cola em Cuba possa provocar uma catarse que conduz à um ato arriscado e clandestino de sentir o doce sabor pecaminoso do imperialismo descendo pela goela. Na verdade em muitos estabelecimentos – e não só nos bares de hotéis destinados a turistas financeiramente avantajados – você encontra Coca-Cola com certa facilidade (juntamente com a família que congrega a Fanta, a Sprite e todo o resto).

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Colas em embate: Coca vs. Tukola

Se a notícia mais estranha que um sujeito poderia receber é a de que não há (muita) dificuldade para se beber uma Coca-Cola em Cuba, isso significa que há a ignorância, o desconhecimento sobre uma coisa bastante peculiar em relação à ilha e ao cotidiano de sua capital. Em Cuba existe: vida normal.

Uma mulher apertada em uma saia justa e torturada por um salto altíssimo (visivelmente atrasada para algum compromisso) tenta correr e gritar para o táxi, mas tudo o que consegue é uma deselegante marcha atlética sem sucesso. Um rapaz caminha com uma pasta em baixo do braço, olhar predador mirando o horizonte, passos retos. Carros se enfileiram ante o sinal fechado. Um sujeito passa o esfregão em um vidro de loja. Crianças uniformizadas fazem fila para o guichê da sorveteria. Um velho fuma sentado no banco da praça a observar o movimento.

Sabe-se lá porque (mentira, sabe-se muito bem) o imaginário que cerca Cuba faz pensar que cenas corriqueiras na vida de qualquer capital do mundo ocidental seriam pitorescas e mesmo inexistentes em Havana. É um terrível choque de cotidianidade você perceber que, como em qualquer outro lugar, Havana fervilha de universitários transitando nas cercanias do campus, povo abarrotando ônibus de linha lotados, gente apressada para reuniões pessoas aguardando o atendimento em postos de saúde, entra e sai em estabelecimentos comerciais e coisas do tipo.

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Vida que corre na capital do país.

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Sou (ou fui) um voraz leitor das obras do cubano Pedro Juan Gutierrez. Coleciono seus exemplares e, desde que li a “Trilogia Suja de Havana” em espanhol, decidi que iria enfrentar seus livros apenas no idioma original – ainda que isso gere dores de cabeça e custos excessivos com a encomenda de importados na Livraria Cultura. Pedro Juan, porém, tem um problema que, após minha estadia em Havana, se desdobrou em dois: pouca coisa de sua obra detém o brilho e crueza instigante e a força original da “Trilogia Suja…” (até hoje seu maior e mais incensado hit literário). Sua insistente repetitividade e a cansativa auto-adulação enquanto macho alfa durão e conquistador, dono de performances sexuais épicas aborrecem qualquer um e há um bom par de livros seus que são entediantemente sacais e tristemente idênticos entre si.

O grande problema que passo a ter com Pedro Juan depois dos primeiros dias passados desse janeiro (vi, desde o bairro do Vedado, na Avenida de los Presidentes, de frente para o oceano que parece sem fim – mesmo que cento e poucos quilômetros adiante você bata com a testa na Florida, o apagar das luzes de 2014 e o nascimento do primeiro raiar de 2015) é que sua literatura catastrofista explora até o bagaço uma situação de miséria (material e existencial) que condiz com a criação de histórias que circundam miticamente um eterno período negro da linha do tempo recente: a Havana fantasiosa de Pedro Juan (onde cada negra voluptuosa da extensão da região metropolitana parece querer sexo com ele) é uma despudorada exploração infinita da crise do início dos anos 90: inexatidão total quanto a um futuro onde a União Soviética não era mais matricial de dinheiro e insumos militares, crise, alarmismo social, histeria coletiva, pavor. Sua Havana é inteiramente a Centro Habana em frangalhos (o bairro verdadeiramente está em frangalhos), suas casas e azoteas (terraços) são todos ruínas tristes e opacas, seus personagens são inteiramente malandros caribenhos que estão a todo tempo preparados para aplicar algum golpe, lograr algum trambique e/ou tentando dar algum jeito de picar a mula do local.

O retrato não é integralmente mentiroso (seria alucinógeno dizer que está tudo política e economicamente bem com Cuba), mas  é uma alegoria eleita para vender: a desgraça, a miséria, a vida de infortúnios, o sorriso em meio ao caos são standards. De fato, vida corriqueira não faz best-sellers.

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Centro Habana: deterioração, sujeira e paradoxais bistrôs de luxo

Caminhamos por uma das artérias principais de Centro Habana na noite de ano novo: na Calle San Lázaro, o cenário é verdadeiramente desolador: edifícios e casas em decomposição abrigam moradores e sua parentada inteira. O cheiro é ruim e o calçamento também. Há sujeira em nível bastante incômodo. Nenhuma escadaria em espiral (visível da rua, diante da maioria dos prédios com portas abertas, quebradas ou simplesmente inexistentes) inspira confiança de ser galgada. Um desavisado pode pensar que aquilo é o panorama sinistro legado à população pelas escolhas políticas cinquentenárias de seus governantes e só.

É necessário se vacinar contra alguns equívocos: se a situação econômica média de um habitante da ilha nunca foi das melhores, não se pode igualmente acreditar que os lucros literais e estilísticos que se atingem retratando a miséria se confundem com toda a realidade. Nesse ponto, de maneira triste, a arte de um Pedro Juan é um melancólico produto da categoria de quem usa a penúria como matéria prima para produtos cool de exportação.

A visão que alguém que mora no Brasil tem de Havana é geralmente ou a) um relato inundado por conjecturas políticas que dependendo da visão do emissor podem amplificar ou maquiar dados para ambos os lados; b) fruto de algum veículo midiático que faz sensacionalismo parcial (literalmente: apenas uma parte) exibindo um inventário infernal de problemas e desespero ou, ainda (opção que cresce nos últimos tempos) c) um prontuário igualmente falso e alienado – mas, ao contrário, otimista – destinado ao dinheiro dos turistas que vende o lugar como um paraíso terreno cuja beleza enche os olhos a todo instante. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.

É fato que um turista milionário pode ter em Cuba – como em qualquer lugar – uma vida fugaz cuja esquiva de qualquer problema ou infortúnio é providenciada com antecedência all inclusive. Hospedado no Hotel Nacional, o compay pode até simular uma aventura na pré-histórica Cuba do início dos anos 50, onde a “jóia do Caribe” era simplesmente um balneário de férias para americanos ricos que trajados em ternos summer bebiam Martinis em bares de cassinos luxuosos emulando pinta de Humphrey Bogart. Do próprio Bar Churchill (que ganha o nome a partir da hospedagem do chanceler britânico no hotel, em Fevereiro de 1946), se pode encomendar um conservadíssimo almendrón – os cadillacs americanos de época, polidos e lustrosos em cores chamativas – para passear com as capotas arriadas e quase ver voar o chapéu panamá e as cinzas do seu onipresente Cohiba de aroma inconfundível. Ou quem sabe, mais prático: se refugiar no paraíso artificial de Varadero, alguns – não muitos – quilômetros a nordeste, onde um conglomerado de resorts luxuosos e restaurantes cria uma espécie de república à parte, em que não há problema, empecilhos nem nada o que fazer de muito importante fora admirar as cores do céu em contraste com o mar azul cristalino.

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Hotel Nacional de Cuba: de volta aos anos 50

 

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Não é preciso ser um chanceler para ser um turista que consegue sorver o melhor de Havana: ao contrário de relatos fantasiosos que identificam a cidade como um antro de perdição onde todos têm sede de sangue e dólares quando não estão enchendo câmaras de pneu para se lançar ao mar na tentativa de avistar as areias de Key West antes de a barbatana de um tubarão, o povo local é extremamente amistoso e a cidade incrivelmente segura.

Miriam é uma senhora de meia idade que, segundo conta, já trabalhou como camareira em hotéis de gabarito como o Nacional e o Capri. É ela que nos atende na pizzaria Olokkú, na Calle Calzada, há duas quadras do hotel. Optamos quase sempre por jantar fora, porque apesar da brisa agradável que constantemente presenteia o lobby externo do Hotel Presidente (que é razoável, mas inegavelmente parece hoje ser a sombra do que um dia já viveu), o mojito do bar é uma espécie de loteria e dependendo do barman da noite vai do péssimo ao razoável. Fora isso, a música, esse desgostoso capítulo à parte: lar de uma quantidade incontável de músicos talentosos, Cuba é assolada pela praga dos conjuntos para (tentar) agradar aos turistas em busca de exotismo caribenho de boutique e para que pinguem alguns niqueis no chapéu que é passado ao fim de cada set list. É praticamente impossível ficar no Hotel eis que, do cair da tarde às altas horas da madrugada, se reúnem geralmente um contrabaixo, um violão, congas e maracas para entoar em enjoativo e insuportável repertório perene que inclui a infalível “Guantanamera“, alguns pout-pourri de clássicos locais menos afamados, uma rendição em espanhol de “My Way” (fica inegavelmente interessante), alguma versão salsa de uma canção pop internacional (quase sempre “Hey Jude” ou “No, Woman no cry“) e uma cartilha de batuques onde cada membro faz uma espécie de solo. É sempre essa mesma sequência em todos bares, lobbies, esquinas, restaurantes e é perturbador. Fora o estranho caso da música – visivelmente um sucesso na ilha – que consiste na apavorante repetição sistemática de umas quatrocentos e trinta vezes da palavra “bailando“. Explicado, pois, porque o hotel era uma opção apenas para observações antropológicas.

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Cercanias do Bairro do Vedado: vista para o mar

Na honesta (não confunda com ‘boa’ nem com ‘detestável’) pizzaria Olokkú, Miriam nos conta que termina seus turnos por volta da uma hora da madrugada e que caminha descontraída pelas ruas silenciosas sem que haja qualquer receio ou problema. “Aqui vocês podem andar tranquilos, não é como na terra de vocês onde, um sujeito em São Paulo está na fila do ônibus e leva um tiro na cabeça”.

Doce vingança: da Cuba inteiramente em frangalhos como um Afeganistão pós-guerra que é vendida em alguns relatórios e reportagens vimos menos do que o esperado. O que chega de notícias do Brasil por lá, igualmente não depõe muito a favor do país. Uma troca justa. E com mais verdades que nós brasileiros gostaríamos de supor.

O fato é que não houve pessoa com quem conversamos em Cuba que não enfatizou em relação ao Brasil a sua admiração nem o seu espanto com a violência desenfreada. E a prova empírica de que o espanto é realmente factível é simplesmente caminhar por Havana, em qualquer hora, de qualquer jeito, a qualquer momento e em praticamente qualquer cercania de sua região central: superados alguns estranhamentos étnicos involuntários e o lixo mal coletado de algumas vias (de fato um problema endêmico da capital), você percebe que está totalmente seguro. Não há receio e nem as pessoas ao seu redor oferecem algum tipo de olhar ou sentimento que lhe faça sentir intruso.

Exatamente ao contrário: os cubanos geralmente querem dar dicas a você e convencer o turista a conhecer os lugares e elementos da cultura particularmente local. Recomendam insistentemente o Callejón de Hamel uma mistura de beco-gueto com galeria de arte ao ar livre, uma viela onde tudo é cor, artes plásticas, graffiti, música e onde os cubanos de Centro Habana se reúnem com constância e tentam cooptar os turistas que rumam desesperadamente para os bares famosos ignorando as atrações culturais verdadeiramente locais.

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Malecón pela manhã: ondas explodindo nas pedras, raro espetáculo

 

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Um evento filosófico imperdível é repousar seu olhar no oceano escorado ou sentado no famoso e cantado em verso e prosa Malecón: o muro que impede que Havana seja engolida pelo oceano nos dias mais raivosos é uma atração à parte, não apenas pela nuvem salgada que espirra na calçada quando as ondas entram em choque com o concreto para mostrar seu poderio, mas pelo impressionante pertencimento que ele ocasiona. Ali, naquela faixa de pedra que acompanha boa parte da rua que costeia o final da ilha no mapa, vê-se de tudo. Sempre imaginei o Malecón como algo mais marginal (sentido figurado, embora também estrito) possível: pensava ser um lugar de prostituição (tarde da noite, certa feita, identifiquei dois boquetes ocorrendo por casais separados por pouca distância) e de degradação – eu mesmo em uma madrugada tive que apelar para usar o Malecón – em um trecho sem iluminação – como mictório, confesso (Bucanero…). O fato é que a cidade passa por ali da mesma forma em que o muro a contorna: na manhã, é via de tráfego de transeuntes. Na tardinha, é palco para jogging. No início da noite é o cenário escultural do céu laranja e do mar cor de rosa onde turmas de jovens vão munidos de rum e aparelhos de som para sentar e papear (e escutar aquele detestável reggaeton – gosto é gosto). A qualquer hora do dia, o mais incrível, é sempre sítio para namorados e pescadores de ocasião. E igualmente, a qualquer hora, algum cubano(a) vai estar ali sentado com os pés abandonados ao vento sendo salpicados pelas franjas de onda simplesmente pensando na vida. Meio deprimido, buscando (auto) ajuda em si mesmo, olhando para o mar, ou apenas deixando as gotas de espuma que sobram aqui e ali refrescar o rosto e a alma.

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 Malecón ao final da tarde: jogging, namoro, música e por-do-sol

 

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Sobre o rum, o produto nacional orgulhosamente apresentado, uma visita ao Museo del Ron comandado pela incomparável destilaria Havana Club mostra tudo sobre a bebida para estrangeiros fascinados (é um passeio caro e curto por dentro do belo edifício, mas altamente recomendável), menos a história mais pitoresca: detentores originais da marca “Havana Club” a Bacardi –  empresa familiar sediada em Santiago de Cuba ao sul da ilha – apoiara financeiramente a Revolução que anos depois encampou as fábricas e a produção inteira, em um passa-pé sem precedentes que gerou uma bronca de proporções jamais vistas: a Bacardi passou a ser sediada em Porto Rico e foi obviamente pedir penico para os americanos.

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Edifício Bacardi em Havana Vieja: perdeu, playboy…

Hoje a Bacardi é uma das maores destilarias do planeta, mas parece haver uma única aldeia gaulesa que ela não consegue dominar e é um fato gerador de um ranço notável frente à companhia: a Bacardi ‘made in USA‘ tem até a sua própria bebida de nome “Havana Club” (nada mais loser), mas que é vendida apenas nos Estados Unidos e tem um apelo midiático pífio. Já o resto do mundo inteiro parece não se importar com a trairagem do regime e consome em larguíssima escala o rum de grife “roubada” que é feito com esmero ímpar em Cuba. A Bacardi tenta choramingar e de todas as maneiras convencer o mundo todo a ‘embargar’ o rum nacionalizado por decreto, mas sem sucesso. A qualidade do Havana Club feito na ilha dá um banho de bola nos vizinhos agora porto-riquenhos e os quatro cantos da Terra alardeiam isso e compram numa vazão estapafúrdia que torna a destilaria habanera outra das mais importantes do globo. Qualidade, oferta e procura: o mercado escolheu o rum pirata cubano. Cruéis o capitalismo, a oferta e a procura, não?

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El Ron: o destilado cubano é um das mais nobres do mundo

 

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Os dois estrangeiros mais queridos e aclamados de Cuba têm o mesmo nome: Hemingway, o escritor norte americano premiado com o Nobel de Literatura em 1954, cânone literário universal, que manteve residência na ilha por duas décadas e que viu vários de seus romances serem inspirados pela condição existencial da solidão típica do pescador inveterado que ele era, foi um Ernesto, assim como o argentino ‘Che” Guevara de La Serna.

Ernest Hemingway é um paradoxo interessante: ícone contemporâneo é visto em Cuba como baluarte de um certo revanchismo. Está praticamente nacionalizado, encampado pelo regime como foram dezenas de indústrias e propriedades pós-revolução de 1959: é praticamente tido como um escritor estadunidense de ‘alma cubana’. O amor que tinha pela ilha e pelo seu mar diante de seu passatempo/lifestyle predileto (a pesca) talvez fizesse um hipotético fantasma de Hemingway não exatamente renegar o título. O escritor é uma figura ‘cult‘ de presença marcante na região. É um dos únicos autores que consegue competir com a maciça e estafante imposição dos teóricos do regime em livrarias, sebos e nomes de locais e demais homenagens. Edições de “O velho e o mar“, especialmente, pululam por toda Havana.

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A história escrita e registrada nas paredes da Bodeguita, desde 1942

De suas lendas mais conhecidas, o gosto pela boemia era folclórico e um invariável poemete de ensaio que ele rabiscou em um papelucho qualquer se transformou em símbolo de fascínio de turistas do mundo inteiro: “Mi mojíto en La Bodeguita, Mi Daikirí en la Floridita“. Foi o que bastou: o ídolo Hemingway lista seus dos bares e respectivos drinks favoritos e promove uma catarse coletiva infinita no imaginário turístico que faz com que todo visitante que se prese precise fazer dessas duas escalas (e consequentes bebedeiras) um programa indispensável. Os dois bares passam energias diferentes.

La Bodeguita del Medio (a bodeguinha do “meio” da quadra, na Calle Empedrado quase na esquina com la Plaza de la Catedral) é talvez o bar mais famoso do mundo: um imã para turistas de todas as nacionalidades que se refestelam em frente ao seu minúsculo balcão onde há um careca alto que parece um robô destinado a uma produção industrial, constante e interminável de mojitos que mal e mal consegue atender à demanda gigantesca. Há ainda uma passagem estreita pelo canto que conduz a salões internos em dois andares onde é possível comer uma comida criolla de gabarito e se deliciar com a história do bar (desde 1942) contada pelas paredes que, onde não estão lotadas de fotos históricas de frequentadores-celebridade de todas as nacionalidades, estão rabiscadas de caneta e hidrocor. De cantores de renome mundial, a caciques políticos de todos os credos e partidos, passando por astros de telenovelas brasileiras que são sucesso em Cuba como em qualquer lugar: a foto da Regina Duarte fumando um charuto, atriz que hoje, sabemos, tem medo, é particularmente engraçada. Dizem aliás que os micro restaurantes que inundam Havana, apelidados de paladares (do mais chique mini-bistrô ao mais esdrúxulo estilo sala da estar apertada de kitinete – com poucas pessoas envolvidas e um sabor legitimamente caseiro), têm esse nome dada à cadeia de restaurantes de mesmo nome que sua personagem Raquel criou em “Vale Tudo” (“Quem matou Odette Roitmann?”). Sucesso absoluto lá e aqui.

A Bodeguita é um bar onde você necessariamente deve ir – a ceia de reveillón que lá jantamos entre mojitos que desciam redondo até demais como uma Itaipú adornada com hortelãs – estava magnífica (e justificativa do seu preço exorbitante e inflacionado, mas é o tipo de coisa da categoria “uma vez na vida”). Mas não necessariamente deve voltar: em dois dias apenas de Havana, você percebe que ir uma ou duas vezes na Bodeguita é mais do que suficiente para cumprir a meta e não ser tragado pelo hype caça-estrangeiros que se instala no bar e ofende de certa forma a história bonita e sólida do local. Fora que pelas tantas, vem o pessoal das maracas: “…bailando…”.

Bem diferente a impressão passada pela La Floridita, o bar do “daikirí“: o clima é tenso, as portas são fechadas, impera uma meia-luz que não condiz com o clima lúdico da cidade toda, dezenas, centenas, milhares de americanos se acotovelam nas mesas em uma nítida impressão de que é mais importante ser fotografado tomando o famoso drink ao lado de uma estátua de bronze de Hemingway escorado no balcão do que qualquer outra coisa. Bad mood, bad trip. Saímos pedindo desculpa ao Ernesto, mas não provamos o seu aperitivo de praxe. Faltou saco para ficar mais de quatro minutos no lotadíssimo lugar que parece alheio a toda atmosfera local.

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Na Floridita, Hemingway não diz nada, só observa

Foi um maluco dono de um paladar todo adornado por flâmulas e cachecóis de futebol europeu, o La Moneda Cubana” da Calle O’Reilly, que sentenciou em meio a um divertido almoço onde o sujeito fala mais com o dono do restaurante do que seria possível em qualquer outro lugar do mundo: “El mojito de La Bodeguita es el más bajo de La Habana e el más custoso de la cercania (“O mojíto da Bodeguita é o mais ‘vagabundo’ de Havana e o mais caro da redondeza“). Ele se gabava de que o seu mojíto era o melhor da cidade, um dos melhores de toda ilha. Importante dizer que: de fato, era (e a comida era do mesmo – alto – gabarito. Recomendadíssimo). A diferenciação entre um efetivo restaurante e um paladar é meio nebulosa em se tratando de alguns estabelecimentos com um grau de refino bem acentuado. Os paladares são experiências de negócios próprios em meio à administração pública indireta de restaurantes maiores – o La Imprenta na Calle Mercaderes é de um charme arquitetônico agradabilíssimo e de pratos e preços que praticamente me impeliram a querer retornar no dia seguinte – coisa rara durante a estadia.

O mojito na cidade é uma instituição: bebe-se em todo lugar, a todo instante, com preços que variam de acordo com o esmero, a qualidade e a quantidade de ramos de hortelã. Se você tem problemas ou falta de apetite para bebidas alcoólicas, pense bem se Havana será um destino confortável. Beber é uma espécie de esporte nacional que compete com o baseball no quesito. A comida tradicional local é apetitosa, mas por vezes falta imaginação: mesmo que seja uma ilha caribenha, Cuba tem uma vocação agrícola muito forte e é muito mais fácil encontrar variações em torno de carne de porco (o animal oficial à mesa dos cubanos) do que, por exemplo, frutos do mar (que nunca são oferecidos a preços assombrosos, mas definitivamente não tão baratos quanto o esperado pelas condições locais).

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 Mojitos habaneros: em todos os bares, há uma ‘linha de produção’ ininterrupta

 

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Na entrada da loja de souvenires, um portunhol sofrível se ouvia aos berros desde o balcão do caixa. “Me voy a te comprar un troféu”. O homem de meia idade vibrava com os braços para cima. Segundo ele, aquele era o único lugar de Cuba onde seu cartão de crédito havia conseguido concluir a ligação e por conseguinte a compra. “Yo tentei até en Varadero, e solamente aqui consegui“, gargalhava diante do vendedor. Ao perceber que éramos brasileiros, desabafou sem qualquer timing, em frente ao atendente, com ares de uma intimidade jamais verificada: “Eu não volto mais nesse país nem fodendo…os serviços deles são muito ruins…o camarada é muito mal atendido. Tem que ver também que eu sou paulista…somos muito mal acostumados…o serviço lá é ótimo, não é?, você pede a conta e ela vem em meio minuto”. Ao perceber que éramos do sul, mais uma constatação do perspicaz amigo amante dos charutos de valor mais caro da ilha: “…vocês também devem estar sofrendo aqui, porque em Porto Alegre o serviço também é excelente, é quase tão bom como em São Paulo”.

Ato contínuo, o cidadão mal acostumado com os serviços e serviçais da terra da garoa arrematou o inevitável e previsível ‘comentário político’: “Eu também sou contra isso daqui porque eles são muito restringidos pelo governo. Eu sou contra…eu sou pró-liberdade”. Diante da baixa vazão ao papo furado, se despediu desejando sorte, no que, em sequência, fomos brindados por um sorrisinho irônico e um revirar de olhos no estilo ‘ainda bem que meu turno fecha em quinze minutos‘ pelo vendedor.

É realmente intrigante o número de pessoas que vêm para Cuba para a prática do que batizei de “Turismo de Corneta“: você não gosta do lugar, das pessoas, do estilo arquitetônico, do panorama político-ideológico, das comidas, do modelo de organização e do ambiente de Havana, mas leva seus três filhos, a esposa (cada um com seis Samsonites, todas arranhando o peso da taxa extra) para passar duas semanas em Varadero em resorts estilo não-lugar, isolados de qualquer contato com qualquer coisa da cultura local para dar um ou dois pulinhos na cidade no intuito de falar mal do que você já falava mal a vida toda antes de ir para lá. Pensei em chamar o amigo paulista e perguntar a ele qual o intuito de ele vir despejar rios de dinheiro justamente em um lugar onde a taxação e o percentual que todos no ramo do comércio e hotelaria tem que legar ao estado é altíssimo, o que seria incongruente para quem declaradamente desgosta do governo local. Que tipo de pessoa é tão alienada a ponto de se proclamar ‘contra’ Cuba durante as férias que passa lá, em uma loja de lembrancinhas locais, onde está torrando os tubos no cartão? Há um contingente engraçado de pessoas que parecem gostar de desperdiçar algum período de folga em Cuba, justamente para – não se importando com o fato de que é um destino de viagem caro para brasileiros – simplesmente ter assunto para falar mal entre os amigos nos happenings (logicamente, enquanto baforam seus puros bebericando rum no clube, após o fim da rodada de tênis em duplas).

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O abastecimento. O abastecimento, bem, é sim um problema a ser driblado pelos comerciantes e especialmente pela população em geral. Fran, um cubano que vive tirando uns trocos bancando o guia turístico em Centro Habana deu um incômodo recado: “Algumas coisas volta e meia faltam, aqui, como o leite que geralmente é mandado para hotéis como o de vocês“. Amargo. Os cubanos – sem distinção – ganham distribuído pelo governo uma série mensal de suprimentos que são coletados por áreas ou zonas em locais cadastrados chamados Bodegas. Uma cartela é dada ao cidadão para que busque periodicamente uma quantidade de gêneros alimentícios básicos como arroz, feijão, ovos, carne e alguns produtos de uso geral como de higiene, limpeza. Há, sem qualquer neura, comércio. Feiras, vendedores ambulantes de frutas, lojas e mercadinhos abundantes em cada viela e esquina são essenciais para que os cubanos usem seu salário para complementar o rancho do mês, mas ainda assim a escassez de alguns elementos é incômoda.

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Tabela de preços e de distribuições nas chamadas “Bodegas” 

Logicamente para as refeições do todo poderoso turista nada (quase) falta, mas parece estranho o modo como as pessoas não sentem nenhum pudor em se amontoar em paradouros luxuosos em vários lugares do mundo (como na atual meca caribenha do turismo, a República Dominicana) onde quase toda população local amarga situação famélica, e, em Cuba, fiquem a todo tempo se questionando quanto a isso é estranha. Alguém na Disney World come com remorso ao pensar nos homeless da região metropolitana de Miami?

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 Café da manhã no hotel: turistas tratados como reis

 

Não há – dado impressionante constatado visualmente – moradores de rua em Cuba: todos têm um teto e uma cartela para buscar ao menos sua subsistência com o conjunto de itens e alimentos dados pelo governo nas Bodegas. Mas há uma espécie chamativa e numerosa de ‘pedintes’ que são pessoas que abordam os turistas em busca de alguma coisa extra como pastas de dente, shampoos, sabonete e outras coisas que terminam antes do final do mês. Há uma parcela da população que supostamente vive apenas do rancho periódico nas Bodegas e esses itens são preciosos para uso ou para uma espécie de mercado negro informal. Saímos com alguns sabonetes e tubinhos de shampoo do hotel que encontraram ganhadores não muito demoradamente, em que pese em algumas áreas da cidade seja incomum ver pessoas nessas condições. Novamente: a ideia de Cuba como um holocausto é incomodamente falsa.

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Um ‘bodeguero’ de Havana Vieja

 

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A pobreza de uma grande parcela da população é considerável e não pode ser maquiada, mas a todo instante eu questionava internamente os índices de ‘tolerância’ que temos no Brasil com crianças coletando comida podre em lixeiras ou atiradas na drogadição nas calçadas de nosso país. A crítica à situação de muitos cubanos é dotada de veracidade, mas, afinal, que moral temos tão evidenciada assim em relação a isso para apontar dedos?

Há quem esteja morando mal e comendo mal – muita gente – mas é preciso ponderar se, fosse o caso do país ser um expoente do capitalismo emergente, como o Brasil, por exemplo, essas mesmas pessoas não estariam na mesmíssima situação (provável), ou não estariam em uma situação pior em relação à quase totalidade do dia dedicada a trabalhar e aos trajetos de ida e volta para ganhar um sustento que lhe permitiria apenas morar e comer mal – e olhe lá. É como na piada (amarga) que alguns tomam como ‘teoria’: não deveríamos dar esmolas para as pessoas em situação de rua não se acostumarem a viver disso – é fácil para muita gente se auto-enganar e acreditar piamente que a ausência de um punhado de trocados fará com que a pessoa decida voltar para o emprego (que na maioria das vezes nunca existiu), para a casa (que quase sempre foi um viaduto) ou finalmente tomar coragem e empreender. É preciso muito contorcionismo político para não perceber que a faixa de população mal remunerada (se empregados estiverem) em Cuba (independentemente da qualificação profissional/universitária) apanha da vida como qualquer faixa de população similar em países demograficamente semelhantes. E não é a possibilidade de ‘comunismo’ ou de ‘capitalismo’ programáticos que vai mudar isso. Mas o ‘fodido’ cubano leva uma vantagem em relação ao ‘fodido’ brasileiro: há (pouca) comida de graça, todo mês, há roupas (de baixo padrão) periodicamente, de graça, e há um teto para apartar a chuva – que jamais é de papelão.

Há quem diga que os índices relativos à saúde pública e à educação (trunfos inegáveis da política externa cubana) são usados como o sucesso esportivo em algumas modalidades para propagandear o sistema e encobrir problemas. Sim e não. Que a propaganda é um dos métodos clássicos do regime, bem, se você ainda tem dúvidas ou se sente apto a ‘discutir’ esse ‘mistério’, é melhor mudar de assunto. O fato é que Cuba costuma ser denegrida por querer exportar justamente o que ela consegue ter surpreendentemente de bom. O imaginário político-ideológico mundial costuma (especialmente na era do debate facebookiano brasileiro) opor Cuba a qualquer potência ocidental-capitalista como se fosse uma espécie de guerra entre toda um ideário planetário e uma ilhazinha latina que deve ter o tamanho de algumas quadras de futebol enfileiradas: experimentem comparar Cuba entre seus pares caribenhos e percebam a – nada sutil – diferença. Enquanto os países ao redor são republiquetas militaristas em constante guerra civil, ou simples paraísos de turistas cuja frota armamentista se destina a simplesmente excluir da frente de uma meia dúzia de hotéis uma horda imensa de famintos como zumbis (e onde negros são aceitos apenas na condição de serviçais) e/ou ainda cidades artificiais, embelezadas para abrigar bancos de fachada tendentes a ser redutos estranhíssimos de depósitos off-shore, Cuba, bem, existe. É real. Tem também seus apartheids velados e sua cota de canalhice ao tratar certos trechos de litoral como Éden encantado para os Euros e Dólares que se mostram. Mas passa um ar de dignidade, ao menos nesse sentido, que não se encontra na região.

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Graffitti perto da Plaza de La Revolución: “monstro”  do 1% abocanhando tudo

 

Quanto às escolas, um ponto inegável para os defensores do regime: prioridade desde que um pequeno amontoado de guerrilheiros desembarcou do Granma, a erradicação do analfabetismo e a universalização do ensino é (não há como negacear) um sucesso. Todas as crianças que se vê na rua – fora dos feriados relativos ao início do ano – estão uniformizadas, ou indo para a escola ou voltando da escola. Crianças de todas idades estão em creches, primários, escolinhas e colégios, um fluxo que se percebe também nos mais velhos. O número de escolas é assombroso e parece algo que realmente causa calafrios no povo cubano a possibilidade de uma criança em idade escolar não frequentar as aulas. Tão óbvio. Tão simples. Mães levando os pequeninos pela mão, garotos mais velhos zoando as colegas meninas nas esquinas, filas, horário de ingresso cumprido a risca. Chama a atenção o modo como é visível na prática o estratagema de Fidel de ‘ocupar’ simbolicamente certas edificações (como quartéis situacionistas da época de Fulgêncio Batista e/ou casarões imponentes) e transformar elas em escolas (há uma inclusive no meio da Plaza Vieja – um dos pontos turísticos mais aclamados de Havana, cercado de edificações bicentenárias e conservadíssimas). Em um dado momento, o visitante no país chega a pensar que é um truque. Aquela (ex) mansão na esquina para a qual você está olhando pode ser uma escola ou uma biblioteca pública. Geralmente o é.

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Escolas em Cuba: em (literalmente) todo lugar.

 

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A quantidade de estadunidenses na ilha chama a atenção. Dizem que (nunca fui) Miami é um lugar onde é melhor ter noções básicas de espanhol do que de inglês. Um surpreendente dado sobre Havana: os anos e anos de ‘bloqueio’ que inibem a economia Cubana de tentar se desafogar e a série de restrições que o governo do Tio Sam impõe para que Cuba não encontre parceiros comerciais em algumas áreas não impede que rios, enxurradas de norte-americanos inundem Cuba. De velhos típicos de meia soquete e camisas floreadas, àquela gurizada mochileira que busca hostels baratos em praias, mar e maconha, os gringos são parcela opulenta do turismo local. Nada como a sensação de estar fazendo algo levemente “proibido” e imagino o quanto não bomba o Instagram dessa gente ao exibir para seus compatriotas essa sutil aventura.

Talvez esses prefiram, se apertar a saudade de casa, uma estadia no bairro de Miramar, a oeste de Habana Vieja e do centro da cidade: ruas arborizadas, edifícios de veraneio lindos e novíssimos, clubes à beira mar e casas luxuosas que abrigam embaixadas fazem você se sentir em qualquer lugar, menos na Havana devastada que as câmeras televisivas gostam de explorar volta e meia. Dentre o caráter alucinógeno do local, a bonita ponta batizada de Marina Hemingway onde hotéis/pousada se acotovelam entre canais para que pessoas de todo mundo (sobretudo estadunidenses) estacionem diretamente seus barcos que aportam direto do oceano (um guarda local me informou que não era permitido tirar fotos dos barcos, que, afinal, eram “propriedade privada“. Balela: o problema deve ser pipocar aqui e ali imagens que possam comprometer os proprietários das naves perante o fisco do norte e o embargo mais permeável e contraditório do que à primeira vista).

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 Bairro de Miramar: onde Havana parece…Miami

Não sei em que nível operam coisas como ‘censura’, mas há uma pressão ideológica por parte do regime castrista que é menos violenta do que cafona: em todo e qualquer espaço disponível na rua, outdoors, pinturas, cartazes, pichações, fachadas de prédios (públicos e em muitos casos residenciais) e intervenções artísticas, a Revolução é louvada e enaltecida com fraseados bregas e bravatas quixotescas. Fotos dos ícones da intentona de 59 tomando Havana, bandeiras do 26 de Julho (movimento que, iniciado em 1953, marcou o início da luta de Fidel Castro e seus companheiros pela independência e tomada do poder em Cuba, que se sagrou vitorioso seis anos depois), uma profusão inigualável de imagens estilizadas dos mártires Camilo Cienfuegos e a já bem sabida e esperada onipresença do olhar altivo do Che imortalizado na forte imagem que (me arisco a dizer) é a mais marcante obra de pop-art da história.

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Chapéu de Camilo, boina do Che no Museo de La Revolución

O desespero do regime em se fazer lembrar parece aos meus olhos de turista funcionar ao contrário: não é necessariamente louvor, mas uma espécie de frenesi, de neurose revanchista para que a todo instante a incrível e improvável vitória dos revoltosos se faça glorificada. Não parece algo natural, e sim forçado – em que pese os cubanos (que, sim, tem muito mais noção de balanço entre fatores bons e ruins do que alguns colunistas gostam de supor e, não, não são uma nação de cérebros lavados) realmente admirem o panteão sagrado e sumamente Che Guevara.

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Che: glorificação e onipresença

Che conta com a ajuda histórica: sua coragem inquebrantável, sua disposição para viver em meio ao povo e a mitologia rebelde que gira ao seu redor, unidas à sua morte em combate na Bolívia (no sonho de ampliar a revolução cubana para a América do Sul), mesmo após a possibilidade estável de integrar o alto escalão político da ilha, lhe ornam com uma aura divina surreal.

Em meio às cadeiras eletivas do currículo geral da Universidade de Havana, que pudemos visitar (um dos campus mais bonitos e de forte presença arquitetônica que já vi na vida), dispostas em uma lista em um dos prédios administrativos, havia um curso/seminário chamado “O pensamento político de Ernesto ‘Che’ Guevara“. É mais um paradoxo interessante de um corpo universitário que detém uma excelência fora do comum nas áreas da saúde, abriga debates interessantíssimos da FLACSO (Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais) e onde, imagino eu, seria complicado efetivar certos tipos de discussões de matizes diversos – especialmente do ponto de vista econômico. Aqui pode haver um inegável ponto para os críticos e (imagino) um provável sufocamento e ouroboros acadêmicos em torno do tema da Revolução, mas, repito: não sei. Não pude circular por dentro dos prédios da Faculdade de Direito porque, disse-me a segurança, era período de aula e eu não era aluno. Queria ouvir um tantinho que fosse. Fica para a próxima.

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 O lindo e imponente campus da Universidade de Havana

Quando o regime não é dramático e brega em seus protestos oficiais (é definitivamente engraçado, mas um tanto quanto over, o “Rincón de los Cretinos” no Museo de La Revolución, ostentando caricaturas do ex-presidente Fulgêncio Batista, e dos governantes estadunidenses Ronald Reagan, e dos Bushs, pai e filho), consegue realmente impressionar: o monumento “El monte de las banderas” com cento e trinta e oito pavilhões cubanos representando os 138 anos de independência do país (em 2006) e mensagens de libertação e autonomia está colocado defronte o prédio da Central de Imigração dos Estados Unidos (que é estranhamente protegido pela polícia cubana com o maior número de soldados/metro quadrado que pudemos ver pela cidade). Ao largo da praça do monumento, pilares exibem homenagens a personalidades mundiais que lutaram contra o status quo e foram revolucionários em vários sentidos. Há o painel incrivelmente destinado aos americanos e ingleses (Martin Luther King se sobressai), e também aos africanos e latino-americanos (onde Tiradentes divide espaço com Simon Bolívar e San Martin, na falta e um genuíno ‘libertador da América‘ tupiniquim).

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El Monte de Las Banderas: diante dos “olhos do império”

 

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Impossível não se questionar sobre as contradições de um regime que teve seus picos de despotismo em alguns momentos e pensar na legitimidade moral de se estar em Cuba a passeio. As páginas negras do passado de todos os países do globo devem ser abertas e bem lidas, mas se houver a fixação por um tipo de autoritarismo que não se verifica mais ostensiva e cotidianamente, sinceramente não dava para ir para Cuba nem para a maioria dos países capitalistas ocidentais – ver o que a maioria das metrópoles (políticas ou meramente culturais) fez com suas colônias em termos de genocídio e promoção da segregação, ou mesmo ver o que até meados bem incômodos do século XX ocorria em países democráticos em relação à boa parte de sua população faz termos nojo de praticamente todo mapa mundi (e não é privilégio de refugos ‘comunistas’, nem do ‘imperialismo yankee‘, muito menos da hipocrisia européia que banha desde a França até à Bélgica dos chocolates deliciosos e das cervejas trapistas). Há motivação histórica para um camarada não querer ir a Cuba – adiro – mas se o mesmo sujeito recusar a entrada em países de práticas similares – inclusive aquele que mantém um dos únicos campos de concentração assumidos em atividade – que, aliás fica em ____ (nem eu consigo entender. Deixa assim). A dor profunda e incontornável é a ausência de possibilidade de votação ou qualquer tipo de condução mais democrática do processo de governança. Não é sustentável ideologicamente isso e eu jamais estive preparado para qualquer possibilidade de negar essa realidade ou disposto a assumir algum momento onde isso seria coerente. Cair na ilusão do turismo “de corneta” tem sua outra face que é a ilusão do justificacionismo fácil. Não dá. A boa notícia que se pode ter conversando com qualquer cubano é que não há nenhum tipo de treino, robotização ou (tentativa de) lobotomização das pessoas. A maioria do povo sabe muito bem avaliar prós e contras e isso ajuda a apaziguar esse sentimento triste, ainda que essa consciência não redunde em possibilidade de radicalismos variados em uma urna – se bem que, com a crise de representatividade que um país de democracia presidencialista como o Brasil, não sei exatamente se é possível pelear com tanta convicção inabalável nessa linha (em que pese eu siga peleando).

Aos que tem condições e são cadastrados pelo governo, há inclusive a possibilidade de receber turistas em casas num esquema semelhante ao de hostels que vão desde um apartamentinho minúsculo no centro até mansões de mais de um século com movelaria requintada e pé direito gigantesco.

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Sala de estar da casa do Sr. Estebán, que aluga quartos a turistas

 

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Entre um modus operandi soviético dos anos 60 e 70 e a bagunça latina com pitadas da energia caribenha, a segunda opção venceu: Cuba jamais poderia ser um estágio probatório da velha Mãe Rússia eis que o ambiente tétrico da cortina de ferro não cai bem em uma ilha paradisíaca e uma capital que exala libido. Os resquícios toscos são a profusão de automóveis Lada caindo aos pedaços e uma lamentável e proposital dificuldade para se acessar comumente a internet na ilha fora de hotéis (e ainda assim com preços exorbitantes). A valentia surpreendente do MR 26 que galgou florestas e arregimentou o povo à base de peito aberto, ousadia, leitura, carisma e ausência de medo deveria ser levada à sério pelo pós-Castrismo: o que temer na web? Críticas? Denúncias? Apelo do consumismo e inebriar das mentes jovens?

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Guia turístico em Russo: souvenir disputado nas livrarias e sebos

Em uma televisão local de um restaurante, uma coletânea de clipes de artistas latinos. Um deles chama a atenção por exibir uma música pré-fabricada dessas de boy bands dos anos ’10: os cenários são familiares. Nas últimas cenas, em frente ao hotel Tryp Habana Libre, na praça onde está abrigada a deliciosa sorveteria vintage Coppelia, uma multidão de garotinhas adolescentes vibra e se descabela numa beatlemania futurista por quaro rapazotes rebolantes que entendo ser algo como o One Direction local. A linguagem estética do ocidente capitalista está ali (música ruim como todas do tipo e o videoclipe confeccionado com esmero e ares de superprodução, como todos do tipo). Nenhum problema. Os clipes seguintes exibem mais do mesmo: a voluptuosa moça que se esparrama em sépia sobre um piano de cauda no centro de um teatro lamentando a perda do amor e um garotão de terno bem cortado que leva uma mulherada para uma cobertura e uma pool party de onde, usando o celular, liga para mais (ainda) mulheres que brotam das paredes. Estamos mesmo em Havana? Sim. Crianças nas ruas se travestem de Cristiano Ronaldo e Messi em uniformes falsificados que pululam também no Brasil e em todo lugar. O futebol vai virando mania de praças e ruelas interrompido apenas por carros e pedestres.

Havana é monótona apenas em um quesito: o número de contradições e de semelhanças com a realidade brasileira é gigantesco – embora não tão evidente em alguns casos. Nesse sentido, há pouco de novo o que ver para alguém que não é hipócrita ou acredita que o ‘povo’ deve ser deslocado para certas praias para evitar o contato com os cidadãos mais qualificados – como já foi veiculado dias atrás por uma sedizente formadora de opinião do Rio de Janeiro.

É um destino fantástico para ser visitado e assimilado ainda agora enquanto uma extinção dos Castro e uma abertura irrestrita não voltem a fazer da ilha um imenso hotel de luxo a céu aberto para turistas onde as áreas restritas deixarão de ser exceção. No restaurante mais ‘caro’ que fomos e também no mais ‘barato’, via-se grupos de europeus em uma mesa e famílias de cubanos em outras. Defender irrestritamente Cuba em suas falhas clamorosas é uma atitude alienada, como o é deixar de reconhecer que temos (muito) a aprender com eles em uma série de fatores que dizem respeito à alternativas sociais. De certa maneira, algo não me surpreendeu: eu sabia de algum modo que seria essa minha impressão maior, ainda que por um bom tempo eu tenha sucumbido à pressão desinformante e por alguns instantes estava preparado para ir para uma espécie de zona de guerra que não se verificou em praticamente nenhum momento.

A maioria dos cubanos reclama bem menos da vida do que os críticos de ocasião entrevistados a dedo pelos catastrofistas. Não cabe a mim dizer como tem que ser o futuro daquele povo. Mas a sensação é bem melhor do que antes da aterrissagem no aeroporto de nome mais incrível do mundo: eu ficava pensando se em algum aspecto eu teria que voltar concordando integralmente com o Rodrigo Constantino e sigo invicto (felizmente) nesse quesito.

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Casa cubana e varanda que abraça o bairro do Vedado

Há um quesito onde eu poderia dizer que Havana – e Cuba, em geral – é um destino tenso: você pensa. Pensa a todo instante. Olha, assimila, se surpreende. Pensa. Caminha, se admira, sorri, fecha o rosto, fecha o nariz, e pensa. Não é o tipo do destino para descansar, na acepção literal do termo.

Volto mudado de uma forma inesperada e inebriante: quando meus olhos já viam o Mar do Caribe mal o avião levantou vôo do solo, percebi que havia voltado ao mesmo lugar, depois de dar uma volta completa em mim mesmo.

Foi mais ou menos quando (re)lembrei de uma cena pitoresca ao nível inimaginável que presenciei em um dos trechos da Calle Obispo sob as luzes do meio da tarde do primeiro dia do ano: duas senhoras de uns oitenta anos cada davam um show de rebolado sensual em frente um bar onde oma banda de salsa tocava e eram constantemente assediadas para uma dança mais caliente por um senhor que sacolejava tentando equilibrar a falta de uma perna. Todos pareciam levemente embriagados e despudorados de uma forma que indicava que simplesmente resolveram aproveitar um ritmo bem tocado se por a bailar antes de seguir seu rumo.

Não foi o Pedro Juan que desenhou na sua mente insana a cena. Eu vi. Não há nada que derrube essa galera, seja qual o regime político vigente.

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 Velhinhas e homem sem uma das pernas dançam na rua, ao som da salsa

Gocé una vez, de tal suerte
Que gocé cual nunca:—cuando
La sentencia de mi muerte
Leyó el alcalde llorando.

Oigo un suspiro, a través
De las tierras y la mar,
Y no es un suspiro,—es
Que mi hijo va a despertar.

Si dicen que del joyero
Tome la joya mejor,
Tomo a un amigo sincero
Y pongo a un lado el amor.

Yo he visto al águila herida
Volar al azul sereno,
Y morir en su guarida
La vibora del veneno

(José Martí, Versos Sencillos)