Primeira porta, à esquerda

27 out

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A falácia da ‘máquina pública’ que ‘decide’ eleições em favor do postulante a reeleição para cargos executivos no Brasil é uma faca de dois gumes: sabendo aproveitar bem o caráter estético de ‘mudança‘, somado ao cínico discurso da ‘alternância‘ do poder (usado por quem vai certamente pleitear a ‘permanência‘ anos depois), e da exploração coerente dos pontos fracos de quem esteve na vidraça por quatro anos, qualquer candidato oposicionista tem a esperança de melhorias a seu favor contra algumas inefetividades vistas do seu oponente, que tem que explicar não o que fará, mas o que (ou por que) não ‘fez‘. Ou seja: dependendo do quadro, a posição de quem quer se (re)eleger é até mais espinhosa. Ao outro, a doce missão de prometer e cobrar. Veja-se no Rio Grande do Sul, por exemplo: nunca um governador(a) foi reeleito(a) e o grande público votante se concentra muito mais nas chagas do que a situação não apresentou do que naquilo que porventura ela tenha feito de bom. É quase crônica a toada: é um eleitorado eternamente insatisfeito e birrento que já começa a debulhar o executivo no dia seguinte à primeira alvorada do mandato – e, pelo que se vê, a onda independe de associações ideológicas com governo federal ou região específica.

Considerava essa uma eleição facílima (talvez a primeira com esse caráter desde 2002) para que o PSDB carimbasse sua volta ao Planalto: o PT com doze anos de ‘vitrine‘, povo (ou boa parte dele) com naturais anseios de troca de figurinhas, a total antipatia de alguns setores para com a presidente Dilma (que como figura pública, não se esforça muito para parecer afável…), sua ausência de carisma ‘lulístico‘ mesmo dentre uma grande parcela dos admiradores do PT e, especialmente, escândalos relativos à corrupção tendo o governo federal como fonte e alvo (alguns, bem verdade, fruto de patética boataria revoltosa; outros, tristemente plausíveis e alguns, ainda, comprovados, efetivamente, de forma impactante – e para fins midiáticos, sabemos, as diferenças entre essas categorias não necessariamente importam).

Estava – a meu ver – no papo: contra aqueles paulistas ruins de voto fora de seus currais (Alckmin, Serra), o ‘mineirinho‘ Aécio, respaldado por uma candidatura bem sucedida ao Senado após dois governos estabilizados em sequência, em Minas Gerais (e apesar de não ter conseguido fazer seu sucessor, não há como simplesmente duvidar de um índice alto de aprovação de alguém que foi reeleito com sua massa de votação nas terras mineiras – seria o mesmo que esfregar na cara de um petista a eleição acachapante de Lula em 2006 – com quase 61% dos votos válidos – como se fosse um ‘fracasso’ a ser medido pela meia dúzia que foi de oposição e não pela sua própria vitória). Aécio é jovem, bonito, passa uma imagem de bom moço e traz naturalmente a mensagem de renovação, de choque, e de combate que tanto agrada os detratores do governo petista. E ao seu favor, uma era tucana no governo que passou para a história mais pelos avanços econômicos que orquestrou do que pelas já quase esquecidas denúncias de corrupção maciças que envolveram principalmente os processos de privatizações.

Quando alguém é governo por tanto tempo, a oligofrenia eleitoral, ainda que hajam índices positivos, faz soar o alerta da nova ‘moda’ e a mudança ocorre a despeito dos chorões que porventura se considerem já petrificados nas cadeiras do poder.

O que pode ter dado errado? Por que o PSDB não escorregou docemente nessa ladeira (abaixo) amplamente favorável – em inúmeros aspectos – para ser oposição no Brasil?

A resposta que quero acreditar verdadeira me agrada – em que pese seja uma simples hipótese otimista que como qualquer “resposta” pode ser inconveniente, maniqueísta ou simplesmente ‘errada’: o candidato(a) que quiser tirar o PT do poder precisa – goste ou não – de uma guinada à esquerda. Não é nem ideologia ou convicção, é questão de sobrevivência política.

Aécio durante muito tempo foi o candidato ideal de fãs de colunistas ruins de revistas reacionárias, espalhadores de memes acéfalos nas redes sociais e de campeões de boataria alarmista no WhatsApp: aliado a um mote neoliberal-economicista (como não poderia deixar de ser em relação aos tucanos), era um crítico dos programas e pautas petistas, e repudiava como o diabo foge da cruz temas polêmicos da ‘geração y‘ ligada a novas tendências esquerdistas. Suas posturas relativas à questão da maioridade penal, à questão feminista, ecológica, indigenista e – principalmente – a penetração fantasiosa e mentirosa quadrienal do PSDB em relação à população mais pobre, o colocava com folga na lista dos preferidos de uma boa parcela do eleitorado que é mais grotescamente conservadora do que admite e, sem sectarismos de botequim nem bolchevismos de esquina, se pode dizer, de uma elite econômica.

Ironia: ao final da eleição Aécio largou de mão a insistência diária com a diminuição da maioridade penal que pautava seu material marqueteiro com força e uma visão caolha de ‘meritocracia‘ que só faz sucesso entre os abonados e dondocas, elaborou um panfleto caricato e oportunista dizendo que quer mais ‘diálogo‘ com as minorias, passou de achincalhador de programas como o Bolsa Família a defensor da tese de que foi o seu partido que o ‘inventou‘ e avisou que teria feito um chá de comadre com Marina Silva, para – diz ele –  combinar algumas agendas ‘comuns‘ (sic).

Tarde demais: apesar do apoio da insípida, inodora, e incolor e lisa Marina Silva, herself (que foi à televisão chamar Aécio de “luz de esperança”), grande parte do seu eleitorado que faz oposição ao PT sem aderir entusiasticamente à centro-direita não comprou o discurso. Ou seja: o eleitor de Marina (o genuíno eleitor de Marina, que gostaria em tese de fomentar uma ‘terceira via‘, e não o sujeito que estava confiando nela apenas pelo ‘anti-petismo‘ baseado em pesquisas) não vai com a cara e o cheiro petistas, mas igualmente não se sente confortável em combater o PT votando em Aécio. De repente, Aécio perdeu o brilho e a eleição até mesmo para o ‘voto crítico‘ em Dilma de uma boa parcela de ressentidos (esse é um dado incrível: a forma como o PT conseguiu garimpar oposições à direita e à esquerda ao longo dos anos, e como a da esquerda é inclusive mais forte e incisiva, em que pese tenha votado ‘13‘ fazendo beicinho no segundo turno).

O eleitor ‘anti-petista’ sentiu na reta final mais confiança no seu candidato natural (Aécio) do que na novidade a ser ‘engolida’, talvez (Marina). Isso explica a subida de Aécio ao posto que sempre foi dele: o de postulante à presidência com algo entre 30 e 50% dos votos, e a queda de Marina que era uma espécie de opção desesperada para aecistas que previam que o seu barco poderia afundar. Quero crer que ficaram até o fim com Marina uma maioria de pessoas que não confia nem nos tucanos nem nos petistas e é um número considerável: 21% dos votos do país.

Esses 21% precisavam ser disputados a tapa por Aécio e para isso ele precisaria provar que valeria nele um voto de confiança dessa parcela que nitidamente era mais simpática ao PT do que a ele, mas sem dúvida já não é tão simpática assim ao canto da sereia petista.

Grande questão a ser debatida nas instâncias internas tucanas: ou o partido passa finalmente a assumir que precisa de ajustes na sua lataria, ou a coisa seguirá difícil para seus lados. Ao invés de se preocupar com apenas seus torcedores fiéis, deveria se preocupar em tentar ao menos em parcela ser uma opção séria para uma gama de novos eleitores não muito entusiasmados com ninguém e/ou uma parcela da população que não mais está influenciada pelo universo pré-Fernando Henrique e/ou pré-Lula na hora de teclar na urna.

 

Se eu fosse Aécio, o PSDB em geral, assumiria as vestes de um efetivo liberalismo político (que tem mais em comum com uma ‘nova esquerda‘ do que alguns gostariam de assumir), e não apenas de um liberalismo econômico que se traduz toscamente no Brasil em laissez-faire do grande capital especulativo internacional e do agrobusiness. Procuraria acertar as contas com uma gama de descontentes com o PT que não estão confortáveis em subir nos mesmos palanques que Pastores e cães raivosos da ultra-direita. Eles são uma fatia imensa do eleitorado (contando, repito, que depois do crescimento de Aécio, ficaram com Marina aqueles que a queriam de fato, e não os meramente ‘anti-‘). Os votos dessa parcela jovem e já de saco cheio do petismo messiânico de outrora é muito mais interessante do que alguns dos votos da mega-direita conservadora. A questão é escolher se você quer propor verdadeiras mudanças, e partir par uma saudável reinvenção vitoriosa, ou seguir agradando o Lobão, o Constantino e aquela sua tia milionária. E se o PT sabe jogar esse jogo, em último caso, o PSDB teria que aprender também: mesmo alguns esquerdistas dissidentes que não se entusiasmam mais com o PT votam 13 quando a coisa aperta. Aderir a algumas pautas-teira de aranha de indecisos e se mostrar um pouco mais simpático a causas sociais não faria o PSDB perder, simplesmente, votos de boa parte do empresariado.

Alguns débeis-mentais iriam ‘acusar’ o PSDB de estar se ‘vendendo‘ ao suposto grande golpe comunista global que (como Olavo e todos sabem) está dominando o mundo (…): esses são os sujeitos que deveriam ser literalmente deixados falando sozinhos. No instante em que até Fernando Henrique Cardoso está discutindo coisas como alternativas à política de drogas, não leva a nada seguir fomentando esse tipo de tolice como mote ideológico. Eles não precisam ser prestigiados. São indigentes mentais. O PSDB precisaria ganhar a confiança de uma boa parte de pessoas que foi de Dilma sem muita vontade – dada a própria pecha de que ‘dos males, o menor’: por mais que tenha havido uma esdrúxula transfiguração do PT nos últimos tempos, o partido ainda, em tese, de esquerda representa o mínimo dos mínimos de uma postura como essa que tem alguma chance de alguma coisa em patamares executivos federais, por hora.

 

Se chutasse para o alto pautas que agradam apenas a um eleitorado oligofrênico que vê uma venezuelização cotidiana em tudo que ocorre no país e se mostrasse seriamente a fim de dar alguns pequenos braços a torcer e bancasse algumas pautas que simbolizassem uma efetiva ‘mudança’ (aproveitando-se inclusive de poder jogar na roda o baixo ‘esquerdismo’ que o próprio PT federal ostenta ultimamente), Aécio teria complicado a eleição bem mais do que alguns boatos semanais da Veja que saíram pela culatra – ou pela tangente.

Óbvio que mesmo alguns petistas ‘adormecidos’ ou eleitores posicionados mais à esquerda, como a (ainda) pequena, mas (já) bastante expressiva votação do PSOL (1,55% dos votos válidos do primeiro turno) jamais irão dar seu voto (literal e de ‘confiança’) a um tucano. Mas igualmente não são esses votos que o PSDB precisaria para ampliar sua margem.

A disputa da próxima eleição presidencial poderá ser deliciosa: uma disputa entre um partido de esquerda lutando para parecer como tal em ano eleitoral e um partido de centro-direita tentando fazer uma rehab de algumas de suas agendas conservadoras que não lhe dão nada de bom em troca, buscando se mostrar confiável para quem não quer ir para a direita, mas também não está tranquilo em se abraçar com o partido da estrela.

Quem sabe teremos um dia, uma eleição entre um efetivo partido de esquerda, batalhada contra uma (verdadeira) social-democracia com pitadas esquerdistas (pero no mucho), ladeados por partidos mais setorizados, onde ninguém se importe com boatarias chinfrins, religiosos lunáticos, lobistas gananciosos e militares psicóticos, e onde o que interessa de fato é discutido?

O (ainda) sucesso do PT traz algo de muito positivo para um panorama futuro: a esquerdização das discussões e  (possível) consciência de que algumas pautas da ‘direita’ brasileira não são pautas, são pura e simplesmente pagação de mico em vários sentidos.

O fato de a eleição ter terminado com praticamente ninguém discordando da necessidade, efetividade e sucesso (apesar de necessárias melhorias e implementos) dos programas sociais do PT é um excelente sinal nesse sentido: o binômio Lula-Dilma trouxe para o lado canhoto do mapa o debate político nacional. A estratégia de Aécio é errada no instante em que não considera essa realidade. Há que se jogar no campo do adversário: ele detém a bola, o favoritismo e a torcida nesse momento. Pensar que o debate não inicia por agendas sociais e pelo que de ‘petismo’ que será mantido é um tiro no pé de qualquer opositor.

O PSDB terá que ‘petralhar‘? Um pouco: não adianta querer simplesmente na última semana de governo tentar se vestir de ‘pobre’ e de socialmente ‘consciente’ ao concorrer com quem faz isso a vida toda. Há quatro anos pela frente para que o PSDB faça o que Aécio reclamou em todos os debates: ser “generoso” e admitir os pontos altos do adversário. Simplesmente dizer que vai “manter o Minha casa, minha vida” é muito pouco. Há um eleitorado que pende para a esquerda – teoricamente – que precisa de mimos e de promissórias sólidas. Se o PSDB quiser seguir jogando desse jeito, o resultado está aí: nem de uma Dilma com cara de buldogue e com escândalos batendo à porta ele consegue vencer, no fim das contas.

Ou, bem, eu estou ficando louco e na próxima eleição algum pasto xiita escoltado por algum fanático que vive ainda nos tempos do macarthismo aparece defendendo (de novo)  pena de morte e ganha com adesão maciça dos anti-sei lá o que. Vai saber.

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