PAUTAS, PARA QUE TE QUERO

9 out

zombie-attack-550x350

 

O debate político pós-surpresas do primeiro turno da temporada 2014 do sufrágio brasileiro está beirando o genocídio mútuo de facções e corações.

De tempos em tempos algumas polarizações se acentuam a ponto de gerar rivalidades que, ao contrário daquelas futebolísticas, são suprimidas ou esfumaçadas pelo final de domingo e a necessidade de acordar cedo para o batente no dia seguinte, parecem gerar um clima de conflito religioso em graus maiores do que o recomendado. Ocorre agora, com uma das mais evidentes contendas dos últimos tempos, onde o ‘desafiante’ Aécio Neves, ostentando shape de novidade, no corner direito, procura tirar o cinturão da campeão Dilma Roussef, cuja companhia segue invicta há 12 anos e três rodadas. Partidóides de uma direita pouco esclarecida e pouco liberal e centristas loucos por uma caneta e alguns carguinhos não têm pudores de se aliar ao desafiante esperando recompensa. Algumas agremiações com discursos voltados para a Petrogrado de 1921 relutam um pouco, fazem manha e segredo, mas, sabemos, vão com a atual campeã e nela apostam seus rublos.

A tarefa, no entanto, é mais importante, aqui: a cegueira branca (ecos de Saramago) que os bons defensores de seus modelos para que o país prospere e o mundo melhore acaba redundando numa guerra de golpes incertos e está instaurado no debate público uma espécie de olho por olho: como vaticinou Gandhi, o olho por olho que nos deixará cegos, pelas tantas, tem feito suas primeiras vítimas no olho bom da maioria da plebe que parece inapta para deixar algumas coisas claras sobre a mesa.

Há uma série de coisas que me preocupa em relação à inviabilidade de diálogo e à possibilidade de que por birra – sim, pura e simples – não possa haver um entendimento mínimo de denominador comum em relação a alguns avanços técnicos, ideológicos e democráticos que possamos ostentar a essa altura do campeonato.

Sem procurar ser um fanático passivo da conciliação – postura que meu amigo Moysés é certeiro em definir como “fanatismo de centro” (e que, aliás, é perita em disfarçar a sua condição de ‘postura’, como se fosse possível ser uma Suíça neutra em termos de argumentatividade – aliás, como se a própria Suíça, berço da lavagem de dinheiro elegante do mundo e da evasão de divisas cool, para onde papas do white collar peregrinam e giram em torno de uma agência bancária ao menos uma vez na vida – bem, deixa para lá).

A ideia não reside em simplesmente querer aparar arestas de qualquer jeito e amalgamar políticas em prol do “crianças, não briguem“.

Ao contrário: respeitando diferenças ideológicas, creio que algumas pautas são suprassumos republicano-democrático-éticos dos quais nenhuma postura séria pode abrir mão se quiser governar um país como o nosso. Creio que algumas coisas ambas partes, por mais que rivais, deviam combinar que não iam descartar – bem como outras, duelantes honestos certamente concordariam em rechaçar totalmente.

Há questões que, embora possam ser temas de “estimação” de esquerda e direita, na verdade devem ser predicados de qualquer um – e deveriam gerar rejeição e vergonha para aqueles que não as assumem. Procurarei listar cinco que me parecem representar o quesito:

1. A completa rejeição de espólios fascistas da ditadura militar – e a ridicularização de seus partidários:

 

lobao-e-danilo-gentili-no-agora-e-tarde-1367996167764_615x300

Lobão e Gentili: para quem a ditadura pegou “leve” com os “esquerdopatas” e apenas “arrancou umas unhazinhas, aqui e ali”

 

Como a ditadura brasileira que operou da metade da década de 60 até meados da década de 80 teve como um de seus motes um combate remoto ao ‘avanço’ comunista em países latinos, é mais do que identificável os ranços direitistas em seus (não poucos) saudosistas. Na verdade, ainda que longe do radar fundamental da guerra fria, os EUA não perderiam a chance de mandaletes bem fornidos encamparem qualquer respiro democrático voltado às agendas sociais no período e jogou com apoio e bastidores em relação a dominações militares que – todas elas – tinham como premissa manter a “ordem”.

Diante de um panorama de oposição – não raro oposição guerrilheira – cunhado por grupos de inspiração em predicados comunistas, muitos seguem polarizando questões relativas à anti-democracia ditatorial, no Brasil, como se fosse uma questão de “esquerda” (transplantando a lógica guerrilheira para partidos que abrigaram alguns daqueles opositores depois da abertura democrática) contra a “direita” (focalizando, igualmente, o espólio de recursos humanos dos círculos militares e seus sustentáculos nas agremiações que os agasalharam após a Anistia).

É fato que certas coisas não mudam e que certos personagens seguem peleando, vívidos, nas mesmas trincheiras distintas.

Ocorre que para a sanidade mental da política brasileira, é preciso de uma vez por todas tomar partido em relação a isso: vivemos em uma democracia e é preciso que isso seja defendido no ponto de vista estratégico com unhas e dentes. Não há espaço para “debates” sobre a legitimidade ou não de ideias, práticas, fatos e acontecimentos outorgados por baionetas e torturas por ditadores corruptos e assassinos.

Aceitar” ou (mais grave) “glorificar” relicários ditatoriais é grave. É um erro. É canalhice.

Lutar contra a ditadura e seus resquícios e seus bizarros personagens tenebrosos, não é uma característica intrínseca da “esquerda” ou do “PT” (para que alguns entendam): é uma luta de qualquer um com um mínimo de consciência cívica. Grandes e conhecidos nomes da esfera da discussão política brasileira – passando por nomes curiosos para alguns, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e mesmo Miriam Leitão – foram alvo (de vários tipos de maneiras e gradações) de perseguições pelo governo militar-ditatorial. Vidas foram perdidas (aos ontes. Aos borbotões. Ao nível do repugnante), e uma estrutura de exploração político-econômica foi criada, a corrupção – ao contrário do que mentirosamente é propagado por alguns – correu sem freio por um aparato que não distingue ordens administrativas, legislativas e especialmente policialescas.

Ao aceitar que alguns ramos de partidos políticos conservadores defendam ou contraponham eventos de resistência e que até hoje, em menor e diferente escala, “persigam” os flagelados de um governo sem regras, sem pluralidade, sem escrúpulos e sem qualquer respeito pela soma mais básica de direitos fundamentais, nos tornamos mais idiotas.

Sim, movimentos como a “Comissão da Verdade” não são imparciais – porque a Anistia (de fachada) concedida para aliviar a barra dos militares como se tudo aquilo daqueles vinte anos se resumisse em um sonho ruim de uma noite de gastrite foi estupida e aberrantemente parcial. A luta pela verdade, pelo esclarecimento e por colocar esse tipo de lixo (humano e ideológico) no seu devido lugar é propriedade de todos. Se você é mais um que acha que “deve” se posicionar em oposição a isso porque crê que isso é um tópico exclusivamente de alas mais antigas dos partidos esquerdistas, você está causando problemas para todos. Repense.

Caso você se sinta excitado(a) com alguns fetiches fascistas, eu reformulo a frase: repense, é uma ordem.

Se você quiser ler mais, já escrevi sobre isso em outra oportunidade –> aqui

 

 

2. A luta contra discriminações de todo gênero – número e grau…

 

 

homo

Praticamente todo dia pessoas são espancadas em virtude de raça, cor, gênero e opção sexual. Não, ser a favor disso não é uma “opinião”.

 

Muitos partidos de esquerda abraçam de forma fraterna causas de minorias excluídas e, ultimamente, têm dado ênfase ao combate à exclusão e à segregação de gênero e/ou preferência sexual propagando a ideia de que é preciso haver uma guinada cultural no quesito.

Isso é o ponto de partida para que militantes que não simpatizam ideologias correlatas a essa base partidária associem burramente a ideia de que sua visão antípoda precisa necessariamente funcionar como um negativo fotográfico da outra e voilá: defender (exemplo) os direitos de grupos LGBTs, por exemplo, passa a ser uma “pauta de esquerda” para o que a defesa (alguém por favor me explica isso) dos direitos feridos (?) da maioria heterossexualizada-ortodoxa passa a ser uma profissão de fé contrária.

Não tenho sequer meios de me expressar em relação a esse tipo de coisa. Diante das votações estrondosas que parlamentares que ostentam discursos eminentemente discriminatórios, o tema é grave: pessoas se sentem legitimadas a levantar bandeiras preconceituosas tendo como base de raciocínio (sic…) o simples fato de quem seus “inimigos” estão ostentando as prerrogativas inversas. Os discursos que ganham respaldo impressionante nas urnas, repito, assustam. Deveriam assustar qualquer um. – por vezes assumidos de forma tosca, por outros, disfarçados estupidamente de crítica a uma “monotonia politicamente correta” e geralmente tapeados sob a maquiagem de “bom humor“.

É lamentável que em rede nacional um Levy Fidelix e um Bolsonaro ganhem “apoio” ostensivo (ou mesmo discreto) de alguns diante das tolices e símbolos de ignorância que costumam proferir a cada vez que lhes é alcançado um microfone. Varrer do mapa esse tipo de anedota lamentável do cotidiano ideológico brasileiro é tarefa de qualquer ser ou entidade partidária que se julgue capaz de se sustentar em democracia.

Não há lastro democrático que possa servir para a veiculação de discursos de ódio extremista como se o manto da “liberdade de expressão” fosse na verdade um escudo de impunidade para que crimes e covardia pudessem se perpetuar à luz do dia sem que ninguém possa fazer nada.

É tenso e grave que em um caldo já fervente de uma cultura machista, misógina e homofóbica – carente de respeito mínimo à outridade – se tenha reforços ignóbeis de pessoas que acham que essas bestas quadradas são símbolos de “rebeldia” e “irreverência”. Rebeldia à favor da maré e pegando carona no moralismo? Desculpe, santa. Nunca vi.

Quando defendem – até mesmo “juridicamente” o preconceito e a homofobia eu fico bege. Já escrevi sobre isso outras vezes, por exemplo –> aqui 

 

 

3. (Des)Aparelhamento de instâncias de Estado e profissionalização das instâncias administrativas:

 

aparelha

Governos que promovem “desmanches” técnicos da gestão anterior apenas como medida revanchista: controlem sua dor de cotovelo

 

 

Atenção partidos de esquerda: chega aqui. De boa.

Eu sei, não são vocês que exclusivamente invetaram nem sofrem desse mal. Mas as coalizões que gravitam em torno da órbita do Partido dos Trabalhadores têm sido peritas nos últimos e vitoriosos anos em aperfeiçoar a arte de distribuir carguinhos técnicos e potencializar gastos em relação a órgãos estatais.

Nem tudo da lógica “empresarial” é busca demoníaca e inescrupulosa de lucros e sobrepujar do sangue humano em prol do capital. Há bons exemplos – e bons motivos para que representantes do empresariado arranquem cabelos e fibrilem no peito em relação a algumas posições estratégicas que são ocupadas no grande tabuleiro de War que é a administração pública brasileira. A lógica do compadrio é espúria. Precisa ser fiscalizada e corroída, de um lado e de outro.

A tentação é grande em prestigiar correligionários históricos e em desferir “tapas de luva” retóricos em relação a alguns cargos que são exibidos como uma colocação privilegiada no brinquedo do parquinho na última volta dele antes do final do horário. O problema é que alguns exercícios e competências técnicas e hábeis (vários sentidos) precisam ser suprapartidárias para sobreviver bem, sem ajuda de aparelhos, sem embustes e sem resultados desastrosos.

A vontade de mandar um “beijinho no ombro” para as “inimigas” faz com que a cada gestão (um mal que a direita também perpetua, portanto) uma massa gigantesca de funcionalismo – e alguns com relevância de gestores ou de comando tático – seja simplesmente convidada a limpar a gaveta diante da substituição das cores da bandeira no mastro. Natural que haja realocações e remanejos, mas a forma como parece imperativo que cada governo diferente tenha desesperadamente que repensar todo o quadro de políticas públicas (o que dá uma noção da falta de noção de muitos sobre o que são políticas públicas) e o time de gestores é bisonha.

Tirante as alegações de corrupção, não há como não associar episódios dantescos como os desmandos relativos à Petrobras e seus gastos – que muito tem de repasse “camarada” – a falta e profissionalização extrema nos cargos-base de uma estatal daquela potência. E é melhor que os petistas de agora e do futuro não tentem dar (revira)voltas para explicar a existência de mais de trinta ministérios. E bom que esse não seja um dos legados que um eventual governo tucano a partir da próxima legislatura não se acomode em manter.

 

4. A questão ecológica – e não meramente sustentável

 

eduardoojorge

O “simpático” Eduardo Jorge: ligação histórica e umbilical com partidos de centro-direita e propostas mais à esquerda do que as de Dilma

 

Muito do que se fala em relação a um desenvolvimento “sustentável” nada mais é do que a falta de coragem para o efetivo abandono de premissas destruidoras do planeta e uma espécie de mini-mea culpa onde ao invés de propor um desenvolvimentismo atroz, os atores adotem um discurso de “ok, vamos cuidar um pouquinho para não mudarmos em nada o nosso roteiro, mas tratando de sermos mais silenciosos”.

Não creio que haja esse ovo da serpente em todas as medidas redutoras de danos e autoproclamadas “sustentáveis”. Mas o fato é que a pauta ecológica merece um abraço radical como se você, tucano (inspire-se no mascote) ou petista fosse um hippie holístico e a temática fosse a árvore querida do Serguei.

É hora de levar a sério as agendas ambientalistas, medida que rende como efeitos colaterais maior qualidade de vida, maior acômodo climático, maior possibilidade de aplacar a fome de modo saudável e barato (e impassível diante de tentativas de patentização ou privatização de gêneros a ponto de catalogar a própria natureza em si). Mais ecologia é mais educação em termos da biosfera que nos abriga (em visão ampla) e mais saúde a invadir nossos pulmões, olhos e papilas gustativas.

É mais consciência na produção, plantio, criação, respeito e preservação. É mais sabedoria e mais aprendizado. É mais cultura, rebocada necessariamente por um sentimento de pertença que faz você compreender que a tolice cartesiana de que o homem é o “senhor e possuidor da natureza”, atrelada à estultice religiosa de que “Deus escolheu o homem dentre todos os seres” são decididamente um caminho hipócrita e errôneo.

São sendas de desenvolvimento interessantes: enquanto em países terceiromundistas a pauta ecológica é quase sempre ofertada por propostas ligadas à esquerda clássica e a partidos com representação majoritária pífia (que têm que conviver com as agruras de um capitalismo selvagem que enxerga uma esponja de dinheiro para ser drenada em cada centímetro cúbico de campo), em países desenvolvidos, o grande capital já percebeu os lucros pontificados pela adoção de métodos limpos e saudáveis de produção e a melhora na qualidade de vida relativa ao estímulo de consumos mais limitados, orgânicos e inteligentes. Não é bem uma opção ideal e idealista. Mas é um estímulo e tanto. E é uma tendência. A tecnologia é aliada retórica, enquanto que setores da esquerda reclamam, bem, de diminuição de postos de emprego. Nada e novo no front.

Os panoramas não são exatamente tão dicotômicos assim, mas questões relativas à preservação da história e da memória cultural igualmente contidas em santuários ecológicos e a procura por aprendizado milenar em relação à mãe terra que nos cerca não pode ser uma preocupação polarizada na base do anti- : se isso é um ponto de interesse “deles”, o meu é o ponto oposto. Isso é infantil e, ademais, cara pálida: já adquiriu seus terrenos na Lua e sua cabine na Estação Espacial mais em conta para seu pacote de turismo? O que é “eles” quando estamos falando do maior âmbito do “nós” que se pode conceber?

Uma das coisas mais incríveis já concebidas – e uma proposta política fraterna que denota “culhão” dos governantes é a Lei da Mãe Terra, que, basicamente, redefine elementos ecológicos e reservas e estabelece depósitos minerais como “bençãos” e os confere “direitos” como “direito à vida” e “direito à manutenção dos ciclos de regeneração”. Claro: foi uma lei aprovada no governo de Evo Morales na Bolívia, o que lhe confere altíssimas chances de ser ridicularizada por pessoas que fazem questão de não se informar sobre o que está de fato sendo alvo de seu deboche.

E que tal se todos passássemos a pressionar candidatos e bases partidárias para que se adotem medidas relativas a um verdadeiro compromisso ecológico? Setores de todas as ideologias esbarram em lobbies, engessamento de setores e falta de ímpeto para peitar certas lógicas e a gama de investimento sedento por resultados inconsequentes que lhes serve de sombra.

 

 

5. O “direito à cidade” e a mobilidade urbana:

 

cicloruta

Não é Berlin. Nem Amsterdam. Nem Viena. Nem Montreal. Nem Portland. É Bogotá. Sim, aquela.

 

 

Responda rápido: o que possuem em comum um economista-administrador ex-prefeito de uma grande metrópole latinoamericana famosa por densidade demográfica, poluição, picos preocupantes de desemprego e criminalidade que tem uma formação liberal (no sentido político) e estudo e aperfeiçoamento em universidades conservadoras dos Estados Unidos e da Europa com um (atual) prefeito de uma grande metrópole latinoamericana famosa por densidade demográfica, poluição, picos preocupantes de desemprego e criminalidade, que possui formação jurídico-político-filosófica calcada na análise frankfurtiana do marxismo e milita em um partido de esquerda brasileiro?

O ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa e o prefeito paulista Fernando Haddad pode ter origens, destinos (Peñalosa agora milita no Partido Verde Colombiano – já foi Liberal e independente) e métodos de leitura social diferentes. Podem ter interesses diferentes (Peñalosa é citado em todo mundo pela pauta do urbanismo pós-moderno e pelo arrojo de algumas ideias – que lhe rendem palestras lotadas nos quatro cantos da terra). Podem ter posições diferentes (enquanto o opositor anterior de Peñalosa, Antanas Mockus, certamente, com ou sem intenção benevolente, pavimentou – literal e metaforicamente – alguns pontos políticos importantes para o lançamento de seus próprios planos, Haddad foi o próximo a ocupar o trono da guerra entre PT e PSDB que costuma fazer terra arrasada da administração anterior e procura dificultar a vida do ocupante posterior). Mas ambos se embretaram em uma polêmica que lhes fez perder popularidade por um bom tempo.

Peñalosa saiu fortalecido demais da queda de braço. Estava com a razão. Veremos se Haddad conseguirá o mesmo. Torço para que sim, e nessa afirmação não há nada de necessariamente “petista”.

Haddad pode colocar a pá de cal definitiva e midiática no seu governo que neste início/meio de legislatura não atinge índices satisfatórios e convincentes de aprovação popular. Ou pode se consagrar como um prefeito que compra certas brigas em prol de causar rupturas necessárias, do tipo daquelas que no futuro serão lembradas com carinho e agradecimento.

A ideia de incrustar artérias de ciclofaixas em meio ao trânsito caótico de São Paulo – uma apavorante megalópole cotada entre as cinco maiores cidades do mundo – pode parecer uma ideia tão anti-funcional e estúpida quanto fazer isso na…Bogotá dos anos 90.

A série de mudanças que algumas legislaturas municipais implementaram na capital colombiana foram paulatinamente fazendo os índices de inclusão e alfabetização aumentarem, os índices criminais diminuírem, as demandas por condições de transporte e serviços públicos serem supridas, até que a cereja política do bolo da nova era foi singelamente colocada por Peñalosa: a cidade ia priorizar o seu pedestre e o seu ciclista frente ao seu motorista, em larga escala, à fim de conferir dignidade à alternativa, e de estimular a adoção de uma locomoção urbana mais segura, prazerosa e, por que não dizer, menos automática e insensível.

Obviamente as políticas de revitalização de espaços públicos entraram em choque com alguns interesses privados e alguns dogmas conservadores (de esquerda tanto quanto de direita): desapropriações, remodelações, remexes, outorga de projetos…supressão de supostos direitos. Sim: não há dúvida que as pessoas já incorporaram tantos hábitos ao seu modus vivendi de modo tão enraizado que hoje é difícil separar o que é o que. Pense rápido: trafegar de automóvel particular é um “direito”? Cuidado com a resposta: o automóvel é uma realidade inexorável dos centros urbanos. E é um meio de transporte útil às pampas. Agora, necessariamente, não é incontestável que o trânsito automotivo seja uma agenda nuclear de como a gestão pública deva pensar 100% da mobilidade das cidades. E mais: trafegar (e, diabos, estacionar) não é um “direito fundamental” do cidadão.

Conferir dignidade e estimulo ao uso de alternativas de trânsito citadino só pode ser um tipo de política futurista em uma cidade onde o trânsito automotivo cada vez mais se assemelha ao de carruagens, carroças ou proto-carretas da idade da pedra. A cidade inteira é pensada pela política tradicional como um mar obtuso onde tudo ao redor ou é cenário inútil ou é obstáculo entre os seus pontos prediletos de partida e chegada. E as pessoas são displays – ou figurantes.

Uma política que estimule o cuidado com os bens públicos, o respeito ao próximo, a gentileza, a educação e a “urbanidade” (que na teoria é sinônimo de cavalheirismo, tal e qual dos finos habitantes da “urbe“, enquanto que a “vileza” ou “vilania“, típica do habitantes da “vila“) não pode dar certo se a cidade for um mero deserto, um ferro velho ético de concreto, aço e combustível que não é incorporada e não incorpora ninguém.

Pode parecer pouco, mas a transformação potencial a ser causada por projetos que façam o vivente retomar para si a cidade é traço fundamental de uma existência coletiva ética e cidadã. Colocado em situação de fragilidade, o pedestre ou ciclista tem a simpatia e o desprendimento quase que como linguagem e tem a educação e a prudência como questões de sobrevivência.

O dogma internético de que em um país verdadeiramente “próspero” não é o pobre que tem condições de ostentar um carro novo, mas sim o rico que tem o uso de meios públicos de transporte como hábito é empiricamente verdadeiro.

Não se pode acoplar realidades distintas (políticas, econômicas, sociais) como se todas fossem soluções mágicas e prontas sem qualquer tipo de ajuste político-cultural. Mas já é hora de tentarmos trazer para nossa “casa” os exemplos que admiramos em lugares que são vencedores em seus quesitos.

Nesse ponto, tanto o Brasil-Potência de Dilma – onde a aquisição de um carro é sinônimo de elevação social, quanto o ranço burro de alguns conservadores de base direitista, como se pautas de mobilidade urbana fossem “estratégias bolivarianas” me causam bocejos.

Essa luta é de todos. Esse debate tem que ser de todos. E, se for o caso, o abandono dessa ideia (uma lástima) deveria ser de todos, mas não antes de ser discutido com consciência e mente aberta. Já cansei até de escrever sobre isso. Um exemplo está, para quem quiser ver —> aqui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: