A “Ditadura do politicamente correto” não existe.

16 set

Pink Floyd The Wall hammers

 

Procurarei ser rápido (porém não rasteiro):

Pessoas que advogam a tese de que vivemos em um mundo cooptado por uma “ditadura do politicamente correto” quase (quase) sempre são pessoas que dão pouca ou menor importância para as ditaduras evidentemente reais que assolam ou assolaram a vida. Quando não são entusiastas ‘morais e cívicos’ de discutíveis factoides sobre como a vida era ‘melhor’ no tempo da – não perderei mais uma linha com essa bobagem.

O fato é que ‘ditadura’, real (e dolorosa) ou como figura retórica (e não menos violenta) é algo que poderia se aplicar em relação a um paradigma onde haja dominação, terror, supressão de toda e qualquer liberdade instituída, perseguição, exceção, morte, e um fanatismo por uma certa ordem que emana do(s) ditador(es) – além da defesa desse status quo de modo raivoso e tendente a exterminar qualquer partícula de ameaça de alteração dos fatores prescritos.

Não vivemos – e estamos há anos luz de, aliás – em uma “ditadura do politicamente correto”, pelo simples fato de que o “politicamente correto” está longe de se implementar enquanto regra.

Uma coisa, no entanto, o termo “ditadura” tem, em muito, a ver com o debate: maximizar todo e qualquer princípio de opinião divergente como se fosse um “perigo” à “ordem estabelecida” e a justificar maior intensidade é, sim, uma das práticas mais recorrentes. De um “ditador”.

Tenho escutado as mais variadas tolices em relação à questão: diante das recentes manifestações em torno da questão do racismo no futebol brasileiro, por exemplo, ouvi mais de uma pessoa afirmar categoricamente que “daqui há pouco, a torcida de futebol vai precisar se comportar como uma torcida de partida de tênis em virtude da ‘ditadura do politicamente correto'”.

Até agora não entendo a relação entre torcer e necessariamente poder chamar pessoas de pele escura de ‘macaco’, como se esse tipo de coisa fosse uma espécie de mínimo razoável essencial relativo à torcida no futebol, e como se sem isso o fato de ir a um estádio fosse um passatempo vazio de sua alma essencial.

Dia desses vi em algum lugar que o proto-humorista e imbecil Danilo Gentili vai ter um programa televisivo de nome “Politicamente Incorreto“. É mais um fator lamentável dessa contenda: hoje em dia, não só alguns bobos reclamam da “ditadura do politicamente incorreto” como se julgam ‘outsiders‘ quando justamente defendem a normalidade contra a verdadeira crítica.

Não existe “ditadura do politicamente correto”: o que existe é um bando de idiotas chorões que diante de um mínimo questionamento de sua mentalidade chinfrim correm para a barra da saia do sofisma, e agem como uma criança mimada que só entra em jogos em que possa necessariamente vencer os coleguinhas ou sair com a bola sob a axila decretando a ‘nulidade’ da contenda quando lhes é conveniente.

Que época: ignóbeis, burros, fascistóides, dementes, descarados e perversinhos em compota ficam inconformados diante da menor chance de se descobrirem frente ao que são.

Façam o seguinte: esperem uns 1032 anos até que as convenções chamadas ‘politicamente corretas’ (depreciativamente…) por alguns se estabeleçam como parâmetro ‘normal’, e não como defesa necessária de alguns valores que precisam – sim – mudar. Daí comecem a talvez choramingar com um pouco mais de propriedade.

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2 Respostas to “A “Ditadura do politicamente correto” não existe.”

  1. Sergio 03/05/2015 às 15:59 #

    Não vivemos numa ditadura mesmo? Então me diga, o que acontece se eu expressar uma opinião que pessoas como você e a esquerda, que domina o discurso e a mídia, não gostam? Sou censurado, corro o risco de perder meu emprego, posso até ser preso nesse lixo de país terceiro-mundista que não defende o livre pensamento em nome do politicamente correto, do mesmo jeito que não defende o direito à autodefesa em nome da vida de bandido. E você acha certo e justo. E ainda ataca quem critica. O seu texto ainda se contradiz grosseiramente ao começar afirmando que não existe uma imposição de valores para alguns parágrafos abaixo afirmar que ela existe “como defesa necessária de alguns valores que precisam – sim – mudar.”

    No caso de um xingamento em um jogo de futebol, a única regra que deve imperar é a regra da instituição privada que organiza o evento. Se ela julgar a atitude da torcedora de usar um epiteto racial inaceitável, então cabe a ela tomar as providências cabíveis (barrar dos estádios, multa, etc.). Não cabe a mim, muito menos a você, julgar o que é certo ou não. Ela xingou o cara, não apontou uma arma e disparou contra ele. Na minha cabeça, ela estava extravasando a raiva dela. Foi infeliz? Sim. Faltou inteligência? Sim. Merece ter a cara dela exposta? Sim. Mas no final das contas, ela deve ser livre para expressar o que pensa. Na sua cabeça, ela é a personificação do mal e deve ser crucificada no altar da sua ideologia progressista.

    Não me surpreende que você pense assim. Você é obviamente um esquerdista (como eu já fui), ainda que não se assuma um explicitamente. Adopta a típica estratégia de xingar, xingar e xingar o mensageiro sem debater ideias (“ignóbeis, burros, fascistóides, dementes, descarados e perversinhos”). Diga-me: quem lhe deu a autoridade moral para dizer o que comportamentos precisam mudar e o que pode ou não ser dito? Onde se traça a linha que separa a liberdade de expressão do discurso de ódio? Quem traça essa linha, você, o aprendiz de ditador? Quem é o fascista aqui, eu? Tem certeza? Qual dentre nós dois deseja impor a sua vontade à sociedade? Garanto que no meu mundo ideal, você é livre para expressar qualquer opinião que quiser, inclusive de me chamar de paulista babaca ou de xingar o Danilo Gentili de “proto-humorista e imbecil” (ainda que não apresente UM argumento), se quiser. No seu mundo ideal, eu não posso reclamar do meu vizinho nordestino que ouve arrocha a 100 decibeis todo fim de semana enquanto tento trabalhar, pois é “discurso de ódio” e mereço ser preso por isso.

    • gabrieldivan 04/05/2015 às 19:24 #

      (preguiça – ESPECIALMENTE quando a ‘pauta’ tem quase um ano…)

      PS: ter que EXPLICAR porque Danilo Gentilli é um idiota: hehe. Ok.

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