A la carte

20 fev

itau

Agora que, pelo visto, entender de política é ‘moda’, saber conversar sobre o que está acontecendo no país é trendy e o papo não está (como alguns pensavam) restrito à sociólogos, cineastas, gays, sindicalistas, maconheiros, “Sininho” e congêneres, é preciso cuidado: há quem esteja meio perdido em meio a esse mar revolto de informações ‘wiki‘ e um tanto apressado no já apressado método googlenautaexpress de aquisição de conhecimento.

Recentes protestos de rua (nada pacíficos) tomam as contas não só do Brasil – em uma espécie de repuxo do Junho passado e uma prévia nítida do Junho vindouro – e também de Venezuela, Kiev, Sochy (sede russa das “Olimpíadas de Inverno”) e as opiniões de muita gente pululam meio desorganizadas e pobres de coerência interna.

O que mais me chama atenção, desde ontem, é o curioso mundo contraditório em que vivem certas pessoas em relação à sua tolerância/ódio/glorificação/apoio em relação ao tom drástico e revoltoso de alguns desses protestos, que, sabemos, não possuem raiz semelhante, mas possuem aspectos idênticos. Uma profusão de pessoas vibra aqui e ali com cacetadas policiais, da mesma e inexplicável maneira com que dilata as pupilas em júbilo ‘black bloc‘ acolá e em várias dessas situações o tronco comum de raciocínio e de ímpeto ideológico vai para as cucuias.

Afinal, qual o seu (o meu, o nosso) ‘problema’ com manifestações, protestos, bloqueios, barricadas e mesmo alguns ditos ‘vandalismos’? Quando (ou, em que país ou sob o governo federal de quem) você acha esse tipo de coisa em um arco opinativo que vai do ‘legal’ ao ‘inaceitável’ passando pelo ‘não temos escolha’?

1) Se o seu problema é de ordem relativa ao (seu) conceito de ‘lutar contra tudo o que está errado’, parabéns: você aderiu a ‘La Revolución‘. Agora vá já para a praça, hasta la victoria, siempre e… (ué, não gostou?)

2) Se o seu problema é de ordem político-governamental, parabéns (também): você é dono de um conceito muito peculiar de ‘democracia‘ (sempre ela…), onde a paz deve ser mantida nos cenários em que seus correligionários estão no poder e deve ser desconstruída na porrada quando a situação é inversa…

3) Já se seu problema diz respeito ao combate frontal às ‘injustiças sociais’, bem vindo(a): estamos no Brasil e esse é historicamente um dos países mais injustos socialmente no universo, desde sempre. Sugiro então que você vá procurar a sua turma. E não reclame se ela estiver ali na esquina virando um contêiner (não esqueça o capuz preto).

4) Se, por fim, você acha que situações de poder ‘ditatorial‘ ou ambientes políticos ‘análogos’ aos ditatoriais legitimam a luta (armada, inclusive) saiba: eu concordo com você. Porém, pediria apenas um cuidado com esse termo e seu significado correlato (“Ditadura”). A ciência política dos googlenautas anda tropicando em relação a esse conceito, e eu já vi até gente chamando de ‘ditadura’ a sequência de três mandatos federais do PT (o que seria tão ridículo quanto dizer que há uma ‘ditadura’ do PSDB em São Paulo que dura 15 anos com hiato de um).

O conceito ‘wiki’ de ‘ditadura’ parece tão volátil quanto o de ‘fascismo’ que alguns creem ser uma espécie transparente de ‘xingamento’ que cabe contra qualquer um em qualquer ocasião – nunca havia visto como no último ano um número tão grande de usos desse termo por fomentadores clássicos (e dissimulados) do fascismo contra inimigos históricos do mesmo.

Em um mundo onde agentes governamentais baixam o sarrafo em manifestantes que protestam frente a eventos esportivos, sob a alegação de que aqueles, por estarem “perturbando a imagem externa do país” e os chamam, portanto, de ‘fascistas’, eu é que não sei de mais nada.

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