‘Alento’

20 dez

foot

Dentre as variadas historietas de uma Porto Alegre que os anos não trazem mais catalogadas e volta e meia compartilhadas por meu pai, várias dizem respeito ao mítico Oswaldo Rolla. O “Foguinho“, como era chamado o professor Rolla foi um dos (se não o) maiores atletas da história do Rio Grande do Sul e uma sumidade no quesito futebolístico, onde, diz uma de suas lendas, ele foi tudo, ‘menos bola‘: jogador, árbitro, bandeirinha, dirigente e treinador.

É de sua fase na casamata que vêm alguns de seus mais divertidos folclores. Dentre eles, uma tirada que meu pai sempre recorda, de quando o professor Rolla era técnico do Grêmio: na iminência de contratar um zagueiro, a direção do clube queria o criterioso aval do decano maestro. Apresentado pessoalmente ao candidato à vaga, Rolla conversa com o atleta por alguns instantes, e escuta dele que o cabeceio é o seu ponto forte. De pronto, Rolla propõe um rápido teste de aptidão que o atleta prontamente se dispõe.

Então o seu forte é o cabeceio? Vejamos…cabeceia, negrão!” – grita Rolla jogando uma bola rente ao chão. O atleta mergulha como um golfinho em direção ao asfalto e cabeceia a bola com o nariz rente ao solo em uma manobra plástica e improvável.

Está dispensado, meu filho”, diz Rolla, para um incrédulo atleta – “bola no chão não se cabeceia, se chuta“.

Edinho, ex-atleta com passagem vitoriosa pelo Internacional, volante à moda antiga, mais propriamente chamado de cabeça de área, ao ser contratado pelo Grêmio, essa semana, cumpriu a praxe de todo o novato que quer agradar protocolarmente os dirigentes e torcida do tricolor porto-alegrense nos últimos tempos e conforme a liturgia gremista usou termos como “suar sangue”, “lutar bravamente” e uma insólita declaração que, se assim for necessário, dará “carrinhos de cabeça”.

Alguém avise o Edinho, por favor, que, apesar de eu torcer muito pelo sucesso dele no meu time, nós precisamos, especialmente nesse momento de vacas magérrimas, de duas coisas: primeiramente, de alguém que jogue bem. Seja bom de bola, simples assim.

Chega dessa confusão tosca de ares falsamente espartanos entre a ideia de um atleta de habilidades (tidas por inúteis) e pouco comprometimento e um atleta cujo valor está no esforço e na ‘vontade’. Vontade, amigos, é item de série que deve vir com o salário que um atleta profissional ganha no Brasil. “Luta” é o mínimo que se espera de um profissional, aliás. O imaginário, a mitologia gremista dos últimos tempos é de uma inspiração louvável, porém caolha e caótica, em um passado recente onde atletas que marcaram a trajetória do clube são lembrados apenas por sua ‘raça’, esquecendo-se que seus triunfos são igual ou diretamente proporcionais à sua qualidade. De Leon, Baidek, Dinho, Goiano, Lucas Leiva e outros que são comumente referidos no álbum de retratos de estimação da torcida tinham a imposição física e o caráter de batalhadores intermináveis (e a ausência de medo de rasgar os meiões e sujar o calção) como marca. Mas jogavam. Sabiam o que fazer com a bola em um nível acima da média.

(A outra é a noção extraída da lição de quem conhece: bola, no chão, se chuta, brother).

Especialmente Dinho, um dos meus maiores ídolos, que injustamente é sempre lembrado por sua truculência intransigente com as canelas adversárias e sua bandidagem, mas que raramente é referido como um meio campista de chute potente e certeiro, visão de jogo soberba, habilidade no passe longo e experiência de posicionamento (vale lembrar que antes de ser multicampeão no Grêmio, Dinho igualmente o foi no refinado São Paulo de Telê Santana, bi-campeão da América e do Mundo).

Há muito tempo a torcida do Grêmio se contenta com esse tipo de farsa mitológica, aplaudindo jogadores ruins como se uma velhacaria aqui, um pontapé mau-caráter acolá fossem o máximo esperado de um jogador macho que ‘impõe respeito’ e atua no ‘espírito gaúcho’ (outra invenção antropológica de quinta categoria, se querem saber, mas isso é assunto para outra hora). Edinho pode ser uma improvável e deliciosa afirmação no meio de campo gremista, tanto quanto pode terminar sendo mais um tristonho capítulo dessa idolatria da mediocridade travestida de tons supostamente aguerridos, esse padrão de elogio da mediocridade sob a desculpa de se opor, injustificadamente, rudeza e seriedade à qualidade futebolística.

Pensei nisso quando vi a repercussão das manifestações absolutamente infelizes promovidas pela atual gestão do DCE da UFRGS – uma chapa que se diz, orgulhosamente, de “direita” e que supostamente é “apartidária” e que, estranhamente, se vangloria em sua principal plataforma, de afastar os ‘ideários’ do PT do PSOL e do PSTU do diretório acadêmico central – o nome da chapa, aliás, que utiliza a expressão ‘livre’ para simbolizar essa plataforma é adequado a um país onde o novo PFL se chama “Democratas”.

Uma manifestação de natal bastante inadequada para uma comunicação de um órgão representativo oficial traz garotas seminuas vestidas de “mamãe noel”. Membros da gestão se manifestam continuamente nas redes sociais em odes contra “os comunistas” (Feliz 1954 para você também), e aderindo a discursos rasos, imbecis e inaceitáveis em “apoio” à eventos relacionados à ditadura militar e a cantilenas reacionaristas de baixa estirpe.

Não sei como chegamos a esse ponto, mas suspeito que o “fascismo fascinante que deixa gente ignorante fascinada” (como diz uma canção do meu tempo – período mezozóico) está em um momento de glória: pessoas descontentes com discursos históricos de esquerda (alguns, pré-históricos, admitamos…) estão como que prontas para aderir a qualquer orelhada ridícula de qualquer sub-teórico conservador que faz do ataque ao governismo petista e suas derivações uma profissão cega de fé que ousa debochar da inteligência dos interlocutores se auto-proclamando “livre” ou “sem partido”.

Adoraria – repito, repito, repito e repito – ver um desenvolvimento nacional de uma autêntica direita que (1) se assuma enquanto tal e (2) assuma uma pauta que não blasfeme contra a paciência de qualquer cristo que conheça alguma coisa sobre as agendas políticas.

Enquanto a “direita” se confundir com um militarismo revanchista, um elitismo patético, e um patrimonialismo asqueroso, meu posicionamento político segue tolhido e sem opção: virar sempre para a mão que a maioria das pessoas usa o relógio é mais do que uma escolha ideológica. É uma medida para que eu possa dormir em paz.

Ser “contra” a esquerda, o governo Dilma, os partidos de índole precipuamente socialista não precisa necessariamente significar abraçar a latrina política brasileira e seu pacote de preconceitos e seu livro de receitas burro e tacanha. Assim como ter ‘hombridade’ no futebol não se resume apenas a dar um bico na canela do atacante adversário e cuspir na cara do árbitro. A quantidade de bobos alegres é impressionante. Mas compreensível: ler Olavo de Carvalho e mirar a trava da chuteira no meio da tíbia do oponente é mais fácil do que pensar de verdade ou bater uma falta no ângulo. E sabendo disfarçar bem, você passa por batalhador. E por alguém que tem conteúdo. Pelo menos nos dezesseis minutos iniciais dá para enganar, eu garanto.

“Cabeceia, negrão“.

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2 Respostas to “‘Alento’”

  1. Linda Lúcia 20/12/2013 às 18:24 #

    Muito bom texto. Parabéns

  2. José Mourinho 06/01/2014 às 16:24 #

    Baidekão sabia o que fazer com a bola em um nível acima da média? hmm…
    o PFL é Democratas e o PDS é Progressista.
    brab’iss’daí.

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