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11 dez

bope2

MONTEVIDÉU – Com 16 votos favoráveis e 13 contrários, o Senado uruguaio aprovou na terça-feira, 10, o projeto de lei que torna o país a primeira nação do mundo a legalizar o cultivo e a distribuição de maconha em seu território por meio do Estado, além de regulamentar o consumo da droga, descriminar a posse, a venda e a produção da erva. Qualificada pelo presidente José Mujica como um “experimento”, a nova legislação tem o objetivo de combater o narcotráfico e foi discutida por quase 12 horas na Câmara Alta (chamada do Estado de São Paulo)

 

O Brasil é um país engraçado: para além do adágio atribuído a Tim Maia (sobre a terra onde prostituta goza, traficante se vicia e pobre é de direita), nós temos um acréscimo do Século XXI à premissa. Aqui, pessoas se empolgam com a truculência do Capitão Nascimento das telas, sem dar bola, muitas vezes, para a parte do filme em que ele atribui (não sem alguma parcela de razão) a “causa de tudo isso” (as mortes na favela, os tiros que ele mesmo disparou) ao sujeito que “fuma um” no conforto do lar.

Na certeza absoluta de que muitos maconheiros, cocainômanos, bêbados de final de semana, anfetamínicos, fritos, neo-hippies de boutique e muitos outros assistiram o filme e sorriram e aplaudiram oligofrenicamente as cenas de violência por parte desse capitão que tatuou uma caveira no imaginário nacional, eu digo: hoje é um dia muito ruim para ser hipócrita.

Em uma experiência corajosa, sensacional, arriscada e em cuja chance de gerar uma infinidade de problemas não residiu a covardia em não colocá-la em prática, o Uruguai (176,215 km²  de área, 3.318,535 pessoas de população estimada, chivitos, La Pataya, entrecot, duas copas do mundo) ontem, legalizou a produção, comércio e o uso de maconha. A proposta é de longe mais arrojada que a de países “símbolo” em políticas alternativas de entorpecentes (como a Holanda, caso mais emblemático): em termos de maconha, no Uruguai, estará praticamente tudo liberado a partir de agora.

Dois raciocínios/cálculos são simples: o primeiro diz respeito à potencialidade monstruosa de lucro estatal com essa regulação (o que não vai – seria ingênuo pensar – ‘acabar’ com o tráfico, mas vai certamente abalá-lo – como já o abala, por exemplo, a existência de lojas especializadas em maconha para venda a pessoas com disponibilidade médica, na Califórnia).

O segundo é político-criminal: é muita gente presa, espancada, detida, fichada e, lamentavelmente, morta, em virtude de pequenos comércios de quantidades chinfrins de droga – em detrimento da triste inatingibilidade de uma meia dúzia de figurões que deveriam gerar verdadeira preocupação. Mais: é incrível que a hipocrisia impere em grau maior em relação aos próprios usuários: a seletividade do sistema não nos deixa mentir. Em festa de bacana com sintéticos e pó caindo pelas tabelas (ou dos helicópteros dos deputados) o Bope nunca entrará cantando músicas sobre ‘corpos no chão’, dando bifa na cara, metendo vassoura no cu nem apontando fuzil para ninguém.

É muita cara de pau achar que muito da “guerras as drogas” não pode simplesmente ser traduzido por “guerra a algumas pessoas e algumas camadas sociais específicas”.  Importante destacar que: “liberar” a maconha não significa “estimular” seu uso nem “fingir” que ela não é uma droga e faz mal (sim). Significa buscar uma alternativa (que, lógico, pode dar ERRADO) alternativa para trabalhar com esse problema.

No mais, a opinião do meu amigo Maurício Mayora (aqui) diz tanto que a partir de agora me calo e rodo ele no playback:

O Uruguai legalizou a maconha. Mais do que isso, a partir de agora o estado vai regular sua produção e distribuição. O motivo da comemoração não pode se limitar a preocupações mesquinhas do tipo “agora vou fumar o meu sossegado.” O grande avanço da legalização diz respeito a uma idéia de uma sociedade mais justa. O tráfico de drogas é o grande legitimador da violência policial contra os de baixo. Comunidades inteiras sofrem com a repressão, afinal de contas em “local conhecido como ponto de vendas de drogas” todos são suspeitos. E é a partir dessa lógica que nasce no imaginário da sociedade que algumas vidas valem menos do que outras. O Brasil vibrou com a cena de jovens pobres e descalços fugindo do morro do alemão. O capitão Nascimento virou ídolo nacional torturando nas favelas. Enquanto isso no helicóptero do Perella filho Junior Neto é encontrada meia tonelada de cocaína e nada é feito. Isso deixa claro que a guerra as drogas tem uma lógica bem definida que é de controlar a população pobre.


Acho uma pena que o debate pouco avance no Brasil. Não vejo hora mais oportuna para um governo que se diz popular colocar na pauta uma ação que poderia melhorar a vida de muitas pessoas. No ano que a periferia parece não aceitar mais calada a perda de seus amigos, vizinhos, parentes para essa lógica cruel. Bueno, vou acender um em comemoração com a certeza que não serei morto ou preso por isso, pois sou branco, de classe média e morador do centro da cidade.

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