O DIA EM QUE A TERRA PAROU

18 jul

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El Estado de Derecho implico siempre la possibilidád de una oposición al poder, fundada en derecho, oposición ilustrada por las reconvenciones al rey o por la negativa a pagar el impuesto en circunstancias injustificables, y hasta por el recurso a la inssurección contra un gobierno ilegítimo. Pero el Estado democrático excede los límites tradicionalmente asignados al Estado de derecho. Sufre el ejercicio de derechos que todavía no tiene incorporados, y es el teatro de una opugnación cuyo objecto no se reduce a la conservación de un pacto tácitamente establecido sino que surge de ciertos focos que el poder no puede controlar por completo

(LEFORT, Claude. La invención democrática. Trad. Irene Agoff. Buenos Aires: Nueva Visión, 1990, p.25)

“Alguém poderia ajudar o pessoal a lavar os pratos? O pessoal ali da cozinha está pedindo. Aí, valeu”, e o brado no microfone interrompe “Pecado Capital” do Paulinho da Viola que logo após segue ecoando e coordenando o bater de pés geral e remelexo de cinturas mais ousadas do recinto.

Surpreendentemente – ao menos para a média da racionalidade (pós-moderna) de apartamento – um grupo apavorantemente grande de pessoas se prontificou a atender o chamado e se dirigiu imediatamente à copa improvisada para a lida.

A cena poderia ocorrer em uma gama absolutamente inusitada de lugares, mas nem o mais animado surrealista diria que ela foi presenciada pelos meus olhos que a terra há de comer na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.

Desde o último dia 10 de Julho a Câmara foi deliberadamente ocupada por um sem-número de manifestantes, sendo muitos deles (nem todos) ligados ao Bloco de Lutas pelo Transporte Público, que pleiteia a estatização e consequente redução (ou extinção) do preço das passagens de ônibus na capital gaúcha e contígua região metropolitana. Junto a esse, uma série de pleitos que configurariam o mínimo dos mínimos em um ambiente político verdadeiramente escorreito e democrático (desde transparência nas contas públicas até uma – óbvia, ao menos para qualquer criança, como muitas que brincavam no tapete do recinto – participação maior da população em algumas decisões da respectiva casa que ‘os representa’, ao menos em tese).

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A ‘ocupação’ em si irrita alguns, melindra outros, enfurece uns muitos, ofende outros tantos e perturba algum cardume também robusto. E por quê? Inegável, impossível não perceber que o resmungo tem pouco de ‘voz‘ e muito de susto: aquele bando de gente sentado trabalhando (sim, trabalhando: em se tratando especialmente de agentes independentes de agências de mídias igualmente independentes) nas bancadas onde o povo brasileiro se acostumou a ver apenas raras (e louváveis) exceções trabalhando, efetivamente, aquele monte de cabeças circulando pelo local usualmente preso por formalidades (in)justificáveis, aquele pessoal todo nas galerias e cadeiras, de um modo que nem na mais concorrida sessão plenária acontece, tudo aquilo é bizarro.

As câmaras legislativas brasileiras (em todos os níveis – municipal, estadual e federal) são chamadas de um jeito melado e pomposo de “casa do povo” sem efetivamente o ser. Ontem, foi, e eu senti isso de um modo incomum como apenas o que é mais puro e verdadeiro provoca. Nada de perguntas nem crachás na entrada (alguns tomavam chimarrão e conversavam sobre a vida que segue frente a uma cancela magicamente aberta). Nada de fiscalização nem horários de acesso na escadaria principal (o comércio de quentão alegrava e aquecia quem se escorava nas muretas). Nada de registros ou entraves burocráticos típicos. A Câmara toda era, ironicamente, do povo, pelo povo e para o povo: e o povo estava lá, com cartazes coloridos preenchendo as paredes viáveis (e algumas inviáveis como aquele que apregoava “meu cu é laico” ao lado de um questionável crucifixo sobre o saguão – muito, muito alto. Spiderman manifestante? Bem, sempre foi um super-herói às voltas com abusos empregatícios e o atraso no aluguel…). Lá estava o povo enviando, trocando experiências e filmando tudo para exibição ao vivo para todo Brasil e todo planeta (wi-fi liberado). Lá estava o povo sambando, cantando, brincando, bebendo. Lá estava o povo sendo comunicado de minuto em minuto sobre a audiência judicial que definia o futuro de toda aquela experiência e, especialmente, das agendas que ali eram propagadas e defendidas.

A experiência marcante da democracia real assusta. Nunca, jamais eu estive tão próximo de estar dentro de uma ‘zona autônoma temporária’ nos moldes de Hakim Bey. Nunca aliás, e isso deve ser registrado, passado e assinado: nunca estive a me sentir tão bem dentro de um prédio público. O mel genuíno do comunitarismo brotava dos rostos, vozes e sorrisos e eu, boquiaberto, mal pude perceber que um amigo anônimo – cuja “solicitação de amizade” real eu “aceitei” no ato – bem me viu sentando em uma das cadeiras e veio me esticar uma cuia de madeira de um mate amargo charrua (seu nome era Roberto).

A experiência de estar dentro de uma casa política pública pela primeira vez deixou escapar pelos poros ares democráticos e verdadeiramente livres, para além e longe dos espaços e roteiros sufocantes kafkianos do dia a dia, como n’O Castelo em que nada se decide, nada se consegue, nada se resolve e ninguém se encontra.

Ocupação? Sim. “Baderna”? Não (longe demais disso, aliás: poucas vezes vi um grande grupo horizontal como esse tão preocupado em manter tudo ordeiro no local que visitava). Para aqueles apavorados com a ‘tomada’ de um âmbito legislativo, é bom lembrar que alguns (muitos, felizmente) tiveram a coragem de enfim se desassossegar da legítima, porém confortável, posição de justificar a não tomada de medidas com a própria ineficácia de ‘tomada de medidas’ diante de um ‘sistema’ tão bizarro e deslegitimado. A casa é do povo? Pois foi, enfim, cumprida a profecia. Um grupo de pessoas que ali foram colocadas para exercer representatividade há muito (e em lamentável maioria) está a exercer qualquer coisa que não sua investidura legítima. Surpresa: o patrão deu uma incerta na repartição e resolveu conferir quem, o que e como. Mais: resolveu se instalar ali.

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A democracia para além dos filtros tecnocráticos que nos acostumaram a crer obrigatórios assusta. Assusta de um modo selvagem, carnal, sanguíneo. Assusta por ser direta demais, franca demais, real demais. Assusta porque não parece ter limites (e nada mais apavora os conformistas do que a descoberta da condição de conformidade aprisionada por si mesma).

Em um país democrático, jamais qualquer autoridade pública no âmbito da política representativa deveria ter qualquer tipo de ‘medo’ de manifestações populares análogas, nem deveria ter moral ou a boa e velha cara de pau para tolher as possibilidades de algo assim. Se o povo não se sentisse tão deslegitimado pelas ações de um corpo legislativo fisiologista e inerte, e se não se sentisse tão vilipendiado por quem deveria estar ali representando seus interesses, esse era um tipo de coisa que não se veria.

Como um amigo foi feliz em notar: ontem, na Câmara, no clima de paz, amor, união, e de proposição política ali realizada ao vivo (e a cores – muitas delas, mais do que o habitual), foram certamente promovidos e propagados um número infinitamente inferior de impropérios, pequenos ódios, grandes recalques e exemplos de má-educação do que estamos lamentavelmente acostumados a ver em sessões legislativas “verdadeiras” país a fora.

A Câmara está ali, onde sempre esteve, ao fim e ao cabo. Sim, podemos – guardado um bom número de proporções, regras, impeditivos e proibições – podemos, sim, nós, votantes ‘normais’ acompanhar uma sessão ‘normal’ composta pelos integrantes ‘normais’, quando ‘bem’ (bem…) entendermos. Mas isso, felizmente, jamais será a mesma coisa.

E aqueles que defendem as sombras democráticas na caverna obscura, terão que se acostumar cada vez mais com um povo sedento pelo gostinho da imagem impressionante da democracia verdadeira (que é capaz de cegar os incautos – e os medrosos). Que isso seja o maior, melhor e mais delicioso legado disso tudo.

“Olha, todo mundo está aqui, cantando, e eu me senti encorajada a cantar também. Eu sou integrante de um movimento…o movimento LGBT”, diz uma menina negra com volumosos cabelos crespos. E pegou o microfone. E acompanhada por um bando divertido de (in)experientes músicos cantou mais um samba no rol dos que vinham sendo interpretados com garra pelo pessoal.

Na saída, em meio a um número impressionante de bicicletas ‘estacionadas’ em frente à Câmara e a um menino que usava a rampa de acesso como uma invejável pista de skate, fiquei como bobo pensando em porque diabos não é sempre assim. Como odiar uma política onde você entra e sai de uma casa legislativa em que não te perguntam nada (além de se você quer mais uma cuia de mate), te escutam, e efetivamente os presentes que se adonam os microfones não te irritam porque te representam, como nunca ninguém representou?

4 Respostas to “O DIA EM QUE A TERRA PAROU”

  1. bruna 19/09/2013 às 22:55 #

    Oi Gabriel! De tempos em tempos leio teu blog e nunca comento. Mas hoje eu preciso te parabenizar. Post perfeito! Bem escrito, engraçado, cheio de referências finas e com caldo, hehe. É uma bela perspectiva para se lançar, lá pelas tantas, quando o tio reaça tá puto da vida com os “comunistinhas vagabundos” – não que vá iluminar a cabeça do dinossauro, claro, mas pra dar uma risada e ouvir uma frase total sem noção de como “era boa a ditadura” hahahahaha (eu sei, adoro me sentir superior quando pessoas mais velhas conseguem ser mais ignorantes que eu, a ingênua, haha).
    Ah, eu já estive dentro de uma ZAT, e é incrível mesmo. Democracia direta é melhor que lsd hahahahaha.
    É isso aí, continue! Abraço.

  2. Renato Guedes 05/12/2013 às 4:17 #

    Loucura! “Power to the people”!

Trackbacks/Pingbacks

  1. REFUSE/RESIST | /gabrieldivan - 06/05/2014

    […] em uma das noites da ‘ocupação‘ da Câmara de Vereadores de Porto Alegre (narrei AQUI como foi o incrível episódio) e noto um interessante paralelo entre aquele evento e a situação […]

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