De transtornos e trincheiras

18 jan
LemeLeme (6)

Sobre ‘cidades’ e prioridades

De todos os transtornos psíquicos (empírica e cotidianamente verificados – uma vez que não sou analista), aquele que mais me irrita, entristece e desespera é o das pessoas que compulsivamente distorcem e confundem fins e meios.

Você deve conhecer algum(a) infeliz que acredita, por exemplo, que uma cama recém arrumada “não é lugar” para se deitar, por mais que a ocasião peça e que aquilo seja, ora, vejam, uma cama. O mesmo vale para o sofá da sala, como se a função de uma sala de estar e de um sofá em frente à TV fosse mais a de ser ‘fotografável’ ou fosse um saco de pancadas de descarrego compulsivo por organização do que uma peça da casa a servir de aconchego.

Enfim, os exemplos são múltiplos. É bizarro que algumas pessoas parecem conferir às coisas um valor sentimental que tem algo de patologia estética e outro quê de militarismo metódico.

Pensava nisso ontem durante a bonita manifestação promovida pelo pessoal da Shoot The Shit na Rua Anita Garibaldi, em Porto Alegre: para quem não sabe, ontem foi organizado um misto de manifestação cultural, protesto, debate e uma (divertidíssima) sessão de ‘Socialnema‘ (cinema ao ar livre) na parte fechada da Anita em função das obras da dita “trincheira” que vai ajustar uma passagem pelo subsolo da via no cruzamento com a Avenida Carlos Gomes com o fim de supostamente desafogar o gargalo do trânsito naquele ponto (saiba mais sobre isso AQUI).

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Início da noite, pessoal chegando e ‘se abancando’

Sinceramente não posso palpitar tanto em engenharia de trânsito a ponto de afirmar com categoria se a obra trará mais benefícios para o fluxo naquele setor problemático do trânsito na capital ou se é um verdadeiro ‘chover no molhado’ com consequências mais ruins do que boas, como alguns preveem.

O que eu sei são duas coisas:

1) Essa história de obras e projetos públicos para a melhoria do espaço urbano ocorre quase sempre (o quase, ali, foi uma mera cortesia do texto…) sem qualquer tipo de consulta popular, ou com consultas frias que visam mais é referendar rapidamente algum projeto já pré-aprovado do que efetivamente consultar alguém. “Mas vai ficar ‘melhor’ para os moradores do bairro!” – Ei: alguém pensou em, tipo, perguntar seriamente aos moradores do bairro e demais cidadãos se eles preferem uma via mais pedestre e arborizada (e eventualmente engarrafada) ou a trincheira? Diante das inúmeras manifestações contra a descaracterização daquele trecho da rua, do transtorno e da barulheira ocasionadas, da possível transferência do mesmo engarrafamento para algumas quadras adiante (e o problema jogado para baixo do tapete), ninguém poderia pensar em, de repente, fazer dessa obra algo mais discutido amplamente? O que é MELHORAR nesse contexto, qual a função que os habitantes do bairro e de toda cidade veem naquele e para a quele trecho da Anita e qual o montante da (eventual) “vitória” da necessidade da obra versus a Anita que todos querem (ou que muitos e interessados querem)?

2) Assim como ao participar da Massa Crítica, a possibilidade de uso despudorado do espaço público e o tráfego (de bicicleta, à pé, enfim – não motorizado e apressado) de uma via aberta da cidade e a TOTAL alteração de perspectiva e o ineditismo daquele ponto de vista que é trazido provocam em mim uma sensação de delírio semelhante à drogadição. Recomendo a experiência de usar a cidade ‘filosoficamente’ em doses cavalares. Sem contra-indicação. Mais do que se sentar com um bando de gente no meio de uma rua trancada, a experiência de ontem, tanto pela colagem de documentários sobre mobilidade urbana exibida quanto pela comunhão de todos ali foi algo mágico.

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O fato é que em diversos segmentos – e em especial em questões ambientais e/ou culturais (como os desmatamentos, desvios de leitos de rio e desalojamentos, melhor dizendo: ‘expulsões’, de populações indígenas em nome de obras referentes ao “progresso” – uma coisa, assim, século XIX) já está ficando claro que ninguém mais compra tão fácil essa história de “progresso” sem discutir efetivamente a qualidade desse “progresso” e suas circunstâncias e alternativas.

Um momento certamente sublime foi a distribuição de tocos de giz para que todos os participantes deixassem mensagens ao longo da pista da parte ‘interditada’ na rua. A Anita acordou ‘infantilmente’ alegre hoje, aposto. Sabe-se lá se vai ainda acordar assim algum dia. Deixei meu recado, ainda que simplório, por precaução:

LemeLeme (7)

“+ AMOR, OK? OK!”

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6 Respostas to “De transtornos e trincheiras”

  1. Desirê 18/01/2013 às 12:10 #

    São tantas as regras de quem deve ou pode e como ocupar cada lugar, que vivemos delimitando espaços, não que isso não seja necessário, organizar também é preciso. Mas é feito de tal forma de entramos no piloto automático que nos foi imposto e acabamos esquecendo à quem realmente pertence a cidade, ela é nossa, ela é de pessoas. Entendo quando tu fala da sensação que essa “alteração de perspectiva” trouxe, isso foi muito incrível! É inspirador ver gente querendo, buscando e fazendo o bem :D

    • Diego 18/01/2013 às 12:44 #

      Aposto minha bicicleta que,se a polícia tivesse aparecido pra descer o cacete na galera que estava “vandalizando” o asfalto, haveria milhares de pessoas comentando coisas do tipo:
      “Lei é lei, tem que ser obedecida!”
      “Agora vagabundo vem sujar o chão e quando apanha vem pagar de vítima?”
      Ou pior ainda:
      “Os dois lados estavam errados, o que não se pode é ser extremista”>

      Todos esses comentários são feitos em relação à Massa Crítica e ao episódio do Tatu da Coca-cola.

      • gabrieldivan 18/01/2013 às 17:05 #

        Pois é Diego. Concordo: essa falsa impressão de ‘ponderação’ dos ‘conciliadores patológicos’ de plantão nos tentam impedir de tomar partido(s).

    • gabrieldivan 18/01/2013 às 17:03 #

      Desirê: essa ‘sensação’ teve início nas primeiras vezes que eu participei da Massa Crítica e dura até hoje – a ideia de ‘sentir’ a cidade de um jeito e de um local diferentes (destinados, ex: exclusivamente aos carros e à pressa, como o Tunel da Conceição). É uma mudança radical em relação a um espaço que está ali, desde sempre!

  2. Gralha 19/01/2013 às 17:58 #

    Se os governos investissem o dinheiro aplicado em obras viárias mais os valores renunciados fiscalmente com as isenções de IPI em TRANSPORTE PÚBLICO, cavar trincheiras e construir free-ways cruzando a cidade seriam completamente desnecessárias.

Trackbacks/Pingbacks

  1. PAUTAS, PARA QUE TE QUERO | /gabrieldivan - 09/10/2014

    […] Essa luta é de todos. Esse debate tem que ser de todos. E, se for o caso, o abandono dessa ideia (uma lástima) deveria ser de todos, mas não antes de ser discutido com consciência e mente aberta. Já cansei até de escrever sobre isso. Um exemplo está, para quem quiser ver —> aqui. […]

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