Louco é quem me diz. E não é feliz.

15 set

Um apavorante e não suficientemente explicado atraso no ônibus que me traria de Passo Fundo para Porto Alegre, por motivos supostamente  mecânicos,  impediu que eu chegasse na manhã desse sábado na capital, na hora habitual. Impediu, pois, que eu realizasse uma série de pequenos compromissos que tinha planejados (nada muito grave, por sorte), mas impediu (isso sim, lamentável) que eu participasse de uma das mais bonitas e originais homenagens que um clube de futebol já recebeu: no derradeiro ano de uso do Estádio Olímpico, hoje, na data de aniversário do Grêmio, a sede da mais incrível parcela da história do time recebeu um ‘abraço simbólico’ de uma multidão de torcedores.

Isso me fez lembrar o (tenho certeza de que muitos vão estranhar)  um dos anos futebolísticos mais importantes da caminhada gremista – ao menos para mim: dois mil e sete. Não, você não leu errado: dois mil e sete do nosso senhor, um ano em que o Grêmio culminou uma inacreditável campanha na Libertadores com uma legítima FUMADA orquestrada por Roman Riquelme e minguou ao fim do ano com apenas um Gauchão na conta.

Algo porém, ocorreu no meu peito naquele ano incomum: por mais que os títulos grandes não tenham vindo, era paradoxal (à época) o sentimento por mim vivenciado. Era febril, confortably numb: eu estava feliz com o time se doando em campo, com o que a torcida de forma épica fazia a cada partida, com o futebol “eletrocardiograma” apresentado, com o clima do estádio. Feliz. E isso era tão independente das grandes conquistas e títulos que chegava a ser misterioso.

Dizemos do Brasil que é o ‘país do futebol’: discordo. Perdemos ao longo do último século uma alegria marota – cadência do samba – e uma irreverência no quesito ‘torcida’. O brasileiro torcedor de futebol médio se transformou num baba ovo de estatísticas internéticas que faz driblezinhos com o Dí Maria e o Rooney no videogame usando camisa do Messi. Nessa toada, acho que era bom dar uma espiada por cima do prata para nossos vizinhos uruguaios e argentinos, ou – para os admiradores xiitas do velho mundo – ingleses, para aprender um pouco sobre o que significa torcer e, bem, amar um time.

Não importando a boa ou má fase, as conquistas recentes ou passadas, o atual elenco, os verdadeiros apaixonados torcem. Sofrem, bem verdade, mas igualmente se divertem e fazem de algo como o futebol algo relativo e próprio para cumprir sua verdadeira função.

No dia em que o país vier (ou voltar) a ser o país do futebol, trocaremos brigas estúpidas e provocações infantilóides por uma gozação irreverente, camarada, verdadeiramente malandra. E abandonaremos enfim esse racionalismo burocrata que promoveu uma EA-SPORTSização do nosso passatempo favorito. Estaremos então (ou novamente) prontos para amar nosso clube. E quem ama, bem verdade, não quer se ferir, mas, igualmente, não pensa muito nisso.

Quando me senti ultrajado e apunhalado pela Unesul por não ter ido ao Olímpico num sábado abafado para me amontoar com milhares de outros doentes mentais não para ver uma partida de futebol, mas sim para promover um ‘abraço’ em um prédio, percebo mais uma vez como o amor verdadeiro pode ser inebriante.

Parabéns, Grêmio. E obrigado por cada dia, por cada troféu, por cada Gre-Nal vencido, e perdido; por cada impedimento roubado da gente e por cada vitória magra. Por emoções que vão do Japão a Recife. Do Hamburgo ao Asa de Arapiraca. Obrigado por ajudar – com irracionalismo e despretensão – à vida ter mais sentido.

2 Respostas to “Louco é quem me diz. E não é feliz.”

  1. Rodrigo Raber 18/09/2012 às 17:32 #

    Porra professor, texto foda viu!!!

  2. marcelo mayora 19/09/2012 às 10:00 #

    dale grêmio querido!!!

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