CHOREI SANGUE

18 mar

PUTA QUE O PARIU. Que troço lindo.

A campanha do Irã nas eliminatórias da Copa do Mundo de 1998 resultou numa única partida decisiva contra a Austrália, em Melbourne. Na maior parte do jogo, os iranianos chutavam a bola como se seu governo tivesse mandado que perdessem para evitar que as comemorações em Teerã pudessem escapar perigosamente do controle.

Mas, nos últimos 15 minutos das eliminatórias – frenéticos, desesperados – os iranianos afastaram a letargia e marcaram dois gols surpreendentes e salvadores. O Irã iria à Copa do Mundo pela primeira vez desde que, 18 anos antes, o 747 de Khomeini levara o aiatolá exilado de volta a Teerã.

(…)

Uma delicada operação destinada a serenar os ânimos estava agora em curso. O governo pediu que o time prolongasse sua viagem de volta da Austrália, fazendo uma escala de lazer em Dubai, a fim de ganhar tempo para que a situação em Teerã esfriasse. Mensagens transmitidas pelo rádio advertiam os cidadãos contra as comemorações seculares que desagradariam Alá. Outras mensagens se dirigiam especificamente às mulheres do país, “nossas queridas irmãs”, exortando-as a permanecerem em casa durante os festejos de boas vindas à equipe.

Quando o time por fim regressou, três dias depois, o governo realizou a comemoração em Azadi. Os heróis chegaram ao estádio de helicóptero, como se o evento tivesse sido planejado por Silvio Berlusconi.

Mas o verdadeiro espetáculo não foi dentro do estádio.

Milhares de mulheres desafiaram os apelos do governo e se reuniram do outro lado dos portões de Azadi, sob um frio de três graus negativos.

Como relatou o antropólogo Christian Bromberger, quando a polícia se recusou a permitir que essas mulheres entrassem no estádio, elas começaram a gritar “Não somos parte dessa nação? Também queremos comemorar. Não somos formigas!”.

Com medo da turba, a polícia deixou que três mil mulheres ocupassem assentos especiais, isolados do resto do estádio. Mas o que fazer com as aproximadamente duas mil, do outro lado das roletas, que não tinham conseguido entrar no Azadi? O fato de as “queridas irmãs” terem entrado não foi suficiente para acalmá-las.

Determinadas a também participar da comemoração, elas romperam a barreira policial e forçaram caminho para dentro do estádio. Querendo evitar um grande tumulto que poderia canalizar as emoções cruas do momento numa direção perigosa, a polícia não tinha alternativa senão fazer vistas grossas à invasão e considerar-se derrotada.

Quando, no futuro, os historiadores escreverem sobre a transformação no Oriente Médio, provavelmente se expressarão com lirismo sobre esse momento, que já se tornou conhecido como “a revolução do futebol”. Tal como a Festa do Chá de Boston, ele será visto como o momento em que o povo percebeu pela primeira vez que podia confrontar os tiranos que o governavam.

 

Trechos transcritos das páginas 190-192 desse incrível livrinho: “Como o futebol explica o mundo. Um olhar inesperado sobre a Globalização”, de Franklin Foer, editado no Brasil pela Jorge Zahar -> confira AQUI

 

A dica foi do honorável e grande amigo Professor Cóser, a quem sou – constantemente – grato, por inúmeras coisas.

7 Respostas to “CHOREI SANGUE”

  1. Clarissa 18/03/2011 às 18:38 #

    …fiquei com muita vontade de ler. eu, que não me interesso pela palavra ‘futebol’. só por esse trecho: surpreendeu e conquistou. quero!

    (p.s.: aceito doações / empréstimos =P)

  2. moysespintoneto 19/03/2011 às 9:58 #

    Nada como a coragem de enfrentar pela afirmação ética a violência do poder, que nesse caso aparece em toda sua arbitrariedade.

  3. José Mourinho 21/03/2011 às 16:16 #

    Mazzzáá Saquei Velho!!
    bela dica!!
    e bela foto.

  4. cóser 21/03/2011 às 17:11 #

    esse livro é demais mesmo… o capítulo da ioguslávia é muito bom, e o do barça torna impossível não simpatizar ainda mais pelo time…

  5. gabrieldivan 21/03/2011 às 17:40 #

    O livro tem uma serie de passagens impagaveis (e emocionantes, como a acima transcrita).

    Mas, acho, realmente, que se eu quisesse ler apenas UM capitulo, a escolha seria entre o da antiga Iuguslavia (e de como os ‘ultras’ tiveram papel fundamental nas guerras separatistas) e o do Barcelona/Stoichkov (sobre o ‘nacionalismo’ da Catalunha)

  6. natalia. 22/03/2011 às 23:19 #

    Adorei teus comentários sobre o livro e já providenciei a compra. Fico muito curiosa por essa parte da Iugoslávia :)
    Grande dica do professor Cóser!

  7. moysespintoneto 23/03/2011 às 0:53 #

    tem um tigre andando na sala

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