Flecha do tempo/alvo da memória

9 mar

VERSA uma conhecida lenda urbana porteña que desde sua morte, Carlos Gardel canta cada vez melhor.

Tempo, mano velho. Essa eterna incorporadora que ergue e derruba coisas.

Os mitos durante muito tempo tiveram o tempo em seu exclusivo favor. Vento em POPA. O tempo fazia o mito. O mito era maior e mais apreciado a cada vez que a memória se inebriava com o licor dos dias que passam.

Daí vêm essas malditas tecnologias que MEIO QUE eternizam a memória e o mito passou a ter que suar mais. Tempos difíceis para quem vivia uma vida de marajá.

Assisti ontem a Barcelona 3 x 1 Arsenal na ESPN. O futebol praticado pela esquadra catalã praticamente empata com aquilo que todo admirador desse esporte idealiza como a perfeição em campo: os toques curtos sorrateiros dos jogadores do time espanhol fazem deles bailarinos, TRAPEZISTAS que estão no lugar certo e no momento exato para receber o passe na linha tênue que separa o espetáculo da tragédia – embora façam isso quase sem se olhar e com uma expressão facial que denota desdém, típica dos GRANDES quando querem fazer pensar que nem precisam treinar para o serem.

O trio formado por Xavi, Iniesta e Messi – a estrela maior da Companhia – promove brincadeiras tão precisas e é dono de uma seriedade tão festiva que a gente nem sabe mais o que é o que. UM que ROLA para o outro que ESTICA para o um que olha para LÁ e LARGA a bola para cá onde não tem ninguém e…TEM. No jogo do Barcelona eu, você e o adversário sempre achamos que não tem ninguém. Sempre tem alguém. É um tal de Daniel Alves entrando correndo no vácuo da ponta, um Villa se apresentando no meio dos zagueiros como um leopardo, um Abidal que chega de longe e enfia a bicanca. Se o brasileiro Adriano fosse melhorzin’ e resolvesse tipo CHUTAR visando o gol ao invés de PIPOCAR visivelmente nas DUAS ou SEIS vezes que recebeu a bola de presente, cabia mais uns dois gols na META do pobre goleiro inglês que bem que ajudou bastante a evitar que a derrota ganhasse ares de massacre.

Saí da frente da TV meio abalado: como seria o Botafogo de Nilton Santos e (óbvio) a instituição do inconsciente coletivo futebolístico brasileiro, o “Santos de Pelé”? Jogavam tal e qual isso que eu acabara de ver?

Para desespero da mitologia, levando-se em conta nível técnico, preparo físico e condições de aperfeiçoamento humano (maiores hoje que em 1968, certamente), TUDO impõe a crer que o Barcelona que andamos vendo ultimamente esteja credenciado a ser tido como (por que não?) a equipe que joga o melhor futebol da história.

Diabos: a memória dos caciques da tribo não falha. Não falha? TANTOS FILÓSOFOS, tal e qual o BIGODE já provaram que esquecer não é uma potência má da natureza e sim algo que POSSIBILITA a vida; NEUROLOGISTAS já comprovaram que a (in)capacidade humana para memorizar tudo o que vê-ouve-cheira-sente é inclusive uma impossibilidade plástica do cérebro. E inúmeros POETAS de bar na MADRUGADA nos contam que o tempo funciona nas lendas como muito mais que um tempero.

Cresci com meu pai me ensinando que fora aqueles dois que você já sabe quem são (um argentino nanico e um negão dos nossos), os melhores jogadores de todos os tempos foram o húngaro Puskas, o holandês Cruyff, o espanhol Gento e o argentino/espanhol Di Stefano.

Temos alguns registros em vídeo de Puskas metendo uma que outra bucha (era meio gordinho). Temos uma imortalização da LENDA de Di Stéfano pelo Real Madrid, de quem é patrono. Quanto ao GENTO, a primeira vez que vi a CARA do cidadão (nunca tinha ocorrido) foi agora pouco, via Google.

Cruyff  já é um jogador das eras de Copas do mundo televisionadas, e Maradona muito mais, tanto que no auge do seu brilhantismo pude vê-lo em campo com a camisa argentina e com a do Napoli.

Pelé teve o momento mais bonito de sua carreira (dizem os peléologistas ou Peléontólogos) num jogo contra o Juventus paulista em um gol que – INCRÍVEL – não foi filmado: a seqüência de balõezinhos nos adversários foi recriada por computador segundo (hrrann-haannn – pigarro) a memória das TESTEMUNHAS oculares (aqui).

O QUE VAI OCORRER com essa turma toda se temos, agora, concorrendo com a MEMÓRIA videos espalhados pelos quatro cantos do globo registrando as peripécias de Messi; e os toques de Ronaldinho (o pilantra) quando vestia a mesma camisa 10 azul e grená; e de Cristiano Ronaldo enfileirando defensores e disparando um míssel no canto do indefeso goleiro; e de Riquelme segurando a bola (fortaleza) e deslizando por entre adversários com uma cara de vítima enigmática e irritante?

O QUE VAI OCORRER com a memória dos mais velhos frente a uma criança que tem como referência de mitos fundadores Romário e Bebeto – e que TEM PROVAS de quanto o baixinho e o baiano realmente apavoravam? Pouco a pouco, as gerações não mais aceitarão elementos memoriais nas discussões (bem como os cultores da razão moderna não aceitam o misticismo e  a pajelança como explicações para nada), até porque um tempo em que sequer Youtube havia, vai ser a pré-história de um futuro muito breve.

Enfim: o prognóstico é o de que caso não haja algum CRIME como ocorreu o ano passado (sem tirar os méritos da Internazionale, que triunfou em uma atuação épica sobre o próprio Barcelona) o time espanhol merece (e tem tranqüilas condições para) vencer se não todos os torneios que disputar pelo menos a maior e melhor parte deles, incluindo o troféu maior da europa e a taça dentro do seu próprio quintal.

Afinal…bem, veja você mesmo, AQUI : na jogada que começa a 1:25 min. Iniesta como se um cirurgião fosse, INSERE uma bola no meio da defesa inglesa e Messi, tal um super-herói dá um toquinho por cima do goleiro e AFUNDA para dentro da rede. Na jogada que inicia aos 2:51 min. o mesmo Iniesta coloca a bola em Pedro que com um toque absolutamente blasé encontra Xavi na área livre para a COVARDIA. A correria que todos os jogadores do Barcelona promove os faz brotar como formigas na área adversária. Ali pelos 3:13 min. começa mais uma troca rápida de passes que resulta em Xavi achando Pedro que (adivinhem) VEM CORRENDO de ALGUM LUGAR não identificado por mim nem pelos zagueiros adversários e sofre o pênalti convertido por Messi que termina por sacramentar a vitória do Barcelona (para quem se interessar, aos 2:07 min., o gol do Arsenal: Busquets, marcando contra – o Barcelona faz até o gol do OUTRO time).

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6 Respostas to “Flecha do tempo/alvo da memória”

  1. moysespintoneto 09/03/2011 às 13:27 #

    É cruel a distância do Barça em relação a todos os demais mesmo. Quase outro esporte.

    Achei interessante esse negócio de youtube-pré-história. Que coisa! :P

  2. José Mourinho 09/03/2011 às 17:28 #

    É hora de nos rebelarmos contra essa modernização e frearmos a tecnologia, voltando ao tempo do centeralfe e do friquique, sob pena de vermos a magia (não só do foot-ball, como da própria vida) sumir de vez.
    Amor às jaquetas já não mais existe. Só resta a magia do exagero, sempre derrotada por uma equipe superior: o fato.
    Só quando Pelé perder a majestade vão me dar razão.
    Ademais, sou o melhor treinador do mundo e não temo o Barcelona. Nem levando 5 na cola.

    “é elegante e é chic,
    é distincto, é de escol
    rir nervosa, ter chilique
    por causa do foot-ball”

  3. cóser 10/03/2011 às 0:15 #

    é genial e eu nunca vi nada parecido…

    na verdade, esse futebol de total posse de bola lembra o inter do roth, excetuando os gols, as jogadas geniais e as triangulações verticais rumo à meta adversária.

  4. Abel 10/03/2011 às 22:24 #

    Por mais que a memória seja preservada nos vídeos, jamais cada geração vai entender o contexto que cercava aquela jogada, aquele lance ousado, aque “mulecagem”.
    É como ver Pelé agora e imaginar que os zagueiros eram mais truculentos e duvidar um pouco da capacidade dele.
    Que ele foi o maior, os números falam, pois certamente ele também não tinha o preparo físico, psicológico, técnico que um Messi tem hoje.
    E as discussões sempre vão perdurar, eis o futebol!

  5. Marcelo Mayora 11/03/2011 às 10:26 #

    Que papinho hein.
    Dinho baixa o sarrafo, Paulo Nunes chuvera na área e Jardel mete pro gol.

  6. Michel 14/03/2011 às 10:40 #

    eu nao via o Barcelona jogar na época do Romário, 93/94. E pra ser sincero, muito pouco vejo agora tbm.

    o proprio you tube possibilita ver o Barça esse do Romario jogando de maneira que lembra um bom pouco esse time de hoje. Não tenho aqui agora o link mas sugiro a busca. A bola passa pelos pés de quase todo time, muitas vezes recebendo um único toque. O ultimo deles é do Romário, que dá um toque leve e longo da intermediaria, encobrindo o goleiro. Demais. É bem provável que um desses pés da jogada toda seja do atual treinador Guardiola.
    Gabriel, muito bom o raciocínio dos tempo antes de you tube e pós you tube.

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