“…digam ao povo que: fui”

28 jan

CAM00380 Ciudad de La Habana, desde a Fortaleza de San Carlos

 

 

Texto: Gabriel Divan

Ideias, memórias, notas e fotos: Gabriel Divan e Fernanda Tramontin

 

 

Em algum momento de “Bom Dia, Vietnam” (EUA, 1987, Barry Levinson), os personagens reunidos em uma taverna brindam aos goles de Ba Muy Ba, a dita “melhor cerveja” local, para, alguns minutos depois, concluírem meio consternados: Ba Muy Ba, a única cerveja local.

A cena poderia se repetir em algum bar de Havana: Bucanero, a única cerveja de Cuba. Ok, existe também a Cristal, mas é uma legítima bosta.

Em verdade, se você quiser um toque de familiaridade e for adepto do amargor da boa e velha Heineken, sem problemas: a oferta da holandesa da garrafa verdinha é farta em praticamente todos os bares da ilha, bem como de sua compatriota Bavária (bem similar à Heineken e em nada lembrando a desgraça brasileira de mesmo nome).

Na realidade, mesmo, a opção generosa de bebidas, refrescos, drinks e aperitivos de várias categorias encontra até mesmo um espécime que supostamente seria impossível de ser avistado no país, mas cuja aparição não é nem um pouco dificultada: a Coca-Cola.

Há quem pense que encontrar uma Coca-Cola em Cuba possa provocar uma catarse que conduz à um ato arriscado e clandestino de sentir o doce sabor pecaminoso do imperialismo descendo pela goela. Na verdade em muitos estabelecimentos – e não só nos bares de hotéis destinados a turistas financeiramente avantajados – você encontra Coca-Cola com certa facilidade (juntamente com a família que congrega a Fanta, a Sprite e todo o resto).

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Colas em embate: Coca vs. Tukola

Se a notícia mais estranha que um sujeito poderia receber é a de que não há (muita) dificuldade para se beber uma Coca-Cola em Cuba, isso significa que há a ignorância, o desconhecimento sobre uma coisa bastante peculiar em relação à ilha e ao cotidiano de sua capital. Em Cuba existe: vida normal.

Uma mulher apertada em uma saia justa e torturada por um salto altíssimo (visivelmente atrasada para algum compromisso) tenta correr e gritar para o táxi, mas tudo o que consegue é uma deselegante marcha atlética sem sucesso. Um rapaz caminha com uma pasta em baixo do braço, olhar predador mirando o horizonte, passos retos. Carros se enfileiram ante o sinal fechado. Um sujeito passa o esfregão em um vidro de loja. Crianças uniformizadas fazem fila para o guichê da sorveteria. Um velho fuma sentado no banco da praça a observar o movimento.

Sabe-se lá porque (mentira, sabe-se muito bem) o imaginário que cerca Cuba faz pensar que cenas corriqueiras na vida de qualquer capital do mundo ocidental seriam pitorescas e mesmo inexistentes em Havana. É um terrível choque de cotidianidade você perceber que, como em qualquer outro lugar, Havana fervilha de universitários transitando nas cercanias do campus, povo abarrotando ônibus de linha lotados, gente apressada para reuniões pessoas aguardando o atendimento em postos de saúde, entra e sai em estabelecimentos comerciais e coisas do tipo.

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Vida que corre na capital do país.

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Sou (ou fui) um voraz leitor das obras do cubano Pedro Juan Gutierrez. Coleciono seus exemplares e, desde que li a “Trilogia Suja de Havana” em espanhol, decidi que iria enfrentar seus livros apenas no idioma original – ainda que isso gere dores de cabeça e custos excessivos com a encomenda de importados na Livraria Cultura. Pedro Juan, porém, tem um problema que, após minha estadia em Havana, se desdobrou em dois: pouca coisa de sua obra detém o brilho e crueza instigante e a força original da “Trilogia Suja…” (até hoje seu maior e mais incensado hit literário). Sua insistente repetitividade e a cansativa auto-adulação enquanto macho alfa durão e conquistador, dono de performances sexuais épicas aborrecem qualquer um e há um bom par de livros seus que são entediantemente sacais e tristemente idênticos entre si.

O grande problema que passo a ter com Pedro Juan depois dos primeiros dias passados desse janeiro (vi, desde o bairro do Vedado, na Avenida de los Presidentes, de frente para o oceano que parece sem fim – mesmo que cento e poucos quilômetros adiante você bata com a testa na Florida, o apagar das luzes de 2014 e o nascimento do primeiro raiar de 2015) é que sua literatura catastrofista explora até o bagaço uma situação de miséria (material e existencial) que condiz com a criação de histórias que circundam miticamente um eterno período negro da linha do tempo recente: a Havana fantasiosa de Pedro Juan (onde cada negra voluptuosa da extensão da região metropolitana parece querer sexo com ele) é uma despudorada exploração infinita da crise do início dos anos 90: inexatidão total quanto a um futuro onde a União Soviética não era mais matricial de dinheiro e insumos militares, crise, alarmismo social, histeria coletiva, pavor. Sua Havana é inteiramente a Centro Habana em frangalhos (o bairro verdadeiramente está em frangalhos), suas casas e azoteas (terraços) são todos ruínas tristes e opacas, seus personagens são inteiramente malandros caribenhos que estão a todo tempo preparados para aplicar algum golpe, lograr algum trambique e/ou tentando dar algum jeito de picar a mula do local.

O retrato não é integralmente mentiroso (seria alucinógeno dizer que está tudo política e economicamente bem com Cuba), mas  é uma alegoria eleita para vender: a desgraça, a miséria, a vida de infortúnios, o sorriso em meio ao caos são standards. De fato, vida corriqueira não faz best-sellers.

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Centro Habana: deterioração, sujeira e paradoxais bistrôs de luxo

Caminhamos por uma das artérias principais de Centro Habana na noite de ano novo: na Calle San Lázaro, o cenário é verdadeiramente desolador: edifícios e casas em decomposição abrigam moradores e sua parentada inteira. O cheiro é ruim e o calçamento também. Há sujeira em nível bastante incômodo. Nenhuma escadaria em espiral (visível da rua, diante da maioria dos prédios com portas abertas, quebradas ou simplesmente inexistentes) inspira confiança de ser galgada. Um desavisado pode pensar que aquilo é o panorama sinistro legado à população pelas escolhas políticas cinquentenárias de seus governantes e só.

É necessário se vacinar contra alguns equívocos: se a situação econômica média de um habitante da ilha nunca foi das melhores, não se pode igualmente acreditar que os lucros literais e estilísticos que se atingem retratando a miséria se confundem com toda a realidade. Nesse ponto, de maneira triste, a arte de um Pedro Juan é um melancólico produto da categoria de quem usa a penúria como matéria prima para produtos cool de exportação.

A visão que alguém que mora no Brasil tem de Havana é geralmente ou a) um relato inundado por conjecturas políticas que dependendo da visão do emissor podem amplificar ou maquiar dados para ambos os lados; b) fruto de algum veículo midiático que faz sensacionalismo parcial (literalmente: apenas uma parte) exibindo um inventário infernal de problemas e desespero ou, ainda (opção que cresce nos últimos tempos) c) um prontuário igualmente falso e alienado – mas, ao contrário, otimista – destinado ao dinheiro dos turistas que vende o lugar como um paraíso terreno cuja beleza enche os olhos a todo instante. Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno.

É fato que um turista milionário pode ter em Cuba – como em qualquer lugar – uma vida fugaz cuja esquiva de qualquer problema ou infortúnio é providenciada com antecedência all inclusive. Hospedado no Hotel Nacional, o compay pode até simular uma aventura na pré-histórica Cuba do início dos anos 50, onde a “jóia do Caribe” era simplesmente um balneário de férias para americanos ricos que trajados em ternos summer bebiam Martinis em bares de cassinos luxuosos emulando pinta de Humphrey Bogart. Do próprio Bar Churchill (que ganha o nome a partir da hospedagem do chanceler britânico no hotel, em Fevereiro de 1946), se pode encomendar um conservadíssimo almendrón – os cadillacs americanos de época, polidos e lustrosos em cores chamativas – para passear com as capotas arriadas e quase ver voar o chapéu panamá e as cinzas do seu onipresente Cohiba de aroma inconfundível. Ou quem sabe, mais prático: se refugiar no paraíso artificial de Varadero, alguns – não muitos – quilômetros a nordeste, onde um conglomerado de resorts luxuosos e restaurantes cria uma espécie de república à parte, em que não há problema, empecilhos nem nada o que fazer de muito importante fora admirar as cores do céu em contraste com o mar azul cristalino.

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Hotel Nacional de Cuba: de volta aos anos 50

 

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Não é preciso ser um chanceler para ser um turista que consegue sorver o melhor de Havana: ao contrário de relatos fantasiosos que identificam a cidade como um antro de perdição onde todos têm sede de sangue e dólares quando não estão enchendo câmaras de pneu para se lançar ao mar na tentativa de avistar as areias de Key West antes de a barbatana de um tubarão, o povo local é extremamente amistoso e a cidade incrivelmente segura.

Miriam é uma senhora de meia idade que, segundo conta, já trabalhou como camareira em hotéis de gabarito como o Nacional e o Capri. É ela que nos atende na pizzaria Olokkú, na Calle Calzada, há duas quadras do hotel. Optamos quase sempre por jantar fora, porque apesar da brisa agradável que constantemente presenteia o lobby externo do Hotel Presidente (que é razoável, mas inegavelmente parece hoje ser a sombra do que um dia já viveu), o mojito do bar é uma espécie de loteria e dependendo do barman da noite vai do péssimo ao razoável. Fora isso, a música, esse desgostoso capítulo à parte: lar de uma quantidade incontável de músicos talentosos, Cuba é assolada pela praga dos conjuntos para (tentar) agradar aos turistas em busca de exotismo caribenho de boutique e para que pinguem alguns niqueis no chapéu que é passado ao fim de cada set list. É praticamente impossível ficar no Hotel eis que, do cair da tarde às altas horas da madrugada, se reúnem geralmente um contrabaixo, um violão, congas e maracas para entoar em enjoativo e insuportável repertório perene que inclui a infalível “Guantanamera“, alguns pout-pourri de clássicos locais menos afamados, uma rendição em espanhol de “My Way” (fica inegavelmente interessante), alguma versão salsa de uma canção pop internacional (quase sempre “Hey Jude” ou “No, Woman no cry“) e uma cartilha de batuques onde cada membro faz uma espécie de solo. É sempre essa mesma sequência em todos bares, lobbies, esquinas, restaurantes e é perturbador. Fora o estranho caso da música – visivelmente um sucesso na ilha – que consiste na apavorante repetição sistemática de umas quatrocentos e trinta vezes da palavra “bailando“. Explicado, pois, porque o hotel era uma opção apenas para observações antropológicas.

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Cercanias do Bairro do Vedado: vista para o mar

Na honesta (não confunda com ‘boa’ nem com ‘detestável’) pizzaria Olokkú, Miriam nos conta que termina seus turnos por volta da uma hora da madrugada e que caminha descontraída pelas ruas silenciosas sem que haja qualquer receio ou problema. “Aqui vocês podem andar tranquilos, não é como na terra de vocês onde, um sujeito em São Paulo está na fila do ônibus e leva um tiro na cabeça”.

Doce vingança: da Cuba inteiramente em frangalhos como um Afeganistão pós-guerra que é vendida em alguns relatórios e reportagens vimos menos do que o esperado. O que chega de notícias do Brasil por lá, igualmente não depõe muito a favor do país. Uma troca justa. E com mais verdades que nós brasileiros gostaríamos de supor.

O fato é que não houve pessoa com quem conversamos em Cuba que não enfatizou em relação ao Brasil a sua admiração nem o seu espanto com a violência desenfreada. E a prova empírica de que o espanto é realmente factível é simplesmente caminhar por Havana, em qualquer hora, de qualquer jeito, a qualquer momento e em praticamente qualquer cercania de sua região central: superados alguns estranhamentos étnicos involuntários e o lixo mal coletado de algumas vias (de fato um problema endêmico da capital), você percebe que está totalmente seguro. Não há receio e nem as pessoas ao seu redor oferecem algum tipo de olhar ou sentimento que lhe faça sentir intruso.

Exatamente ao contrário: os cubanos geralmente querem dar dicas a você e convencer o turista a conhecer os lugares e elementos da cultura particularmente local. Recomendam insistentemente o Callejón de Hamel uma mistura de beco-gueto com galeria de arte ao ar livre, uma viela onde tudo é cor, artes plásticas, graffiti, música e onde os cubanos de Centro Habana se reúnem com constância e tentam cooptar os turistas que rumam desesperadamente para os bares famosos ignorando as atrações culturais verdadeiramente locais.

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Malecón pela manhã: ondas explodindo nas pedras, raro espetáculo

 

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Um evento filosófico imperdível é repousar seu olhar no oceano escorado ou sentado no famoso e cantado em verso e prosa Malecón: o muro que impede que Havana seja engolida pelo oceano nos dias mais raivosos é uma atração à parte, não apenas pela nuvem salgada que espirra na calçada quando as ondas entram em choque com o concreto para mostrar seu poderio, mas pelo impressionante pertencimento que ele ocasiona. Ali, naquela faixa de pedra que acompanha boa parte da rua que costeia o final da ilha no mapa, vê-se de tudo. Sempre imaginei o Malecón como algo mais marginal (sentido figurado, embora também estrito) possível: pensava ser um lugar de prostituição (tarde da noite, certa feita, identifiquei dois boquetes ocorrendo por casais separados por pouca distância) e de degradação – eu mesmo em uma madrugada tive que apelar para usar o Malecón – em um trecho sem iluminação – como mictório, confesso (Bucanero…). O fato é que a cidade passa por ali da mesma forma em que o muro a contorna: na manhã, é via de tráfego de transeuntes. Na tardinha, é palco para jogging. No início da noite é o cenário escultural do céu laranja e do mar cor de rosa onde turmas de jovens vão munidos de rum e aparelhos de som para sentar e papear (e escutar aquele detestável reggaeton – gosto é gosto). A qualquer hora do dia, o mais incrível, é sempre sítio para namorados e pescadores de ocasião. E igualmente, a qualquer hora, algum cubano(a) vai estar ali sentado com os pés abandonados ao vento sendo salpicados pelas franjas de onda simplesmente pensando na vida. Meio deprimido, buscando (auto) ajuda em si mesmo, olhando para o mar, ou apenas deixando as gotas de espuma que sobram aqui e ali refrescar o rosto e a alma.

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 Malecón ao final da tarde: jogging, namoro, música e por-do-sol

 

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Sobre o rum, o produto nacional orgulhosamente apresentado, uma visita ao Museo del Ron comandado pela incomparável destilaria Havana Club mostra tudo sobre a bebida para estrangeiros fascinados (é um passeio caro e curto por dentro do belo edifício, mas altamente recomendável), menos a história mais pitoresca: detentores originais da marca “Havana Club” a Bacardi –  empresa familiar sediada em Santiago de Cuba ao sul da ilha – apoiara financeiramente a Revolução que anos depois encampou as fábricas e a produção inteira, em um passa-pé sem precedentes que gerou uma bronca de proporções jamais vistas: a Bacardi passou a ser sediada em Porto Rico e foi obviamente pedir penico para os americanos.

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Edifício Bacardi em Havana Vieja: perdeu, playboy…

Hoje a Bacardi é uma das maores destilarias do planeta, mas parece haver uma única aldeia gaulesa que ela não consegue dominar e é um fato gerador de um ranço notável frente à companhia: a Bacardi ‘made in USA‘ tem até a sua própria bebida de nome “Havana Club” (nada mais loser), mas que é vendida apenas nos Estados Unidos e tem um apelo midiático pífio. Já o resto do mundo inteiro parece não se importar com a trairagem do regime e consome em larguíssima escala o rum de grife “roubada” que é feito com esmero ímpar em Cuba. A Bacardi tenta choramingar e de todas as maneiras convencer o mundo todo a ’embargar’ o rum nacionalizado por decreto, mas sem sucesso. A qualidade do Havana Club feito na ilha dá um banho de bola nos vizinhos agora porto-riquenhos e os quatro cantos da Terra alardeiam isso e compram numa vazão estapafúrdia que torna a destilaria habanera outra das mais importantes do globo. Qualidade, oferta e procura: o mercado escolheu o rum pirata cubano. Cruéis o capitalismo, a oferta e a procura, não?

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El Ron: o destilado cubano é um das mais nobres do mundo

 

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Os dois estrangeiros mais queridos e aclamados de Cuba têm o mesmo nome: Hemingway, o escritor norte americano premiado com o Nobel de Literatura em 1954, cânone literário universal, que manteve residência na ilha por duas décadas e que viu vários de seus romances serem inspirados pela condição existencial da solidão típica do pescador inveterado que ele era, foi um Ernesto, assim como o argentino ‘Che” Guevara de La Serna.

Ernest Hemingway é um paradoxo interessante: ícone contemporâneo é visto em Cuba como baluarte de um certo revanchismo. Está praticamente nacionalizado, encampado pelo regime como foram dezenas de indústrias e propriedades pós-revolução de 1959: é praticamente tido como um escritor estadunidense de ‘alma cubana’. O amor que tinha pela ilha e pelo seu mar diante de seu passatempo/lifestyle predileto (a pesca) talvez fizesse um hipotético fantasma de Hemingway não exatamente renegar o título. O escritor é uma figura ‘cult‘ de presença marcante na região. É um dos únicos autores que consegue competir com a maciça e estafante imposição dos teóricos do regime em livrarias, sebos e nomes de locais e demais homenagens. Edições de “O velho e o mar“, especialmente, pululam por toda Havana.

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A história escrita e registrada nas paredes da Bodeguita, desde 1942

De suas lendas mais conhecidas, o gosto pela boemia era folclórico e um invariável poemete de ensaio que ele rabiscou em um papelucho qualquer se transformou em símbolo de fascínio de turistas do mundo inteiro: “Mi mojíto en La Bodeguita, Mi Daikirí en la Floridita“. Foi o que bastou: o ídolo Hemingway lista seus dos bares e respectivos drinks favoritos e promove uma catarse coletiva infinita no imaginário turístico que faz com que todo visitante que se prese precise fazer dessas duas escalas (e consequentes bebedeiras) um programa indispensável. Os dois bares passam energias diferentes.

La Bodeguita del Medio (a bodeguinha do “meio” da quadra, na Calle Empedrado quase na esquina com la Plaza de la Catedral) é talvez o bar mais famoso do mundo: um imã para turistas de todas as nacionalidades que se refestelam em frente ao seu minúsculo balcão onde há um careca alto que parece um robô destinado a uma produção industrial, constante e interminável de mojitos que mal e mal consegue atender à demanda gigantesca. Há ainda uma passagem estreita pelo canto que conduz a salões internos em dois andares onde é possível comer uma comida criolla de gabarito e se deliciar com a história do bar (desde 1942) contada pelas paredes que, onde não estão lotadas de fotos históricas de frequentadores-celebridade de todas as nacionalidades, estão rabiscadas de caneta e hidrocor. De cantores de renome mundial, a caciques políticos de todos os credos e partidos, passando por astros de telenovelas brasileiras que são sucesso em Cuba como em qualquer lugar: a foto da Regina Duarte fumando um charuto, atriz que hoje, sabemos, tem medo, é particularmente engraçada. Dizem aliás que os micro restaurantes que inundam Havana, apelidados de paladares (do mais chique mini-bistrô ao mais esdrúxulo estilo sala da estar apertada de kitinete – com poucas pessoas envolvidas e um sabor legitimamente caseiro), têm esse nome dada à cadeia de restaurantes de mesmo nome que sua personagem Raquel criou em “Vale Tudo” (“Quem matou Odette Roitmann?”). Sucesso absoluto lá e aqui.

A Bodeguita é um bar onde você necessariamente deve ir – a ceia de reveillón que lá jantamos entre mojitos que desciam redondo até demais como uma Itaipú adornada com hortelãs – estava magnífica (e justificativa do seu preço exorbitante e inflacionado, mas é o tipo de coisa da categoria “uma vez na vida”). Mas não necessariamente deve voltar: em dois dias apenas de Havana, você percebe que ir uma ou duas vezes na Bodeguita é mais do que suficiente para cumprir a meta e não ser tragado pelo hype caça-estrangeiros que se instala no bar e ofende de certa forma a história bonita e sólida do local. Fora que pelas tantas, vem o pessoal das maracas: “…bailando…”.

Bem diferente a impressão passada pela La Floridita, o bar do “daikirí“: o clima é tenso, as portas são fechadas, impera uma meia-luz que não condiz com o clima lúdico da cidade toda, dezenas, centenas, milhares de americanos se acotovelam nas mesas em uma nítida impressão de que é mais importante ser fotografado tomando o famoso drink ao lado de uma estátua de bronze de Hemingway escorado no balcão do que qualquer outra coisa. Bad mood, bad trip. Saímos pedindo desculpa ao Ernesto, mas não provamos o seu aperitivo de praxe. Faltou saco para ficar mais de quatro minutos no lotadíssimo lugar que parece alheio a toda atmosfera local.

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Na Floridita, Hemingway não diz nada, só observa

Foi um maluco dono de um paladar todo adornado por flâmulas e cachecóis de futebol europeu, o La Moneda Cubana” da Calle O’Reilly, que sentenciou em meio a um divertido almoço onde o sujeito fala mais com o dono do restaurante do que seria possível em qualquer outro lugar do mundo: “El mojito de La Bodeguita es el más bajo de La Habana e el más custoso de la cercania (“O mojíto da Bodeguita é o mais ‘vagabundo’ de Havana e o mais caro da redondeza“). Ele se gabava de que o seu mojíto era o melhor da cidade, um dos melhores de toda ilha. Importante dizer que: de fato, era (e a comida era do mesmo – alto – gabarito. Recomendadíssimo). A diferenciação entre um efetivo restaurante e um paladar é meio nebulosa em se tratando de alguns estabelecimentos com um grau de refino bem acentuado. Os paladares são experiências de negócios próprios em meio à administração pública indireta de restaurantes maiores – o La Imprenta na Calle Mercaderes é de um charme arquitetônico agradabilíssimo e de pratos e preços que praticamente me impeliram a querer retornar no dia seguinte – coisa rara durante a estadia.

O mojito na cidade é uma instituição: bebe-se em todo lugar, a todo instante, com preços que variam de acordo com o esmero, a qualidade e a quantidade de ramos de hortelã. Se você tem problemas ou falta de apetite para bebidas alcoólicas, pense bem se Havana será um destino confortável. Beber é uma espécie de esporte nacional que compete com o baseball no quesito. A comida tradicional local é apetitosa, mas por vezes falta imaginação: mesmo que seja uma ilha caribenha, Cuba tem uma vocação agrícola muito forte e é muito mais fácil encontrar variações em torno de carne de porco (o animal oficial à mesa dos cubanos) do que, por exemplo, frutos do mar (que nunca são oferecidos a preços assombrosos, mas definitivamente não tão baratos quanto o esperado pelas condições locais).

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 Mojitos habaneros: em todos os bares, há uma ‘linha de produção’ ininterrupta

 

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Na entrada da loja de souvenires, um portunhol sofrível se ouvia aos berros desde o balcão do caixa. “Me voy a te comprar un troféu”. O homem de meia idade vibrava com os braços para cima. Segundo ele, aquele era o único lugar de Cuba onde seu cartão de crédito havia conseguido concluir a ligação e por conseguinte a compra. “Yo tentei até en Varadero, e solamente aqui consegui“, gargalhava diante do vendedor. Ao perceber que éramos brasileiros, desabafou sem qualquer timing, em frente ao atendente, com ares de uma intimidade jamais verificada: “Eu não volto mais nesse país nem fodendo…os serviços deles são muito ruins…o camarada é muito mal atendido. Tem que ver também que eu sou paulista…somos muito mal acostumados…o serviço lá é ótimo, não é?, você pede a conta e ela vem em meio minuto”. Ao perceber que éramos do sul, mais uma constatação do perspicaz amigo amante dos charutos de valor mais caro da ilha: “…vocês também devem estar sofrendo aqui, porque em Porto Alegre o serviço também é excelente, é quase tão bom como em São Paulo”.

Ato contínuo, o cidadão mal acostumado com os serviços e serviçais da terra da garoa arrematou o inevitável e previsível ‘comentário político’: “Eu também sou contra isso daqui porque eles são muito restringidos pelo governo. Eu sou contra…eu sou pró-liberdade”. Diante da baixa vazão ao papo furado, se despediu desejando sorte, no que, em sequência, fomos brindados por um sorrisinho irônico e um revirar de olhos no estilo ‘ainda bem que meu turno fecha em quinze minutos‘ pelo vendedor.

É realmente intrigante o número de pessoas que vêm para Cuba para a prática do que batizei de “Turismo de Corneta“: você não gosta do lugar, das pessoas, do estilo arquitetônico, do panorama político-ideológico, das comidas, do modelo de organização e do ambiente de Havana, mas leva seus três filhos, a esposa (cada um com seis Samsonites, todas arranhando o peso da taxa extra) para passar duas semanas em Varadero em resorts estilo não-lugar, isolados de qualquer contato com qualquer coisa da cultura local para dar um ou dois pulinhos na cidade no intuito de falar mal do que você já falava mal a vida toda antes de ir para lá. Pensei em chamar o amigo paulista e perguntar a ele qual o intuito de ele vir despejar rios de dinheiro justamente em um lugar onde a taxação e o percentual que todos no ramo do comércio e hotelaria tem que legar ao estado é altíssimo, o que seria incongruente para quem declaradamente desgosta do governo local. Que tipo de pessoa é tão alienada a ponto de se proclamar ‘contra’ Cuba durante as férias que passa lá, em uma loja de lembrancinhas locais, onde está torrando os tubos no cartão? Há um contingente engraçado de pessoas que parecem gostar de desperdiçar algum período de folga em Cuba, justamente para – não se importando com o fato de que é um destino de viagem caro para brasileiros – simplesmente ter assunto para falar mal entre os amigos nos happenings (logicamente, enquanto baforam seus puros bebericando rum no clube, após o fim da rodada de tênis em duplas).

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O abastecimento. O abastecimento, bem, é sim um problema a ser driblado pelos comerciantes e especialmente pela população em geral. Fran, um cubano que vive tirando uns trocos bancando o guia turístico em Centro Habana deu um incômodo recado: “Algumas coisas volta e meia faltam, aqui, como o leite que geralmente é mandado para hotéis como o de vocês“. Amargo. Os cubanos – sem distinção – ganham distribuído pelo governo uma série mensal de suprimentos que são coletados por áreas ou zonas em locais cadastrados chamados Bodegas. Uma cartela é dada ao cidadão para que busque periodicamente uma quantidade de gêneros alimentícios básicos como arroz, feijão, ovos, carne e alguns produtos de uso geral como de higiene, limpeza. Há, sem qualquer neura, comércio. Feiras, vendedores ambulantes de frutas, lojas e mercadinhos abundantes em cada viela e esquina são essenciais para que os cubanos usem seu salário para complementar o rancho do mês, mas ainda assim a escassez de alguns elementos é incômoda.

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Tabela de preços e de distribuições nas chamadas “Bodegas” 

Logicamente para as refeições do todo poderoso turista nada (quase) falta, mas parece estranho o modo como as pessoas não sentem nenhum pudor em se amontoar em paradouros luxuosos em vários lugares do mundo (como na atual meca caribenha do turismo, a República Dominicana) onde quase toda população local amarga situação famélica, e, em Cuba, fiquem a todo tempo se questionando quanto a isso é estranha. Alguém na Disney World come com remorso ao pensar nos homeless da região metropolitana de Miami?

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 Café da manhã no hotel: turistas tratados como reis

 

Não há – dado impressionante constatado visualmente – moradores de rua em Cuba: todos têm um teto e uma cartela para buscar ao menos sua subsistência com o conjunto de itens e alimentos dados pelo governo nas Bodegas. Mas há uma espécie chamativa e numerosa de ‘pedintes’ que são pessoas que abordam os turistas em busca de alguma coisa extra como pastas de dente, shampoos, sabonete e outras coisas que terminam antes do final do mês. Há uma parcela da população que supostamente vive apenas do rancho periódico nas Bodegas e esses itens são preciosos para uso ou para uma espécie de mercado negro informal. Saímos com alguns sabonetes e tubinhos de shampoo do hotel que encontraram ganhadores não muito demoradamente, em que pese em algumas áreas da cidade seja incomum ver pessoas nessas condições. Novamente: a ideia de Cuba como um holocausto é incomodamente falsa.

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Um ‘bodeguero’ de Havana Vieja

 

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A pobreza de uma grande parcela da população é considerável e não pode ser maquiada, mas a todo instante eu questionava internamente os índices de ‘tolerância’ que temos no Brasil com crianças coletando comida podre em lixeiras ou atiradas na drogadição nas calçadas de nosso país. A crítica à situação de muitos cubanos é dotada de veracidade, mas, afinal, que moral temos tão evidenciada assim em relação a isso para apontar dedos?

Há quem esteja morando mal e comendo mal – muita gente – mas é preciso ponderar se, fosse o caso do país ser um expoente do capitalismo emergente, como o Brasil, por exemplo, essas mesmas pessoas não estariam na mesmíssima situação (provável), ou não estariam em uma situação pior em relação à quase totalidade do dia dedicada a trabalhar e aos trajetos de ida e volta para ganhar um sustento que lhe permitiria apenas morar e comer mal – e olhe lá. É como na piada (amarga) que alguns tomam como ‘teoria’: não deveríamos dar esmolas para as pessoas em situação de rua não se acostumarem a viver disso – é fácil para muita gente se auto-enganar e acreditar piamente que a ausência de um punhado de trocados fará com que a pessoa decida voltar para o emprego (que na maioria das vezes nunca existiu), para a casa (que quase sempre foi um viaduto) ou finalmente tomar coragem e empreender. É preciso muito contorcionismo político para não perceber que a faixa de população mal remunerada (se empregados estiverem) em Cuba (independentemente da qualificação profissional/universitária) apanha da vida como qualquer faixa de população similar em países demograficamente semelhantes. E não é a possibilidade de ‘comunismo’ ou de ‘capitalismo’ programáticos que vai mudar isso. Mas o ‘fodido’ cubano leva uma vantagem em relação ao ‘fodido’ brasileiro: há (pouca) comida de graça, todo mês, há roupas (de baixo padrão) periodicamente, de graça, e há um teto para apartar a chuva – que jamais é de papelão.

Há quem diga que os índices relativos à saúde pública e à educação (trunfos inegáveis da política externa cubana) são usados como o sucesso esportivo em algumas modalidades para propagandear o sistema e encobrir problemas. Sim e não. Que a propaganda é um dos métodos clássicos do regime, bem, se você ainda tem dúvidas ou se sente apto a ‘discutir’ esse ‘mistério’, é melhor mudar de assunto. O fato é que Cuba costuma ser denegrida por querer exportar justamente o que ela consegue ter surpreendentemente de bom. O imaginário político-ideológico mundial costuma (especialmente na era do debate facebookiano brasileiro) opor Cuba a qualquer potência ocidental-capitalista como se fosse uma espécie de guerra entre toda um ideário planetário e uma ilhazinha latina que deve ter o tamanho de algumas quadras de futebol enfileiradas: experimentem comparar Cuba entre seus pares caribenhos e percebam a – nada sutil – diferença. Enquanto os países ao redor são republiquetas militaristas em constante guerra civil, ou simples paraísos de turistas cuja frota armamentista se destina a simplesmente excluir da frente de uma meia dúzia de hotéis uma horda imensa de famintos como zumbis (e onde negros são aceitos apenas na condição de serviçais) e/ou ainda cidades artificiais, embelezadas para abrigar bancos de fachada tendentes a ser redutos estranhíssimos de depósitos off-shore, Cuba, bem, existe. É real. Tem também seus apartheids velados e sua cota de canalhice ao tratar certos trechos de litoral como Éden encantado para os Euros e Dólares que se mostram. Mas passa um ar de dignidade, ao menos nesse sentido, que não se encontra na região.

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Graffitti perto da Plaza de La Revolución: “monstro”  do 1% abocanhando tudo

 

Quanto às escolas, um ponto inegável para os defensores do regime: prioridade desde que um pequeno amontoado de guerrilheiros desembarcou do Granma, a erradicação do analfabetismo e a universalização do ensino é (não há como negacear) um sucesso. Todas as crianças que se vê na rua – fora dos feriados relativos ao início do ano – estão uniformizadas, ou indo para a escola ou voltando da escola. Crianças de todas idades estão em creches, primários, escolinhas e colégios, um fluxo que se percebe também nos mais velhos. O número de escolas é assombroso e parece algo que realmente causa calafrios no povo cubano a possibilidade de uma criança em idade escolar não frequentar as aulas. Tão óbvio. Tão simples. Mães levando os pequeninos pela mão, garotos mais velhos zoando as colegas meninas nas esquinas, filas, horário de ingresso cumprido a risca. Chama a atenção o modo como é visível na prática o estratagema de Fidel de ‘ocupar’ simbolicamente certas edificações (como quartéis situacionistas da época de Fulgêncio Batista e/ou casarões imponentes) e transformar elas em escolas (há uma inclusive no meio da Plaza Vieja – um dos pontos turísticos mais aclamados de Havana, cercado de edificações bicentenárias e conservadíssimas). Em um dado momento, o visitante no país chega a pensar que é um truque. Aquela (ex) mansão na esquina para a qual você está olhando pode ser uma escola ou uma biblioteca pública. Geralmente o é.

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Escolas em Cuba: em (literalmente) todo lugar.

 

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A quantidade de estadunidenses na ilha chama a atenção. Dizem que (nunca fui) Miami é um lugar onde é melhor ter noções básicas de espanhol do que de inglês. Um surpreendente dado sobre Havana: os anos e anos de ‘bloqueio’ que inibem a economia Cubana de tentar se desafogar e a série de restrições que o governo do Tio Sam impõe para que Cuba não encontre parceiros comerciais em algumas áreas não impede que rios, enxurradas de norte-americanos inundem Cuba. De velhos típicos de meia soquete e camisas floreadas, àquela gurizada mochileira que busca hostels baratos em praias, mar e maconha, os gringos são parcela opulenta do turismo local. Nada como a sensação de estar fazendo algo levemente “proibido” e imagino o quanto não bomba o Instagram dessa gente ao exibir para seus compatriotas essa sutil aventura.

Talvez esses prefiram, se apertar a saudade de casa, uma estadia no bairro de Miramar, a oeste de Habana Vieja e do centro da cidade: ruas arborizadas, edifícios de veraneio lindos e novíssimos, clubes à beira mar e casas luxuosas que abrigam embaixadas fazem você se sentir em qualquer lugar, menos na Havana devastada que as câmeras televisivas gostam de explorar volta e meia. Dentre o caráter alucinógeno do local, a bonita ponta batizada de Marina Hemingway onde hotéis/pousada se acotovelam entre canais para que pessoas de todo mundo (sobretudo estadunidenses) estacionem diretamente seus barcos que aportam direto do oceano (um guarda local me informou que não era permitido tirar fotos dos barcos, que, afinal, eram “propriedade privada“. Balela: o problema deve ser pipocar aqui e ali imagens que possam comprometer os proprietários das naves perante o fisco do norte e o embargo mais permeável e contraditório do que à primeira vista).

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 Bairro de Miramar: onde Havana parece…Miami

Não sei em que nível operam coisas como ‘censura’, mas há uma pressão ideológica por parte do regime castrista que é menos violenta do que cafona: em todo e qualquer espaço disponível na rua, outdoors, pinturas, cartazes, pichações, fachadas de prédios (públicos e em muitos casos residenciais) e intervenções artísticas, a Revolução é louvada e enaltecida com fraseados bregas e bravatas quixotescas. Fotos dos ícones da intentona de 59 tomando Havana, bandeiras do 26 de Julho (movimento que, iniciado em 1953, marcou o início da luta de Fidel Castro e seus companheiros pela independência e tomada do poder em Cuba, que se sagrou vitorioso seis anos depois), uma profusão inigualável de imagens estilizadas dos mártires Camilo Cienfuegos e a já bem sabida e esperada onipresença do olhar altivo do Che imortalizado na forte imagem que (me arisco a dizer) é a mais marcante obra de pop-art da história.

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Chapéu de Camilo, boina do Che no Museo de La Revolución

O desespero do regime em se fazer lembrar parece aos meus olhos de turista funcionar ao contrário: não é necessariamente louvor, mas uma espécie de frenesi, de neurose revanchista para que a todo instante a incrível e improvável vitória dos revoltosos se faça glorificada. Não parece algo natural, e sim forçado – em que pese os cubanos (que, sim, tem muito mais noção de balanço entre fatores bons e ruins do que alguns colunistas gostam de supor e, não, não são uma nação de cérebros lavados) realmente admirem o panteão sagrado e sumamente Che Guevara.

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Che: glorificação e onipresença

Che conta com a ajuda histórica: sua coragem inquebrantável, sua disposição para viver em meio ao povo e a mitologia rebelde que gira ao seu redor, unidas à sua morte em combate na Bolívia (no sonho de ampliar a revolução cubana para a América do Sul), mesmo após a possibilidade estável de integrar o alto escalão político da ilha, lhe ornam com uma aura divina surreal.

Em meio às cadeiras eletivas do currículo geral da Universidade de Havana, que pudemos visitar (um dos campus mais bonitos e de forte presença arquitetônica que já vi na vida), dispostas em uma lista em um dos prédios administrativos, havia um curso/seminário chamado “O pensamento político de Ernesto ‘Che’ Guevara“. É mais um paradoxo interessante de um corpo universitário que detém uma excelência fora do comum nas áreas da saúde, abriga debates interessantíssimos da FLACSO (Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais) e onde, imagino eu, seria complicado efetivar certos tipos de discussões de matizes diversos – especialmente do ponto de vista econômico. Aqui pode haver um inegável ponto para os críticos e (imagino) um provável sufocamento e ouroboros acadêmicos em torno do tema da Revolução, mas, repito: não sei. Não pude circular por dentro dos prédios da Faculdade de Direito porque, disse-me a segurança, era período de aula e eu não era aluno. Queria ouvir um tantinho que fosse. Fica para a próxima.

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 O lindo e imponente campus da Universidade de Havana

Quando o regime não é dramático e brega em seus protestos oficiais (é definitivamente engraçado, mas um tanto quanto over, o “Rincón de los Cretinos” no Museo de La Revolución, ostentando caricaturas do ex-presidente Fulgêncio Batista, e dos governantes estadunidenses Ronald Reagan, e dos Bushs, pai e filho), consegue realmente impressionar: o monumento “El monte de las banderas” com cento e trinta e oito pavilhões cubanos representando os 138 anos de independência do país (em 2006) e mensagens de libertação e autonomia está colocado defronte o prédio da Central de Imigração dos Estados Unidos (que é estranhamente protegido pela polícia cubana com o maior número de soldados/metro quadrado que pudemos ver pela cidade). Ao largo da praça do monumento, pilares exibem homenagens a personalidades mundiais que lutaram contra o status quo e foram revolucionários em vários sentidos. Há o painel incrivelmente destinado aos americanos e ingleses (Martin Luther King se sobressai), e também aos africanos e latino-americanos (onde Tiradentes divide espaço com Simon Bolívar e San Martin, na falta e um genuíno ‘libertador da América‘ tupiniquim).

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El Monte de Las Banderas: diante dos “olhos do império”

 

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Impossível não se questionar sobre as contradições de um regime que teve seus picos de despotismo em alguns momentos e pensar na legitimidade moral de se estar em Cuba a passeio. As páginas negras do passado de todos os países do globo devem ser abertas e bem lidas, mas se houver a fixação por um tipo de autoritarismo que não se verifica mais ostensiva e cotidianamente, sinceramente não dava para ir para Cuba nem para a maioria dos países capitalistas ocidentais – ver o que a maioria das metrópoles (políticas ou meramente culturais) fez com suas colônias em termos de genocídio e promoção da segregação, ou mesmo ver o que até meados bem incômodos do século XX ocorria em países democráticos em relação à boa parte de sua população faz termos nojo de praticamente todo mapa mundi (e não é privilégio de refugos ‘comunistas’, nem do ‘imperialismo yankee‘, muito menos da hipocrisia européia que banha desde a França até à Bélgica dos chocolates deliciosos e das cervejas trapistas). Há motivação histórica para um camarada não querer ir a Cuba – adiro – mas se o mesmo sujeito recusar a entrada em países de práticas similares – inclusive aquele que mantém um dos únicos campos de concentração assumidos em atividade – que, aliás fica em ____ (nem eu consigo entender. Deixa assim). A dor profunda e incontornável é a ausência de possibilidade de votação ou qualquer tipo de condução mais democrática do processo de governança. Não é sustentável ideologicamente isso e eu jamais estive preparado para qualquer possibilidade de negar essa realidade ou disposto a assumir algum momento onde isso seria coerente. Cair na ilusão do turismo “de corneta” tem sua outra face que é a ilusão do justificacionismo fácil. Não dá. A boa notícia que se pode ter conversando com qualquer cubano é que não há nenhum tipo de treino, robotização ou (tentativa de) lobotomização das pessoas. A maioria do povo sabe muito bem avaliar prós e contras e isso ajuda a apaziguar esse sentimento triste, ainda que essa consciência não redunde em possibilidade de radicalismos variados em uma urna – se bem que, com a crise de representatividade que um país de democracia presidencialista como o Brasil, não sei exatamente se é possível pelear com tanta convicção inabalável nessa linha (em que pese eu siga peleando).

Aos que tem condições e são cadastrados pelo governo, há inclusive a possibilidade de receber turistas em casas num esquema semelhante ao de hostels que vão desde um apartamentinho minúsculo no centro até mansões de mais de um século com movelaria requintada e pé direito gigantesco.

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Sala de estar da casa do Sr. Estebán, que aluga quartos a turistas

 

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Entre um modus operandi soviético dos anos 60 e 70 e a bagunça latina com pitadas da energia caribenha, a segunda opção venceu: Cuba jamais poderia ser um estágio probatório da velha Mãe Rússia eis que o ambiente tétrico da cortina de ferro não cai bem em uma ilha paradisíaca e uma capital que exala libido. Os resquícios toscos são a profusão de automóveis Lada caindo aos pedaços e uma lamentável e proposital dificuldade para se acessar comumente a internet na ilha fora de hotéis (e ainda assim com preços exorbitantes). A valentia surpreendente do MR 26 que galgou florestas e arregimentou o povo à base de peito aberto, ousadia, leitura, carisma e ausência de medo deveria ser levada à sério pelo pós-Castrismo: o que temer na web? Críticas? Denúncias? Apelo do consumismo e inebriar das mentes jovens?

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Guia turístico em Russo: souvenir disputado nas livrarias e sebos

Em uma televisão local de um restaurante, uma coletânea de clipes de artistas latinos. Um deles chama a atenção por exibir uma música pré-fabricada dessas de boy bands dos anos ’10: os cenários são familiares. Nas últimas cenas, em frente ao hotel Tryp Habana Libre, na praça onde está abrigada a deliciosa sorveteria vintage Coppelia, uma multidão de garotinhas adolescentes vibra e se descabela numa beatlemania futurista por quaro rapazotes rebolantes que entendo ser algo como o One Direction local. A linguagem estética do ocidente capitalista está ali (música ruim como todas do tipo e o videoclipe confeccionado com esmero e ares de superprodução, como todos do tipo). Nenhum problema. Os clipes seguintes exibem mais do mesmo: a voluptuosa moça que se esparrama em sépia sobre um piano de cauda no centro de um teatro lamentando a perda do amor e um garotão de terno bem cortado que leva uma mulherada para uma cobertura e uma pool party de onde, usando o celular, liga para mais (ainda) mulheres que brotam das paredes. Estamos mesmo em Havana? Sim. Crianças nas ruas se travestem de Cristiano Ronaldo e Messi em uniformes falsificados que pululam também no Brasil e em todo lugar. O futebol vai virando mania de praças e ruelas interrompido apenas por carros e pedestres.

Havana é monótona apenas em um quesito: o número de contradições e de semelhanças com a realidade brasileira é gigantesco – embora não tão evidente em alguns casos. Nesse sentido, há pouco de novo o que ver para alguém que não é hipócrita ou acredita que o ‘povo’ deve ser deslocado para certas praias para evitar o contato com os cidadãos mais qualificados – como já foi veiculado dias atrás por uma sedizente formadora de opinião do Rio de Janeiro.

É um destino fantástico para ser visitado e assimilado ainda agora enquanto uma extinção dos Castro e uma abertura irrestrita não voltem a fazer da ilha um imenso hotel de luxo a céu aberto para turistas onde as áreas restritas deixarão de ser exceção. No restaurante mais ‘caro’ que fomos e também no mais ‘barato’, via-se grupos de europeus em uma mesa e famílias de cubanos em outras. Defender irrestritamente Cuba em suas falhas clamorosas é uma atitude alienada, como o é deixar de reconhecer que temos (muito) a aprender com eles em uma série de fatores que dizem respeito à alternativas sociais. De certa maneira, algo não me surpreendeu: eu sabia de algum modo que seria essa minha impressão maior, ainda que por um bom tempo eu tenha sucumbido à pressão desinformante e por alguns instantes estava preparado para ir para uma espécie de zona de guerra que não se verificou em praticamente nenhum momento.

A maioria dos cubanos reclama bem menos da vida do que os críticos de ocasião entrevistados a dedo pelos catastrofistas. Não cabe a mim dizer como tem que ser o futuro daquele povo. Mas a sensação é bem melhor do que antes da aterrissagem no aeroporto de nome mais incrível do mundo: eu ficava pensando se em algum aspecto eu teria que voltar concordando integralmente com o Rodrigo Constantino e sigo invicto (felizmente) nesse quesito.

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Casa cubana e varanda que abraça o bairro do Vedado

Há um quesito onde eu poderia dizer que Havana – e Cuba, em geral – é um destino tenso: você pensa. Pensa a todo instante. Olha, assimila, se surpreende. Pensa. Caminha, se admira, sorri, fecha o rosto, fecha o nariz, e pensa. Não é o tipo do destino para descansar, na acepção literal do termo.

Volto mudado de uma forma inesperada e inebriante: quando meus olhos já viam o Mar do Caribe mal o avião levantou vôo do solo, percebi que havia voltado ao mesmo lugar, depois de dar uma volta completa em mim mesmo.

Foi mais ou menos quando (re)lembrei de uma cena pitoresca ao nível inimaginável que presenciei em um dos trechos da Calle Obispo sob as luzes do meio da tarde do primeiro dia do ano: duas senhoras de uns oitenta anos cada davam um show de rebolado sensual em frente um bar onde oma banda de salsa tocava e eram constantemente assediadas para uma dança mais caliente por um senhor que sacolejava tentando equilibrar a falta de uma perna. Todos pareciam levemente embriagados e despudorados de uma forma que indicava que simplesmente resolveram aproveitar um ritmo bem tocado se por a bailar antes de seguir seu rumo.

Não foi o Pedro Juan que desenhou na sua mente insana a cena. Eu vi. Não há nada que derrube essa galera, seja qual o regime político vigente.

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 Velhinhas e homem sem uma das pernas dançam na rua, ao som da salsa

Gocé una vez, de tal suerte
Que gocé cual nunca:—cuando
La sentencia de mi muerte
Leyó el alcalde llorando.

Oigo un suspiro, a través
De las tierras y la mar,
Y no es un suspiro,—es
Que mi hijo va a despertar.

Si dicen que del joyero
Tome la joya mejor,
Tomo a un amigo sincero
Y pongo a un lado el amor.

Yo he visto al águila herida
Volar al azul sereno,
Y morir en su guarida
La vibora del veneno

(José Martí, Versos Sencillos)

Rampa

26 dez

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E, na reforma, tiraram a ‘Pista 13’ da quadra de mini-golf da praça da Igreja em Capão da Canoa.

A ‘Pista 13’ era algo mais ou menos como eu desenhei acima (com o dedo e o uso de um aplicativo vagabundo desses), sobre uma foto atual do local: uma rampa absolutamente inconsequente voltada para rua, cujo “buraco” residia logo após o beiral. Normalmente o pessoal se excedia na força da tacada, o que ocasionava uma bolinha de golfe voando pelos ares do município, cruzando a Rua Andira com velocidade, acertando carros, vidraças e transeuntes.

Não raro ela, a bolinha, invadia a outra quadra a dentro e era furtada por algum moleque.

Saudades dos dias em que esse tipo de coisa era a “confusão” habitual que ocorria na praia.

Hoje as pessoas afundam intermitentemente a buzina do carro em meio a uma tranqueira motivada pela falta de lugares para estacionar.

Em algum momento, entre essas duas realidades, foi o ponto exato onde tudo começou a dar errado nesse lugar do mapa.

Corruptos

28 nov

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Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência não precisa conhecer os meandros da legislação penal para saber que alguém que atira doze vezes em uma pessoa rendida e desarmada não pode em qualquer hipótese conhecida pela imaginação humana estar escudado por ‘legítima defesa‘. Nem nos confins das invencionices mirabolantes criadas exclusivamente para figurar como exemplos na literatura especializada, que é pródiga em inventar causos que se justificam apenas na ficção dos exemplos de sala de aula – e jamais na realidade cotidiana – isso existe.

Os penalistas chegaram a inventar até mesmo uma premissa onde um viticultor hipotético que após cair “dentro da pipa de vinho” e acabar saindo dela intoxicado/embriagado sem intenção, provoca algum crime em virtude específica desse estado. Os penalistas inventaram também a hipótese de uma pessoa ter a sensacional ideia de se fantasiar de leopardo, durante uma caçada em dupla na selva, apenas para aplicar um “trote” em seu amigo e acabar morto por ele, que, nas condições tais, não tinha como agir de outra forma e acaba tendo suprimida sua responsabilidade pelo efetivo homicídio.

Os penalistas já inventaram tudo, menos uma justificativa em sede de legitima defesa para justificar que alguém rendido e desarmado tome doze tiros de uma autoridade. Oxalá jamais inventem.

Mas os penalistas não estão sozinhos no esforço para o mundo da ficção: a rigorosa justiça norte americana, seus processualistas criminais e seus elogiáveis filtros e juízos de prelibação e ainda o cidadão americano que compõe o grande júri de St. Louis, relativo ao condado de Ferguson, no estado de Missouri também estão nessa: consideraram que o policial responsável pelos disparos no jovem Michael Brown, o oficial Darren Wilson, não possui “causa provável” para ser investigado por tal abuso.

Quem não percebe que aqui há mais um caso onde a justiça efetivamente não funciona e que os princípios constitucionais-processuais relativos à ultima ratio criminal são mera fachada para que o abuso se perpetue precisa de um chá amargo de vida real, em três doses diárias.

No Rio de Janeiro onde centenas de Michaels Brown são alvejados nas mesmas condições todos os dias, a vizinhança com algum traficante, o conhecimento de algum traficante, a amizade com algum traficante ou estar comprando laranja na quitanda onde o traficante estiver comprando banana colocam uma série de pessoas na condição análoga à de traficante ou algo que o valha em termos presumidos – o que significa a possibilidade franca para que algum oficial simplesmente lhe metralhe primeiro antes de questionar qualquer coisa, outro fato pitoresco.

Uma agente de trânsito mês passado fora condenada na justiça a prestar indenização a um cidadão. O cidadão? Um magistrado (juiz de direito). A infração/ilícito da agente? Na qualidade de fiscal de trânsito autuou o juiz por ele dirigir sem habilitação, com o automóvel sem emplacamento e com imposto respectivo vencido. Diante da tentativa do argumento de autoridade do membro jurisdicional, o desdém da moça e sua vontade de aplicar a lei normalmente foram seu calvário.

Condenada a pagar uma indenização que supera seu próprio salário, a moça – e todos nós – ainda tivemos que conviver com o deboche de ver a decisão corroborada e reafirmada por um Tribunal que faria corar até o mais salafrário corporativista sem escrúpulos, se essa gente de fato corasse alguma vez na vida.

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Casos como esses deixam claro que nossos elementos identificadores da corrupção devem passar a sofrer uma nova análise: temos sim, cifras monetárias em mente quando se fala em corrupção e não por acaso (e não deixando de lado o seu caráter verdadeiramente alarmante).

Porém, me parece mais grave e mais sintomático de que algo vai mal demais em nosso mundo quando ao invés de olharmos para a raiz dos problemas, miramos a alça apenas na desembocadura nojenta do saldo final. A corrupção está muito mais nuclear no momento-chave onde ela reside do que no produto pernicioso (dinheiro, cargos, propriedades) de sua atividade ou desdobramento – igualmente tenebrosos.

O pior da corrupção é o que ocorre com a santa conivência diária com a franca possibilidade de a lei ou o ‘padrão’ (establishment) simplesmente servirem de pelego constante para abusos notórios. A lei, o “júri”, especificamente,  negou a possibilidade de acusação do policial Wilson. Sabemos por que, em que circunstância, em que situação e devido ao que. Sabemos e diante disso há a indignação ou a cereja corrupta do bolo que apregoa que assim decidiu a instância responsável.

O argumento de que a justiça se faz nas Cortes é volátil: serve a muitos patrões e pode ser maleabilizado a todo instante. Serve para ser constantemente desprezado por quem acha que a morosidade e a “impunidade” reinam absolutas desdenhar do próprio sistema e aplaudir assassinatos em massa e em série (mas não por denominados serial killers), onde todos os defuntos informados pelo telejornal são bandidos e de alguma forma mereciam o destino (jamais vi William Bonner anunciando: “o Bope hoje entrou em conflito com traficantes no Complexo do Alemão e capturou três foragidos, alvejou outros oito delinquentes e infelizmente causou a morte de duas pessoas inocentes”). Todos que são contabilizados são etiquetados com alguma justificativa. O sistema funciona.

Quando no entanto há a situação – rara – de o banco dos réus servir de descanso para traseiros não habituais, opera-se o milagre da confiança no receituário jurídico-processual e a defesa irredutível de todo sistema surge como em um passe de mágica.

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E na dita maior democracia do mundo, um corpo de jurados que considerou inexistente uma causa provável para que seja processado (sequer processado) um policial que atira doze vezes em alguém desarmado com a justificativa de legítima defesa.

A verdadeira corrupção é (literalmente) milenar. Perpassa cada “você sabe com quem está falando?” que ganha um rubor tímido como resposta. Vive em cada “é a palavra de uma autoridade contra a sua” que ganha como revide um olhar triste de resignação. E se energiza, recarrega as baterias diariamente nos travesseiros, meu, seu e do pessoal do grande júri de St. Louis, relativo ao condado de Ferguson, Missouri.

Primeira porta, à esquerda

27 out

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A falácia da ‘máquina pública’ que ‘decide’ eleições em favor do postulante a reeleição para cargos executivos no Brasil é uma faca de dois gumes: sabendo aproveitar bem o caráter estético de ‘mudança‘, somado ao cínico discurso da ‘alternância‘ do poder (usado por quem vai certamente pleitear a ‘permanência‘ anos depois), e da exploração coerente dos pontos fracos de quem esteve na vidraça por quatro anos, qualquer candidato oposicionista tem a esperança de melhorias a seu favor contra algumas inefetividades vistas do seu oponente, que tem que explicar não o que fará, mas o que (ou por que) não ‘fez‘. Ou seja: dependendo do quadro, a posição de quem quer se (re)eleger é até mais espinhosa. Ao outro, a doce missão de prometer e cobrar. Veja-se no Rio Grande do Sul, por exemplo: nunca um governador(a) foi reeleito(a) e o grande público votante se concentra muito mais nas chagas do que a situação não apresentou do que naquilo que porventura ela tenha feito de bom. É quase crônica a toada: é um eleitorado eternamente insatisfeito e birrento que já começa a debulhar o executivo no dia seguinte à primeira alvorada do mandato – e, pelo que se vê, a onda independe de associações ideológicas com governo federal ou região específica.

Considerava essa uma eleição facílima (talvez a primeira com esse caráter desde 2002) para que o PSDB carimbasse sua volta ao Planalto: o PT com doze anos de ‘vitrine‘, povo (ou boa parte dele) com naturais anseios de troca de figurinhas, a total antipatia de alguns setores para com a presidente Dilma (que como figura pública, não se esforça muito para parecer afável…), sua ausência de carisma ‘lulístico‘ mesmo dentre uma grande parcela dos admiradores do PT e, especialmente, escândalos relativos à corrupção tendo o governo federal como fonte e alvo (alguns, bem verdade, fruto de patética boataria revoltosa; outros, tristemente plausíveis e alguns, ainda, comprovados, efetivamente, de forma impactante – e para fins midiáticos, sabemos, as diferenças entre essas categorias não necessariamente importam).

Estava – a meu ver – no papo: contra aqueles paulistas ruins de voto fora de seus currais (Alckmin, Serra), o ‘mineirinho‘ Aécio, respaldado por uma candidatura bem sucedida ao Senado após dois governos estabilizados em sequência, em Minas Gerais (e apesar de não ter conseguido fazer seu sucessor, não há como simplesmente duvidar de um índice alto de aprovação de alguém que foi reeleito com sua massa de votação nas terras mineiras – seria o mesmo que esfregar na cara de um petista a eleição acachapante de Lula em 2006 – com quase 61% dos votos válidos – como se fosse um ‘fracasso’ a ser medido pela meia dúzia que foi de oposição e não pela sua própria vitória). Aécio é jovem, bonito, passa uma imagem de bom moço e traz naturalmente a mensagem de renovação, de choque, e de combate que tanto agrada os detratores do governo petista. E ao seu favor, uma era tucana no governo que passou para a história mais pelos avanços econômicos que orquestrou do que pelas já quase esquecidas denúncias de corrupção maciças que envolveram principalmente os processos de privatizações.

Quando alguém é governo por tanto tempo, a oligofrenia eleitoral, ainda que hajam índices positivos, faz soar o alerta da nova ‘moda’ e a mudança ocorre a despeito dos chorões que porventura se considerem já petrificados nas cadeiras do poder.

O que pode ter dado errado? Por que o PSDB não escorregou docemente nessa ladeira (abaixo) amplamente favorável – em inúmeros aspectos – para ser oposição no Brasil?

A resposta que quero acreditar verdadeira me agrada – em que pese seja uma simples hipótese otimista que como qualquer “resposta” pode ser inconveniente, maniqueísta ou simplesmente ‘errada’: o candidato(a) que quiser tirar o PT do poder precisa – goste ou não – de uma guinada à esquerda. Não é nem ideologia ou convicção, é questão de sobrevivência política.

Aécio durante muito tempo foi o candidato ideal de fãs de colunistas ruins de revistas reacionárias, espalhadores de memes acéfalos nas redes sociais e de campeões de boataria alarmista no WhatsApp: aliado a um mote neoliberal-economicista (como não poderia deixar de ser em relação aos tucanos), era um crítico dos programas e pautas petistas, e repudiava como o diabo foge da cruz temas polêmicos da ‘geração y‘ ligada a novas tendências esquerdistas. Suas posturas relativas à questão da maioridade penal, à questão feminista, ecológica, indigenista e – principalmente – a penetração fantasiosa e mentirosa quadrienal do PSDB em relação à população mais pobre, o colocava com folga na lista dos preferidos de uma boa parcela do eleitorado que é mais grotescamente conservadora do que admite e, sem sectarismos de botequim nem bolchevismos de esquina, se pode dizer, de uma elite econômica.

Ironia: ao final da eleição Aécio largou de mão a insistência diária com a diminuição da maioridade penal que pautava seu material marqueteiro com força e uma visão caolha de ‘meritocracia‘ que só faz sucesso entre os abonados e dondocas, elaborou um panfleto caricato e oportunista dizendo que quer mais ‘diálogo‘ com as minorias, passou de achincalhador de programas como o Bolsa Família a defensor da tese de que foi o seu partido que o ‘inventou‘ e avisou que teria feito um chá de comadre com Marina Silva, para – diz ele –  combinar algumas agendas ‘comuns‘ (sic).

Tarde demais: apesar do apoio da insípida, inodora, e incolor e lisa Marina Silva, herself (que foi à televisão chamar Aécio de “luz de esperança”), grande parte do seu eleitorado que faz oposição ao PT sem aderir entusiasticamente à centro-direita não comprou o discurso. Ou seja: o eleitor de Marina (o genuíno eleitor de Marina, que gostaria em tese de fomentar uma ‘terceira via‘, e não o sujeito que estava confiando nela apenas pelo ‘anti-petismo‘ baseado em pesquisas) não vai com a cara e o cheiro petistas, mas igualmente não se sente confortável em combater o PT votando em Aécio. De repente, Aécio perdeu o brilho e a eleição até mesmo para o ‘voto crítico‘ em Dilma de uma boa parcela de ressentidos (esse é um dado incrível: a forma como o PT conseguiu garimpar oposições à direita e à esquerda ao longo dos anos, e como a da esquerda é inclusive mais forte e incisiva, em que pese tenha votado ‘13‘ fazendo beicinho no segundo turno).

O eleitor ‘anti-petista’ sentiu na reta final mais confiança no seu candidato natural (Aécio) do que na novidade a ser ‘engolida’, talvez (Marina). Isso explica a subida de Aécio ao posto que sempre foi dele: o de postulante à presidência com algo entre 30 e 50% dos votos, e a queda de Marina que era uma espécie de opção desesperada para aecistas que previam que o seu barco poderia afundar. Quero crer que ficaram até o fim com Marina uma maioria de pessoas que não confia nem nos tucanos nem nos petistas e é um número considerável: 21% dos votos do país.

Esses 21% precisavam ser disputados a tapa por Aécio e para isso ele precisaria provar que valeria nele um voto de confiança dessa parcela que nitidamente era mais simpática ao PT do que a ele, mas sem dúvida já não é tão simpática assim ao canto da sereia petista.

Grande questão a ser debatida nas instâncias internas tucanas: ou o partido passa finalmente a assumir que precisa de ajustes na sua lataria, ou a coisa seguirá difícil para seus lados. Ao invés de se preocupar com apenas seus torcedores fiéis, deveria se preocupar em tentar ao menos em parcela ser uma opção séria para uma gama de novos eleitores não muito entusiasmados com ninguém e/ou uma parcela da população que não mais está influenciada pelo universo pré-Fernando Henrique e/ou pré-Lula na hora de teclar na urna.

 

Se eu fosse Aécio, o PSDB em geral, assumiria as vestes de um efetivo liberalismo político (que tem mais em comum com uma ‘nova esquerda‘ do que alguns gostariam de assumir), e não apenas de um liberalismo econômico que se traduz toscamente no Brasil em laissez-faire do grande capital especulativo internacional e do agrobusiness. Procuraria acertar as contas com uma gama de descontentes com o PT que não estão confortáveis em subir nos mesmos palanques que Pastores e cães raivosos da ultra-direita. Eles são uma fatia imensa do eleitorado (contando, repito, que depois do crescimento de Aécio, ficaram com Marina aqueles que a queriam de fato, e não os meramente ‘anti-‘). Os votos dessa parcela jovem e já de saco cheio do petismo messiânico de outrora é muito mais interessante do que alguns dos votos da mega-direita conservadora. A questão é escolher se você quer propor verdadeiras mudanças, e partir par uma saudável reinvenção vitoriosa, ou seguir agradando o Lobão, o Constantino e aquela sua tia milionária. E se o PT sabe jogar esse jogo, em último caso, o PSDB teria que aprender também: mesmo alguns esquerdistas dissidentes que não se entusiasmam mais com o PT votam 13 quando a coisa aperta. Aderir a algumas pautas-teira de aranha de indecisos e se mostrar um pouco mais simpático a causas sociais não faria o PSDB perder, simplesmente, votos de boa parte do empresariado.

Alguns débeis-mentais iriam ‘acusar’ o PSDB de estar se ‘vendendo‘ ao suposto grande golpe comunista global que (como Olavo e todos sabem) está dominando o mundo (…): esses são os sujeitos que deveriam ser literalmente deixados falando sozinhos. No instante em que até Fernando Henrique Cardoso está discutindo coisas como alternativas à política de drogas, não leva a nada seguir fomentando esse tipo de tolice como mote ideológico. Eles não precisam ser prestigiados. São indigentes mentais. O PSDB precisaria ganhar a confiança de uma boa parte de pessoas que foi de Dilma sem muita vontade – dada a própria pecha de que ‘dos males, o menor’: por mais que tenha havido uma esdrúxula transfiguração do PT nos últimos tempos, o partido ainda, em tese, de esquerda representa o mínimo dos mínimos de uma postura como essa que tem alguma chance de alguma coisa em patamares executivos federais, por hora.

 

Se chutasse para o alto pautas que agradam apenas a um eleitorado oligofrênico que vê uma venezuelização cotidiana em tudo que ocorre no país e se mostrasse seriamente a fim de dar alguns pequenos braços a torcer e bancasse algumas pautas que simbolizassem uma efetiva ‘mudança’ (aproveitando-se inclusive de poder jogar na roda o baixo ‘esquerdismo’ que o próprio PT federal ostenta ultimamente), Aécio teria complicado a eleição bem mais do que alguns boatos semanais da Veja que saíram pela culatra – ou pela tangente.

Óbvio que mesmo alguns petistas ‘adormecidos’ ou eleitores posicionados mais à esquerda, como a (ainda) pequena, mas (já) bastante expressiva votação do PSOL (1,55% dos votos válidos do primeiro turno) jamais irão dar seu voto (literal e de ‘confiança’) a um tucano. Mas igualmente não são esses votos que o PSDB precisaria para ampliar sua margem.

A disputa da próxima eleição presidencial poderá ser deliciosa: uma disputa entre um partido de esquerda lutando para parecer como tal em ano eleitoral e um partido de centro-direita tentando fazer uma rehab de algumas de suas agendas conservadoras que não lhe dão nada de bom em troca, buscando se mostrar confiável para quem não quer ir para a direita, mas também não está tranquilo em se abraçar com o partido da estrela.

Quem sabe teremos um dia, uma eleição entre um efetivo partido de esquerda, batalhada contra uma (verdadeira) social-democracia com pitadas esquerdistas (pero no mucho), ladeados por partidos mais setorizados, onde ninguém se importe com boatarias chinfrins, religiosos lunáticos, lobistas gananciosos e militares psicóticos, e onde o que interessa de fato é discutido?

O (ainda) sucesso do PT traz algo de muito positivo para um panorama futuro: a esquerdização das discussões e  (possível) consciência de que algumas pautas da ‘direita’ brasileira não são pautas, são pura e simplesmente pagação de mico em vários sentidos.

O fato de a eleição ter terminado com praticamente ninguém discordando da necessidade, efetividade e sucesso (apesar de necessárias melhorias e implementos) dos programas sociais do PT é um excelente sinal nesse sentido: o binômio Lula-Dilma trouxe para o lado canhoto do mapa o debate político nacional. A estratégia de Aécio é errada no instante em que não considera essa realidade. Há que se jogar no campo do adversário: ele detém a bola, o favoritismo e a torcida nesse momento. Pensar que o debate não inicia por agendas sociais e pelo que de ‘petismo’ que será mantido é um tiro no pé de qualquer opositor.

O PSDB terá que ‘petralhar‘? Um pouco: não adianta querer simplesmente na última semana de governo tentar se vestir de ‘pobre’ e de socialmente ‘consciente’ ao concorrer com quem faz isso a vida toda. Há quatro anos pela frente para que o PSDB faça o que Aécio reclamou em todos os debates: ser “generoso” e admitir os pontos altos do adversário. Simplesmente dizer que vai “manter o Minha casa, minha vida” é muito pouco. Há um eleitorado que pende para a esquerda – teoricamente – que precisa de mimos e de promissórias sólidas. Se o PSDB quiser seguir jogando desse jeito, o resultado está aí: nem de uma Dilma com cara de buldogue e com escândalos batendo à porta ele consegue vencer, no fim das contas.

Ou, bem, eu estou ficando louco e na próxima eleição algum pasto xiita escoltado por algum fanático que vive ainda nos tempos do macarthismo aparece defendendo (de novo)  pena de morte e ganha com adesão maciça dos anti-sei lá o que. Vai saber.

PAUTAS, PARA QUE TE QUERO

9 out

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O debate político pós-surpresas do primeiro turno da temporada 2014 do sufrágio brasileiro está beirando o genocídio mútuo de facções e corações.

De tempos em tempos algumas polarizações se acentuam a ponto de gerar rivalidades que, ao contrário daquelas futebolísticas, são suprimidas ou esfumaçadas pelo final de domingo e a necessidade de acordar cedo para o batente no dia seguinte, parecem gerar um clima de conflito religioso em graus maiores do que o recomendado. Ocorre agora, com uma das mais evidentes contendas dos últimos tempos, onde o ‘desafiante’ Aécio Neves, ostentando shape de novidade, no corner direito, procura tirar o cinturão da campeão Dilma Roussef, cuja companhia segue invicta há 12 anos e três rodadas. Partidóides de uma direita pouco esclarecida e pouco liberal e centristas loucos por uma caneta e alguns carguinhos não têm pudores de se aliar ao desafiante esperando recompensa. Algumas agremiações com discursos voltados para a Petrogrado de 1921 relutam um pouco, fazem manha e segredo, mas, sabemos, vão com a atual campeã e nela apostam seus rublos.

A tarefa, no entanto, é mais importante, aqui: a cegueira branca (ecos de Saramago) que os bons defensores de seus modelos para que o país prospere e o mundo melhore acaba redundando numa guerra de golpes incertos e está instaurado no debate público uma espécie de olho por olho: como vaticinou Gandhi, o olho por olho que nos deixará cegos, pelas tantas, tem feito suas primeiras vítimas no olho bom da maioria da plebe que parece inapta para deixar algumas coisas claras sobre a mesa.

Há uma série de coisas que me preocupa em relação à inviabilidade de diálogo e à possibilidade de que por birra – sim, pura e simples – não possa haver um entendimento mínimo de denominador comum em relação a alguns avanços técnicos, ideológicos e democráticos que possamos ostentar a essa altura do campeonato.

Sem procurar ser um fanático passivo da conciliação – postura que meu amigo Moysés é certeiro em definir como “fanatismo de centro” (e que, aliás, é perita em disfarçar a sua condição de ‘postura’, como se fosse possível ser uma Suíça neutra em termos de argumentatividade – aliás, como se a própria Suíça, berço da lavagem de dinheiro elegante do mundo e da evasão de divisas cool, para onde papas do white collar peregrinam e giram em torno de uma agência bancária ao menos uma vez na vida – bem, deixa para lá).

A ideia não reside em simplesmente querer aparar arestas de qualquer jeito e amalgamar políticas em prol do “crianças, não briguem“.

Ao contrário: respeitando diferenças ideológicas, creio que algumas pautas são suprassumos republicano-democrático-éticos dos quais nenhuma postura séria pode abrir mão se quiser governar um país como o nosso. Creio que algumas coisas ambas partes, por mais que rivais, deviam combinar que não iam descartar – bem como outras, duelantes honestos certamente concordariam em rechaçar totalmente.

Há questões que, embora possam ser temas de “estimação” de esquerda e direita, na verdade devem ser predicados de qualquer um – e deveriam gerar rejeição e vergonha para aqueles que não as assumem. Procurarei listar cinco que me parecem representar o quesito:

1. A completa rejeição de espólios fascistas da ditadura militar – e a ridicularização de seus partidários:

 

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Lobão e Gentili: para quem a ditadura pegou “leve” com os “esquerdopatas” e apenas “arrancou umas unhazinhas, aqui e ali”

 

Como a ditadura brasileira que operou da metade da década de 60 até meados da década de 80 teve como um de seus motes um combate remoto ao ‘avanço’ comunista em países latinos, é mais do que identificável os ranços direitistas em seus (não poucos) saudosistas. Na verdade, ainda que longe do radar fundamental da guerra fria, os EUA não perderiam a chance de mandaletes bem fornidos encamparem qualquer respiro democrático voltado às agendas sociais no período e jogou com apoio e bastidores em relação a dominações militares que – todas elas – tinham como premissa manter a “ordem”.

Diante de um panorama de oposição – não raro oposição guerrilheira – cunhado por grupos de inspiração em predicados comunistas, muitos seguem polarizando questões relativas à anti-democracia ditatorial, no Brasil, como se fosse uma questão de “esquerda” (transplantando a lógica guerrilheira para partidos que abrigaram alguns daqueles opositores depois da abertura democrática) contra a “direita” (focalizando, igualmente, o espólio de recursos humanos dos círculos militares e seus sustentáculos nas agremiações que os agasalharam após a Anistia).

É fato que certas coisas não mudam e que certos personagens seguem peleando, vívidos, nas mesmas trincheiras distintas.

Ocorre que para a sanidade mental da política brasileira, é preciso de uma vez por todas tomar partido em relação a isso: vivemos em uma democracia e é preciso que isso seja defendido no ponto de vista estratégico com unhas e dentes. Não há espaço para “debates” sobre a legitimidade ou não de ideias, práticas, fatos e acontecimentos outorgados por baionetas e torturas por ditadores corruptos e assassinos.

Aceitar” ou (mais grave) “glorificar” relicários ditatoriais é grave. É um erro. É canalhice.

Lutar contra a ditadura e seus resquícios e seus bizarros personagens tenebrosos, não é uma característica intrínseca da “esquerda” ou do “PT” (para que alguns entendam): é uma luta de qualquer um com um mínimo de consciência cívica. Grandes e conhecidos nomes da esfera da discussão política brasileira – passando por nomes curiosos para alguns, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e mesmo Miriam Leitão – foram alvo (de vários tipos de maneiras e gradações) de perseguições pelo governo militar-ditatorial. Vidas foram perdidas (aos ontes. Aos borbotões. Ao nível do repugnante), e uma estrutura de exploração político-econômica foi criada, a corrupção – ao contrário do que mentirosamente é propagado por alguns – correu sem freio por um aparato que não distingue ordens administrativas, legislativas e especialmente policialescas.

Ao aceitar que alguns ramos de partidos políticos conservadores defendam ou contraponham eventos de resistência e que até hoje, em menor e diferente escala, “persigam” os flagelados de um governo sem regras, sem pluralidade, sem escrúpulos e sem qualquer respeito pela soma mais básica de direitos fundamentais, nos tornamos mais idiotas.

Sim, movimentos como a “Comissão da Verdade” não são imparciais – porque a Anistia (de fachada) concedida para aliviar a barra dos militares como se tudo aquilo daqueles vinte anos se resumisse em um sonho ruim de uma noite de gastrite foi estupida e aberrantemente parcial. A luta pela verdade, pelo esclarecimento e por colocar esse tipo de lixo (humano e ideológico) no seu devido lugar é propriedade de todos. Se você é mais um que acha que “deve” se posicionar em oposição a isso porque crê que isso é um tópico exclusivamente de alas mais antigas dos partidos esquerdistas, você está causando problemas para todos. Repense.

Caso você se sinta excitado(a) com alguns fetiches fascistas, eu reformulo a frase: repense, é uma ordem.

Se você quiser ler mais, já escrevi sobre isso em outra oportunidade –> aqui

 

 

2. A luta contra discriminações de todo gênero – número e grau…

 

 

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Praticamente todo dia pessoas são espancadas em virtude de raça, cor, gênero e opção sexual. Não, ser a favor disso não é uma “opinião”.

 

Muitos partidos de esquerda abraçam de forma fraterna causas de minorias excluídas e, ultimamente, têm dado ênfase ao combate à exclusão e à segregação de gênero e/ou preferência sexual propagando a ideia de que é preciso haver uma guinada cultural no quesito.

Isso é o ponto de partida para que militantes que não simpatizam ideologias correlatas a essa base partidária associem burramente a ideia de que sua visão antípoda precisa necessariamente funcionar como um negativo fotográfico da outra e voilá: defender (exemplo) os direitos de grupos LGBTs, por exemplo, passa a ser uma “pauta de esquerda” para o que a defesa (alguém por favor me explica isso) dos direitos feridos (?) da maioria heterossexualizada-ortodoxa passa a ser uma profissão de fé contrária.

Não tenho sequer meios de me expressar em relação a esse tipo de coisa. Diante das votações estrondosas que parlamentares que ostentam discursos eminentemente discriminatórios, o tema é grave: pessoas se sentem legitimadas a levantar bandeiras preconceituosas tendo como base de raciocínio (sic…) o simples fato de quem seus “inimigos” estão ostentando as prerrogativas inversas. Os discursos que ganham respaldo impressionante nas urnas, repito, assustam. Deveriam assustar qualquer um. – por vezes assumidos de forma tosca, por outros, disfarçados estupidamente de crítica a uma “monotonia politicamente correta” e geralmente tapeados sob a maquiagem de “bom humor“.

É lamentável que em rede nacional um Levy Fidelix e um Bolsonaro ganhem “apoio” ostensivo (ou mesmo discreto) de alguns diante das tolices e símbolos de ignorância que costumam proferir a cada vez que lhes é alcançado um microfone. Varrer do mapa esse tipo de anedota lamentável do cotidiano ideológico brasileiro é tarefa de qualquer ser ou entidade partidária que se julgue capaz de se sustentar em democracia.

Não há lastro democrático que possa servir para a veiculação de discursos de ódio extremista como se o manto da “liberdade de expressão” fosse na verdade um escudo de impunidade para que crimes e covardia pudessem se perpetuar à luz do dia sem que ninguém possa fazer nada.

É tenso e grave que em um caldo já fervente de uma cultura machista, misógina e homofóbica – carente de respeito mínimo à outridade – se tenha reforços ignóbeis de pessoas que acham que essas bestas quadradas são símbolos de “rebeldia” e “irreverência”. Rebeldia à favor da maré e pegando carona no moralismo? Desculpe, santa. Nunca vi.

Quando defendem – até mesmo “juridicamente” o preconceito e a homofobia eu fico bege. Já escrevi sobre isso outras vezes, por exemplo –> aqui 

 

 

3. (Des)Aparelhamento de instâncias de Estado e profissionalização das instâncias administrativas:

 

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Governos que promovem “desmanches” técnicos da gestão anterior apenas como medida revanchista: controlem sua dor de cotovelo

 

 

Atenção partidos de esquerda: chega aqui. De boa.

Eu sei, não são vocês que exclusivamente invetaram nem sofrem desse mal. Mas as coalizões que gravitam em torno da órbita do Partido dos Trabalhadores têm sido peritas nos últimos e vitoriosos anos em aperfeiçoar a arte de distribuir carguinhos técnicos e potencializar gastos em relação a órgãos estatais.

Nem tudo da lógica “empresarial” é busca demoníaca e inescrupulosa de lucros e sobrepujar do sangue humano em prol do capital. Há bons exemplos – e bons motivos para que representantes do empresariado arranquem cabelos e fibrilem no peito em relação a algumas posições estratégicas que são ocupadas no grande tabuleiro de War que é a administração pública brasileira. A lógica do compadrio é espúria. Precisa ser fiscalizada e corroída, de um lado e de outro.

A tentação é grande em prestigiar correligionários históricos e em desferir “tapas de luva” retóricos em relação a alguns cargos que são exibidos como uma colocação privilegiada no brinquedo do parquinho na última volta dele antes do final do horário. O problema é que alguns exercícios e competências técnicas e hábeis (vários sentidos) precisam ser suprapartidárias para sobreviver bem, sem ajuda de aparelhos, sem embustes e sem resultados desastrosos.

A vontade de mandar um “beijinho no ombro” para as “inimigas” faz com que a cada gestão (um mal que a direita também perpetua, portanto) uma massa gigantesca de funcionalismo – e alguns com relevância de gestores ou de comando tático – seja simplesmente convidada a limpar a gaveta diante da substituição das cores da bandeira no mastro. Natural que haja realocações e remanejos, mas a forma como parece imperativo que cada governo diferente tenha desesperadamente que repensar todo o quadro de políticas públicas (o que dá uma noção da falta de noção de muitos sobre o que são políticas públicas) e o time de gestores é bisonha.

Tirante as alegações de corrupção, não há como não associar episódios dantescos como os desmandos relativos à Petrobras e seus gastos – que muito tem de repasse “camarada” – a falta e profissionalização extrema nos cargos-base de uma estatal daquela potência. E é melhor que os petistas de agora e do futuro não tentem dar (revira)voltas para explicar a existência de mais de trinta ministérios. E bom que esse não seja um dos legados que um eventual governo tucano a partir da próxima legislatura não se acomode em manter.

 

4. A questão ecológica – e não meramente sustentável

 

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O “simpático” Eduardo Jorge: ligação histórica e umbilical com partidos de centro-direita e propostas mais à esquerda do que as de Dilma

 

Muito do que se fala em relação a um desenvolvimento “sustentável” nada mais é do que a falta de coragem para o efetivo abandono de premissas destruidoras do planeta e uma espécie de mini-mea culpa onde ao invés de propor um desenvolvimentismo atroz, os atores adotem um discurso de “ok, vamos cuidar um pouquinho para não mudarmos em nada o nosso roteiro, mas tratando de sermos mais silenciosos”.

Não creio que haja esse ovo da serpente em todas as medidas redutoras de danos e autoproclamadas “sustentáveis”. Mas o fato é que a pauta ecológica merece um abraço radical como se você, tucano (inspire-se no mascote) ou petista fosse um hippie holístico e a temática fosse a árvore querida do Serguei.

É hora de levar a sério as agendas ambientalistas, medida que rende como efeitos colaterais maior qualidade de vida, maior acômodo climático, maior possibilidade de aplacar a fome de modo saudável e barato (e impassível diante de tentativas de patentização ou privatização de gêneros a ponto de catalogar a própria natureza em si). Mais ecologia é mais educação em termos da biosfera que nos abriga (em visão ampla) e mais saúde a invadir nossos pulmões, olhos e papilas gustativas.

É mais consciência na produção, plantio, criação, respeito e preservação. É mais sabedoria e mais aprendizado. É mais cultura, rebocada necessariamente por um sentimento de pertença que faz você compreender que a tolice cartesiana de que o homem é o “senhor e possuidor da natureza”, atrelada à estultice religiosa de que “Deus escolheu o homem dentre todos os seres” são decididamente um caminho hipócrita e errôneo.

São sendas de desenvolvimento interessantes: enquanto em países terceiromundistas a pauta ecológica é quase sempre ofertada por propostas ligadas à esquerda clássica e a partidos com representação majoritária pífia (que têm que conviver com as agruras de um capitalismo selvagem que enxerga uma esponja de dinheiro para ser drenada em cada centímetro cúbico de campo), em países desenvolvidos, o grande capital já percebeu os lucros pontificados pela adoção de métodos limpos e saudáveis de produção e a melhora na qualidade de vida relativa ao estímulo de consumos mais limitados, orgânicos e inteligentes. Não é bem uma opção ideal e idealista. Mas é um estímulo e tanto. E é uma tendência. A tecnologia é aliada retórica, enquanto que setores da esquerda reclamam, bem, de diminuição de postos de emprego. Nada e novo no front.

Os panoramas não são exatamente tão dicotômicos assim, mas questões relativas à preservação da história e da memória cultural igualmente contidas em santuários ecológicos e a procura por aprendizado milenar em relação à mãe terra que nos cerca não pode ser uma preocupação polarizada na base do anti- : se isso é um ponto de interesse “deles”, o meu é o ponto oposto. Isso é infantil e, ademais, cara pálida: já adquiriu seus terrenos na Lua e sua cabine na Estação Espacial mais em conta para seu pacote de turismo? O que é “eles” quando estamos falando do maior âmbito do “nós” que se pode conceber?

Uma das coisas mais incríveis já concebidas – e uma proposta política fraterna que denota “culhão” dos governantes é a Lei da Mãe Terra, que, basicamente, redefine elementos ecológicos e reservas e estabelece depósitos minerais como “bençãos” e os confere “direitos” como “direito à vida” e “direito à manutenção dos ciclos de regeneração”. Claro: foi uma lei aprovada no governo de Evo Morales na Bolívia, o que lhe confere altíssimas chances de ser ridicularizada por pessoas que fazem questão de não se informar sobre o que está de fato sendo alvo de seu deboche.

E que tal se todos passássemos a pressionar candidatos e bases partidárias para que se adotem medidas relativas a um verdadeiro compromisso ecológico? Setores de todas as ideologias esbarram em lobbies, engessamento de setores e falta de ímpeto para peitar certas lógicas e a gama de investimento sedento por resultados inconsequentes que lhes serve de sombra.

 

 

5. O “direito à cidade” e a mobilidade urbana:

 

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Não é Berlin. Nem Amsterdam. Nem Viena. Nem Montreal. Nem Portland. É Bogotá. Sim, aquela.

 

 

Responda rápido: o que possuem em comum um economista-administrador ex-prefeito de uma grande metrópole latinoamericana famosa por densidade demográfica, poluição, picos preocupantes de desemprego e criminalidade que tem uma formação liberal (no sentido político) e estudo e aperfeiçoamento em universidades conservadoras dos Estados Unidos e da Europa com um (atual) prefeito de uma grande metrópole latinoamericana famosa por densidade demográfica, poluição, picos preocupantes de desemprego e criminalidade, que possui formação jurídico-político-filosófica calcada na análise frankfurtiana do marxismo e milita em um partido de esquerda brasileiro?

O ex-prefeito de Bogotá Enrique Peñalosa e o prefeito paulista Fernando Haddad pode ter origens, destinos (Peñalosa agora milita no Partido Verde Colombiano – já foi Liberal e independente) e métodos de leitura social diferentes. Podem ter interesses diferentes (Peñalosa é citado em todo mundo pela pauta do urbanismo pós-moderno e pelo arrojo de algumas ideias – que lhe rendem palestras lotadas nos quatro cantos da terra). Podem ter posições diferentes (enquanto o opositor anterior de Peñalosa, Antanas Mockus, certamente, com ou sem intenção benevolente, pavimentou – literal e metaforicamente – alguns pontos políticos importantes para o lançamento de seus próprios planos, Haddad foi o próximo a ocupar o trono da guerra entre PT e PSDB que costuma fazer terra arrasada da administração anterior e procura dificultar a vida do ocupante posterior). Mas ambos se embretaram em uma polêmica que lhes fez perder popularidade por um bom tempo.

Peñalosa saiu fortalecido demais da queda de braço. Estava com a razão. Veremos se Haddad conseguirá o mesmo. Torço para que sim, e nessa afirmação não há nada de necessariamente “petista”.

Haddad pode colocar a pá de cal definitiva e midiática no seu governo que neste início/meio de legislatura não atinge índices satisfatórios e convincentes de aprovação popular. Ou pode se consagrar como um prefeito que compra certas brigas em prol de causar rupturas necessárias, do tipo daquelas que no futuro serão lembradas com carinho e agradecimento.

A ideia de incrustar artérias de ciclofaixas em meio ao trânsito caótico de São Paulo – uma apavorante megalópole cotada entre as cinco maiores cidades do mundo – pode parecer uma ideia tão anti-funcional e estúpida quanto fazer isso na…Bogotá dos anos 90.

A série de mudanças que algumas legislaturas municipais implementaram na capital colombiana foram paulatinamente fazendo os índices de inclusão e alfabetização aumentarem, os índices criminais diminuírem, as demandas por condições de transporte e serviços públicos serem supridas, até que a cereja política do bolo da nova era foi singelamente colocada por Peñalosa: a cidade ia priorizar o seu pedestre e o seu ciclista frente ao seu motorista, em larga escala, à fim de conferir dignidade à alternativa, e de estimular a adoção de uma locomoção urbana mais segura, prazerosa e, por que não dizer, menos automática e insensível.

Obviamente as políticas de revitalização de espaços públicos entraram em choque com alguns interesses privados e alguns dogmas conservadores (de esquerda tanto quanto de direita): desapropriações, remodelações, remexes, outorga de projetos…supressão de supostos direitos. Sim: não há dúvida que as pessoas já incorporaram tantos hábitos ao seu modus vivendi de modo tão enraizado que hoje é difícil separar o que é o que. Pense rápido: trafegar de automóvel particular é um “direito”? Cuidado com a resposta: o automóvel é uma realidade inexorável dos centros urbanos. E é um meio de transporte útil às pampas. Agora, necessariamente, não é incontestável que o trânsito automotivo seja uma agenda nuclear de como a gestão pública deva pensar 100% da mobilidade das cidades. E mais: trafegar (e, diabos, estacionar) não é um “direito fundamental” do cidadão.

Conferir dignidade e estimulo ao uso de alternativas de trânsito citadino só pode ser um tipo de política futurista em uma cidade onde o trânsito automotivo cada vez mais se assemelha ao de carruagens, carroças ou proto-carretas da idade da pedra. A cidade inteira é pensada pela política tradicional como um mar obtuso onde tudo ao redor ou é cenário inútil ou é obstáculo entre os seus pontos prediletos de partida e chegada. E as pessoas são displays – ou figurantes.

Uma política que estimule o cuidado com os bens públicos, o respeito ao próximo, a gentileza, a educação e a “urbanidade” (que na teoria é sinônimo de cavalheirismo, tal e qual dos finos habitantes da “urbe“, enquanto que a “vileza” ou “vilania“, típica do habitantes da “vila“) não pode dar certo se a cidade for um mero deserto, um ferro velho ético de concreto, aço e combustível que não é incorporada e não incorpora ninguém.

Pode parecer pouco, mas a transformação potencial a ser causada por projetos que façam o vivente retomar para si a cidade é traço fundamental de uma existência coletiva ética e cidadã. Colocado em situação de fragilidade, o pedestre ou ciclista tem a simpatia e o desprendimento quase que como linguagem e tem a educação e a prudência como questões de sobrevivência.

O dogma internético de que em um país verdadeiramente “próspero” não é o pobre que tem condições de ostentar um carro novo, mas sim o rico que tem o uso de meios públicos de transporte como hábito é empiricamente verdadeiro.

Não se pode acoplar realidades distintas (políticas, econômicas, sociais) como se todas fossem soluções mágicas e prontas sem qualquer tipo de ajuste político-cultural. Mas já é hora de tentarmos trazer para nossa “casa” os exemplos que admiramos em lugares que são vencedores em seus quesitos.

Nesse ponto, tanto o Brasil-Potência de Dilma – onde a aquisição de um carro é sinônimo de elevação social, quanto o ranço burro de alguns conservadores de base direitista, como se pautas de mobilidade urbana fossem “estratégias bolivarianas” me causam bocejos.

Essa luta é de todos. Esse debate tem que ser de todos. E, se for o caso, o abandono dessa ideia (uma lástima) deveria ser de todos, mas não antes de ser discutido com consciência e mente aberta. Já cansei até de escrever sobre isso. Um exemplo está, para quem quiser ver —> aqui.

A “Ditadura do politicamente correto” não existe.

16 set

Pink Floyd The Wall hammers

 

Procurarei ser rápido (porém não rasteiro):

Pessoas que advogam a tese de que vivemos em um mundo cooptado por uma “ditadura do politicamente correto” quase (quase) sempre são pessoas que dão pouca ou menor importância para as ditaduras evidentemente reais que assolam ou assolaram a vida. Quando não são entusiastas ‘morais e cívicos’ de discutíveis factoides sobre como a vida era ‘melhor’ no tempo da – não perderei mais uma linha com essa bobagem.

O fato é que ‘ditadura’, real (e dolorosa) ou como figura retórica (e não menos violenta) é algo que poderia se aplicar em relação a um paradigma onde haja dominação, terror, supressão de toda e qualquer liberdade instituída, perseguição, exceção, morte, e um fanatismo por uma certa ordem que emana do(s) ditador(es) – além da defesa desse status quo de modo raivoso e tendente a exterminar qualquer partícula de ameaça de alteração dos fatores prescritos.

Não vivemos – e estamos há anos luz de, aliás – em uma “ditadura do politicamente correto”, pelo simples fato de que o “politicamente correto” está longe de se implementar enquanto regra.

Uma coisa, no entanto, o termo “ditadura” tem, em muito, a ver com o debate: maximizar todo e qualquer princípio de opinião divergente como se fosse um “perigo” à “ordem estabelecida” e a justificar maior intensidade é, sim, uma das práticas mais recorrentes. De um “ditador”.

Tenho escutado as mais variadas tolices em relação à questão: diante das recentes manifestações em torno da questão do racismo no futebol brasileiro, por exemplo, ouvi mais de uma pessoa afirmar categoricamente que “daqui há pouco, a torcida de futebol vai precisar se comportar como uma torcida de partida de tênis em virtude da ‘ditadura do politicamente correto'”.

Até agora não entendo a relação entre torcer e necessariamente poder chamar pessoas de pele escura de ‘macaco’, como se esse tipo de coisa fosse uma espécie de mínimo razoável essencial relativo à torcida no futebol, e como se sem isso o fato de ir a um estádio fosse um passatempo vazio de sua alma essencial.

Dia desses vi em algum lugar que o proto-humorista e imbecil Danilo Gentili vai ter um programa televisivo de nome “Politicamente Incorreto“. É mais um fator lamentável dessa contenda: hoje em dia, não só alguns bobos reclamam da “ditadura do politicamente incorreto” como se julgam ‘outsiders‘ quando justamente defendem a normalidade contra a verdadeira crítica.

Não existe “ditadura do politicamente correto”: o que existe é um bando de idiotas chorões que diante de um mínimo questionamento de sua mentalidade chinfrim correm para a barra da saia do sofisma, e agem como uma criança mimada que só entra em jogos em que possa necessariamente vencer os coleguinhas ou sair com a bola sob a axila decretando a ‘nulidade’ da contenda quando lhes é conveniente.

Que época: ignóbeis, burros, fascistóides, dementes, descarados e perversinhos em compota ficam inconformados diante da menor chance de se descobrirem frente ao que são.

Façam o seguinte: esperem uns 1032 anos até que as convenções chamadas ‘politicamente corretas’ (depreciativamente…) por alguns se estabeleçam como parâmetro ‘normal’, e não como defesa necessária de alguns valores que precisam – sim – mudar. Daí comecem a talvez choramingar com um pouco mais de propriedade.

Pensa um pouquinho

22 ago

progress

 

Gostaria que você, na data de hoje (22 de Agosto de 2014), prestasse atenção em duas coisas:

Uma, é essa foto que faz um paralelo triste e consegue viajar 50 anos no tempo: conflitos civis envolvendo abuso policial com tempero de segregação racial, nos Estados Unidos, ontem, hoje. A impressão é aquela, fácil, prosaica: nos 50 anos que separam as fotos lamentavelmente irmãs, o que, efetivamente, mudou?

Outra, é esse pedacinho de texto extraído da coluna do Juremir Machado da Silva no Correio do Povo também de hoje:

“O Brasil tem a quarta população carcerária do mundo. O lacerdinha fica decepcionado. Queria que fosse logo a primeira. Dessa imensa massa de presidiários, 80% são negros. Seria a prisão um sistema de hierarquia social e racial nesse país dito sem preconceitos? O Rio Grande do Sul, que já traiu os negros na Revolução Farroupilha, massacrando-os em Porongos, tem 45% de sua clientela carcerária composta de afrodescendentes, embora estes representem apenas 18% da população do Estado. Cruel assim”.

Em palestra essa semana, na Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo, o Juiz de Direito Sidinei Brzuska – velho ‘combatente’ da infernal questão carcerária brasileira – apresenta seus dados sempre chocantes, e sempre com índices periodicamente renováveis, para pior:

Trabalhemos com apenas um deles: dos pouco mais de três mil apenados atuais confinados no Presídio Central de Porto Alegre-RS, dois mil quatrocentos e quarenta e seis (não perca as contas: 2.446 de pouco mais de 3.000) cumprem pena pelo delito de ‘tráfico de entorpecentes’ (vivificaram alguns dos incontáveis verbos-nucleares do Art. 33 da lei 11.343/06.

Desses, imagino ou (sem disposição estatística ou empírica, mas odiosamente próximo da realidade), uma margem de uns 92% é composta de aviõezinhos, ‘buchas’, soldadinhos, guardinha de boca, mandaletes, primos/vizinhos que assumiram a bronca do foragido, pivetes e passadores de dolinha.

Desses, uns 70% são negros, necessariamente pobres e integrante dos quase 75% do quadro de apenados que não tem o primeiro grau completo.

Desses – dados imaginativos meus – NENHUM (o que corresponde a 0,0%) é candidato a presidente, deputado federal, advogado tributarista, grande empreendedor e CEO de porra nenhuma, em lugar nenhum.

A mentira de que o Brasil é o país da impunidade anda de mãos dadas com aquela de que em um ‘país de mestiços’, não há racismo.

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