A ‘filha estuprada’, o ‘pombo enxadrista’ e outras lendas urbanas.

18 abr

three_stooges

É impossível – ou seria difícil de crer, no mínimo – que um pai ou mãe, diante de uma filha ou filho que fora violentada(o) sexualmente consiga manter intactos os fios de racionalidade.

Na verdade, deveria ser difícil que qualquer pessoa mantivesse intactos os fios de racionalidade diante de qualquer (outra) pessoa diante de tal situação.

A questão é: há uma pequena diferença entre dizer o que você faria em um caso desesperador e extremo como esse e a visão político-criminal que você possui em tempos de paz e razoabilidade mental.

Ou seja: em realidade, deve haver uma diferença entre o que é uma estratégia político-criminal humana (em todos os sentidos e em todas as frentes) e o que é o Estado agindo como uma pessoa alucinada e desesperada (entendendo que, de certa forma, isso, “o Estado”, existe justamente para não ser assim).

Pode parecer estranho, mas ao menos eu (e certamente outras pessoas há muito mais tempo) ‘respondo’ essa questão há (pelos meus cálculos) uns 14 anos: o que eu faria diante do choro da minha hipotética filha estuprada? Certamente perderia a razão – e ‘com razão‘. O problema é que para alguns o ‘debate’ termina exatamente aqui, sem seguir para um complemento indispensável: você quer que o sistema político, jurídico, legislativo e a conduta geral das pessoas no cotidiano comunitário e estatal seja full time como um pai desesperado de raiva? Será que não existem elementos legais e culturais que estão aí justamente para que não exista essa perda coletiva e constante de alguns parâmetros racionais?

Gozado que as pessoas utilizam um argumento (imageticamente forte, admitamos) absolutamente chinfrim como se fosse um trunfo campeão. Aliás, isso denota mais do que parece: como no poema modorrento (erroneamente atribuído a Brecth), o narrador ‘aconselha’ o ouvinte a se preocupar quando ‘levam’ os outros quase exclusivamente pelo motivo de que ele poderia ser o próximo em breve a ser ‘levado’.

Ou seja: em um raso e falso sentimento de ‘humanidade’, alguns ‘humanos direitos’ visualizam a vida como uma espécie de terra de ninguém onde o sujeito deve se preocupar e ter em conta apenas o fato de que deve procurar não dar vazão a qualquer coisa que possa talvez atingi-lo. Nada contra o sujeito querer ver o mundo como um amontoado de células egoístas cuja união e relação é apenas simbiótica e esporádica – desde que assuma essa postura, ao invés de travestir esse egoísmo de ‘preocupação’ com ‘o próximo‘.

Não costumo propagar ‘memes’ internéticos (acho que tem muita gente que já faz isso com competência e ânimo maiores), mas dia desses li algo engraçad(inh)o: o “Pombo Enxadrista” – a noção de que debater com algumas pessoas seria como jogar uma partida de xadrez com um pombo. Você pode estudar e realizar os movimentos mais estratégicos e dotados de projeções em relação ao jogo. Pelas tantas, o pombo vai revoar, derrubar todas as peças do tabuleiro, possivelmente defecar no próprio. E vai abandonar a partida crendo piamente que venceu.

Não se pode simplesmente excluir nenhuma opinião ou dado de qualquer debate em relação à política criminal. Porém, é interessante como certas pessoas ao longo dos tempos (e especialmente em relação à possibilidade ampla de manifestação que a internet propicia) simplesmente querem ser declaradas ‘vencedoras’ de um debate ignorando qualquer opinião que seja contrária ao senso comum raso ao qual sejam devotos.

Nesse aspecto, uma pessoa que estuda e trabalha com as questões atinentes, ao invés de ser vista com o respeito devido, é tido por um ‘adversário’ na ‘disputa’ que pode ‘atrapalhar’ a contenda com suas ‘bobagens’. Bom mesmo é reprisar fórmulas prontas e remédios antigos que mesmo que tenham um grau de fantasia visível em relação a muitos de seus elementos básicos, ajuda a confortar algumas mentes ainda tributárias do final feliz dos contos infantis.

Durante muito tempo pensei que algumas pessoas nunca tinham pensado a fundo e a sério nessas questões, mas hoje percebo que o medo ou a limitação fazem com que muita gente queira – por gosto – manter a conversa no nível ‘filha estuprada’.

(haja) Paciência.

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4 Respostas to “A ‘filha estuprada’, o ‘pombo enxadrista’ e outras lendas urbanas.”

  1. Chaiane Serrano 19/04/2013 at 8:02 #

    E outra, minha indignação aumenta quando certos “estudantes de direito” defendem ainda a pena de morte com o argumento: E se fosse a sua filha? Ignorando dessa forma, toda uma estrutura jurídica de punibilidade já existentente, nesses momentos eu me pergunto o que é que essa gente faz estudando Direito Penal. Realmente é como a história do pombo “Você pode estudar e realizar os movimentos mais estratégicos e dotados de projeções em relação ao jogo. Pelas tantas, o pombo vai revoar, derrubar todas as peças do tabuleiro, possivelmente defecar no próprio. E vai abandonar a partida crendo piamente que venceu”.

    • gabrieldivan 19/04/2013 at 9:15 #

      Pois sim, Chaiane: SEMPRE digo isso aos meus alunos no primeiro dia de aula – tenham a opinião que bem entenderem, mas que ela seja fruto de estudo, reflexão e ponderação de argumentos (BONS). Se for para reprisar o senso comum mais raso e ‘concordar’ diretamente com pessoas que acham que sabem automaticamente tanto quanto quem estuda, trabalha e se dedica, não há porque gastar tanto tempo e dinheiro em uma faculdade de direito.

  2. José Mourinho 22/04/2013 at 17:22 #

    ah…quantas vezes já ouvi essa da filha…

  3. José Mourinho 22/04/2013 at 17:25 #

    essa profusão de opiniões também se vê na música, innit?
    quem toca, ensaia, grava, se apresenta, vive disso, tem que aguentar “ecléticos” por todo lado.
    ecleticismo musical nada mais é do que ignorância.
    variedade é outra coisa: agora quero samba, agora quero jazz. mas quero Bezerra e Coltrane, e não Jeito Moleke e jazzistas cagados.
    é impossível conhecer, saber assistir futebol, p.ex., e achar o Messi mau jogador.
    agora vem tu defender o Molejão…
    abrazzz

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