Publicado por: gabrieldivan | 20/12/2011

DESESPERANÇA

No estranho verão do ano de 2000 do nosso senhor, em terras sulinas, um fato absolutamente inesperado a jamais dantes visto assombrou a programação das FMs e das noites e dos músicos de barzinho e das rodas de amigas e (suspeito eu) refestelaria os perfis e feeds das então inexistentes redes sociais – se houvessem: Djavan fora convertido em ídolo pop.

Djavan, você sabe, é aquele cantante alagoano que imortalizou “Oceano” (o canal Viva voltou a passar a novela Top Model, vocês viram?) e um bom punhado de canções sem nexo similares com temas intrigantes como “besouro“, “mosquito“, “açaí“, “samurai” e que conseguiu a proeza de tentar elogiar alguém dizendo que quando o deus altíssimo criou a pessoa ele provavelmente estaria inspirado a ponto de também criar, bem, os dinossauros.

Repentinamente, por ocasião do lançamento de um álbum ao vivo e duplo, Djavan de modo surpreendente ocupava todas as sintonias radiofônicas e televisivas, rareava nas prateleiras (as pessoas compravam discos em lojas, ainda, no longínquo ano em que o mundo acabaria por que os computadores estavam prontos para trabalhar com apenas dois dígitos, ou algo assim, não lembro agora) e fora até mesmo convidado como grande estrela do então festival (sic.) Planeta Atlântida.

A juventude linda – sobretudo feminina – que se esganiçava de braços para o céu entoando “Meu bem querer“, “Flor de Lis“, “(não sei o que não sei o que) Leonardo di Caprio” e cada uma das 24 músicas do disco posteriormente esqueceu Djavan (eu daria graças se as “modas” das radiolas não viessem numa escala descendente gritante a cada ano). Esqueceu mesmo. O substituiu, não apenas pela coqueluche ter arrefecido, mas simplesmente apagou da memória o cantor de “São Jorge por favor me empresta o Dragão” em prol de outros que ocuparam seu posto no ranking do preenchimento quase acéfalo e mecânico dos gostos musicais sazonais da massa.

Quando o ano iniciou, uma onda de manifestações no contrafluxo das pautas normais de países totalitários do oriente médio e do norte-africano eclodiu, de baixo para cima, e (muito) para os lados, pedindo (e ganhando, ma medida do possível) democracia, ou algo que a isso mais se assemelhe. Na Espanha, milhares de jovens em um arroubo sensacional “tomaran la plaza” para fazer política ao vivo. No Brasil, em imagens que envergonharam muitos dos membros do alto comando militar, manifestantes em prol da discussão da descriminalização do consumo das drogas apanharam sem dó da polícia paulista, que teve que engolir o próprio STF dando a eles o direito de protestar, posteriormente. E, lógico, não se pode deixar de mencionar a imensa massa humana que ocupou o núcleo da cidade mais nuclear da história do capitalismo para propor alterações estruturais no way of life econômico mais famoso do planeta.

Se no início do ano eu estava esperançoso do que tudo isso poderia resultar – especialmente do papel crucial das redes sociais internéticas nisso tudo – hoje vejo a coisa com especial descrença ao perceber o que se aproveita disso tudo num país jovem e continental como o nosso.

Os muitos “protestos”, “marchas” e até “flash mobsorquestrados (essencialmente orquestrados) no Brasil são reflexo de uma juventude que, como numa moda midiática tal e qual os “caras-pintadas” do início dos anos 90 e/ou como os sazonais fãs de Djavan, estão prontos a aderir a qualquer causa enquanto uma espécie de ‘hit’ passageiro.

Some-se a isso o profundo desgosto que percebo no Facebook, com a POBREZA argumentativa e a IMPRODUTIVIDADE dominando o teor das “indignações”: meu feed de notícias da rede – daquilo que eu AINDA não tive o prazer/NECESSIDADE de cancelar, é tomado diariamente por SELOS bobocas, piadas RUINS, analogias DEBILÓIDES e por uma série (mais recentemente) de pleitos de ESPANCAMENTO de supostos ESPANCADORES, MORTE de supostos ASSASSINOS e torturas góticas para pessoas que maltrataram animais.

A coisa é tão insana e baixa que tenho medo de me manifestar para com certos MENTECAPTOS, como se minha indignação fosse um atestado de que eu aprovo que uma cretina maltrate a esmo um cachorrinho.

Gosto de piadas. Gosto de humor non-sense e acredito que não é necessário viver com uma cara amarrada na vida para se sentir ultrajado pelo cruel e injusto mundo circundante. Não é a existência de ‘piadinhas’ o que me preocupa. É a conversão total de qualquer meio público de interação em um antro de piadinhas que, além disso, refletem uma escassez de referenciais tão grande quanto assustadora. O que uma pessoa genuinamente PERDE se desconectando das redes sociais, hoje, no Brasil? Falo, fico triste e dou importância porque acho que essas ferramentas são mais do que “sucessos de público e crítica” além de modismo. Acredito que as redes sociais (que já possuem vida, linguagem e elementos próprios de evidência, não similares sequer à linguagem das ruas, que por elas, aliás, vem sendo cada vez mais influenciada, num repuxo impressionante) poderiam significar muito.

Não se trata de apoteose nem nada do gênero. Apenas achava que a interação, a customização, a horizontalização e o nível de home-brew-ismo (inventei) das redes poderia proporcionar um modelo interessante de caminho contra-cultural.

Infelizmente no Brasil, a imbecilidade (que existe e existirá) não apenas está ali como sufoca qualquer tentativa de se fazer disso algo com um mínimo de seriedade. Ou de bom gosto.

Enquanto isso, quem for cool que vá migrando. Será que em 2013 estaremos reclamando de uma Facebookização do Google+?


Respostas

  1. Chega a dar uma canseira de ter que gritar contra uma multidão de surdos…mas que seja até a rouquidão! Belo texto comandante!

  2. Ahhh…que beleza ler isso.
    Sempre detestei Djavan, e tu citou exatamente o pior verso que ele compôs, o do dragão. Gratificante.
    Sobre hits sazonais e a adesão imediata dos trouxinhas de repolho, nem vou liberar a verborragia – seria chover no molhado.
    E sobre redes sociais, nem se fala. Eu não tô em nenhuma, e não tenho sensação alguma de perda.
    Talvez fosse bom ter Twitter para acessar o @radarblitzPOA. E só.
    Amém.

    Abraços

    • Cara, não sei realmente se se perde muito mesmo…(quem diria eu falar isso).

      PS: a última frase, sobre o radarBlitz foi tu no AUGE da ironia. Deveria ter um Twitter para eu ler mais dessas, isso sim.

  3. Gostei do texto.

    Acho que existe uma euforia sobre a internet como se ela fosse um mundo à parte e não parte do próprio mundo. Ela o reflete; é parte sistêmica dele, apenas isso.

    Não sei se o que se faz nela no Brasil difere muito do que se faz nela noutros países, porém intuo que seja tão parecido quanto são todas as ruas, os prédios, as músicas, as lojas, os best-sellers nas livrarias, os fast-foods, as roupas, ao menos ocidentais.

    As redes sociais não me parecem a ágora. Parecem um dos canais publicitários mais interessantes do momento. Algumas pessoas utilizarem para dizer algo que vá além da mediocridade cotidiana, para alguma crítica, para alguma discussão política realmente inteligente, é a exceção.

    Acho que a gente não pode se iludir a respeito como se ela fosse uma tábua de salvação. Há que se perceber que a internet não pode ser a ágora de uma pólis imaginária e inexistente, basicamente.

    • SIm :( minha tristeza vem em muito do constatar que nao se trata de uma “Ágora” m* nenhuma.

      Sim, eu, empolgado, me iludia nesse sentido. Procuro fazer a minha parte para o meu cantinho nessa ilha ser uma “Agorinha”:)

      • “a ágora de uma pólis imaginária e inexistente, basicamente”, são ditos poéticos e pernósticos, pra dizer o mínimo.
        é só um blog bem escrito, Ninfa Dello Lamento.
        e bem comentado.

  4. “Os muitos “protestos”, “marchas” e até “flash mobs” orquestrados (essencialmente orquestrados) no Brasil são reflexo de uma juventude que, como numa moda midiática tal e qual os “caras-pintadas” do início dos anos 90 e/ou como os sazonais fãs de Djavan, estão prontos a aderir a qualquer causa enquanto uma espécie de ‘hit’ passageiro.”

    Não concordo com essa passagem, acho que fostes injusto, bem injusto, com muito do que aconteceu este ano e sobretudo com quem participou do que aconteceu este ano. Se participares de uma Massa Crítica – para mim o movimento mais importante que aconteceu em Poa em 2011 – perceberás que a analogia com patricinhas que a cada verão curtem um hit bizarro é completamente inadequada.

    • Quando eu falei nao levei em conta os movimentos que considero TRUE, como por exemplo a Massa e a Marcha da Maconha. Falava a respeito de alguns movimentos “CONTRA” a corrupcao e alguns “revoltados” de ocasiao que borbulham no Facebook.

  5. Gabi, é mais fácil aprender japonês em braile, do que você decidir se dá ou não


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