Publicado por: gabrieldivan | 27/01/2012

BORRACHA

Nunca fui a favor de invasões de terras (lato sensu) porque praticamente em todas que já vi noticiadas havia um forte componente de rinha/inimizade político-partidária local envolvida.

O problema está no fato de que (chuva no molhado mode on) em um país gigantesco onde paradoxalmente pessoas passam fome, a reforma agrária é sim um imperativo (chuva no molhado mode off). PS: é plausível discutir a questão de que isso é algo contraditório dito por quem possui mais de uma propriedade imobiliária em seu nome (ao menos na minha opinião). Agora, por favor: se você faz parte da grossa massa de engolfados pelo imaginário de que em 1989, em caso de vitória Lulista, você teria que DOAR seus pares de tênis sobrando ao Estado e coisas do tipo, faça um favor – não perca seu tempo  querendo discutir comigo – eu CERTAMENTE não perderei o meu.

O problema, aliás, é o fato de que em contrapartida à reforma agrária como medida urgente ou à distribuição forçada por atos invasivos, o governo (os governos, todos governos, sucessivamente) apontam para uma revorma agrária ideal e platônica, que assim como ‘a revolução’ ou ‘JESUS’ um dia “vão chegar”. Sei. Sabemos.

Mais grave que tudo isso, aliás, é a incoerência de um povo, uma opinião pública ‘revoltada’ que ‘odeia’ políticos inescrupulosos, grandes tubarões do mercado financeiro anti-éticos, mega-empresários que fatiam o patrimônio público privatizado com tapinhas nas costas e favores ilícitos, mas que, paradoxalmente, está sempre pronta para defender a lei e a ordem que – curioso – sempre e somente agem em favor dos mesmos.

Dos mesmos LITERALMENTE, no caso de Naji Nahas (eu nasci em 1979, não preciso de explicações quanto a QUEM É esse sujeito e QUAIS SÃO seus ‘hábitos’. Caso você não saiba, sugiro rápida pesquisa).

Havia pessoas – trabalhadores, famílias, crianças, idosos –  morando (do ponto de vista formal, sim, ilegalmente) no Pinheirinho? Correto, há mais de uma década. É preciso, contudo, desapropriar a área para “devolvê-la” ao uso de seu dono, segundo as autoridades.

Que alguns cães de guarda da elite paulista e a truculenta PM local entrem matando e baixando a porrada nos moradores isso tristemente já não é novidade para ninguém. Agora que muitas pessoas aplaudam e vibrem com a violência estatal para com sua própria população – e paralelamente se perfilando com Nahas e tantos outros que SUGAM esse mesmo povo, e todos nós, há anos, é um pouco demais para minha cabeça.

Na hora de apoiar o povo ainda que contra a lei tem gente que não apenas não questiona (bem pior do que refletir e chegar à conclusão de que a PM está correta) o ato de poder como ainda por cima vibra como se a propriedade, ainda mais do Naji Nahas, pudesse se sobrepor às pessoas que de uma hora para outra, por interesses especulativos, perdem o lar em que moram.

Enfim.

Daí que o glorioso ‘presidente’ Paulo me envia esse curioso e impactante link via mensagem privada no Facebook sobre o espancamento de dois supostos assaltantes no Maranhão. O espancamento de assaltantes é medida que é apoiada (ou seria em tese apoiada), por grandessíssima parcela da população que não vê correção nem celeridade na “justiça” e que acredita que o povo tem de tomar por si as rédeas da situação, “lidando” com aquilo que as instituições públicas não tem tempo, vontade ou competência para debulhar. Não sei se apenas vocês acham que o conceito médio do brasileiro de “se revoltar” é meio distorcido e precisa de uma certa regulagem na oficina.

Que semaninha tinhosa.

Publicado por: gabrieldivan | 21/01/2012

C:\ Coração

NUNCA fui muito bom com despedidas. Tanto que minha mãe sempre conta que ao final da projeção do filme “E.T., o Extraterrestre” no cinema (ali por 1647…) eu passei a gritar e reclamar ao final da sessão, uma vez que era difícil para mim porque aquele bicho estranho e adorável deveria aparecer na minha vida pelo tempo suficiente para me cativar, voar no cestinho de uma bicicleta e depois sumir, assim, de repente, numa nave espacial.

 

Ser PARANINFO é, entre outras tantas coisas (essas, inteiramente boas), se despedir. A despedida do paraninfo, no entanto, é especial: ela vem repleta de significados que evocam um rito de passagem com uma simbologia imemorial. O professor, o conselheiro, o amigo que, mais adiantado, concede a última lição dos aprendizes enquanto tais.

 

Ser PARANINFO, no entanto, é uma despedida tenra: é a coroação do esforço e do trabalho dos aprendizes que sob seus olhos foram galgando mais e mais degraus.

 

Que a despedida de hoje à noite seja meramente protocolar, que seja meramente a marca institucional (apenas) de dois espaços burocráticos que jamais nos separem enquanto amigos, por inteiro.

 

PARABÉNS aos meus queridos afilhados. O que nos separa de uma baita festa é apenas uma cerimônia, algumas togas. E alguns discursos! Até mais tarde!

Publicado por: gabrieldivan | 11/01/2012

Yes, we can.

Foto: Jewel Samad/AFP

ONTEM foi realizado um interessante protesto (confira) pelo “aniversário” de 10 anos da existência “oficial” de algo que em meio à dita/sedizente “maior democracia do planeta” é no mínimo estranho: um CAMPO DE CONCENTRAÇÃO.

A inexplicavelmente surreal “Base” de Guantánamo – um território que não é tecnicamente pertencente a “país algum” em meio a uma área em Cuba que os estadunidenses “controlam” de fato e que Cuba alega não controlar “de direito” – é isso, ao fim e ao cabo: um campo de concentração nos moldes do Século XXI.

Vou poupar vocês de um cabedal de explicações e teses sobre a existência desse TROÇO, em si – muita gente já fez mais e melhor no quesito. Apenas quero ressaltar algumas coisas sobre as vindouras eleições presidenciais USA:

em 2008, se norte-americano fosse, eu teria, sim votado em Obama; eu faria campanha para Obama; eu ficaria feliz com a idéia de que em um dos países MAIS RACISTAS do globo terrestre um homem de cor escura chegou ao posto máximo do governo federal.

Mas eu JAMAIS me iludi quanto a uma coisa: Obama é ‘big stick’ como todo e qualquer político daquele rincão. Diante da euforia mundial que tinha em Obama uma espécie de messias do pacifismo, a única coisa que pude dizer foi: “É uma fraude“.

Obama foi cauteloso (pejorativamente, ao estilo Celso Rothiano) quanto a TODAS as questões cruciais que levaram os Black Eyed Peas, Eddie Vedder, o REM e a centenas de milhares de pessoas em toda Terra a crer que nas quais ele seria incisivo.

A economia mostra falhas e Obama se enfraquece. Os republicanos se MATAM entre si para a escolha do oponente e se enfraquecem também. Não sei quem ganha. Eu sei que quem ganhar vai seguir em última e aguda análise defendendo os interesses da “América para os Americanos”, com a diferença de ser mais tosco e explícito no quesito, ou mais disfarçadamente silente e cool.

O campo de concentração segue, lá.

Publicado por: gabrieldivan | 30/12/2011

Tudo o que você precisa

GOSTO (admito) do misticismo e das mandingas da virada da meia noite do 31.

Mas não se pode esquecer que o misticismo quem faz – também – somos nós, eis que é dentro de nós mesmos que ele produz (e pode produzir) efeito: a data do dia 31 de Dezembro é apenas um numeral convencionado e inventado pelos homens. Não é de números que depende qualquer magia.

Não faça promessas infundadas como se esses números conferissem um ‘poder’ extra à maior das energias que é o AMOR que você carrega em si. Não prometa na virada. Prometa (e cumpra) a todo instante. Um novo ciclo se inicia a cada manhã, independentemente do dia ou mês do ano.

Em 2012 REVOLUCIONE. Diariamente.

São meus votos. Uma feliz entrada de ano a todos. Beijos. Paz.

Publicado por: gabrieldivan | 20/12/2011

DESESPERANÇA

No estranho verão do ano de 2000 do nosso senhor, em terras sulinas, um fato absolutamente inesperado a jamais dantes visto assombrou a programação das FMs e das noites e dos músicos de barzinho e das rodas de amigas e (suspeito eu) refestelaria os perfis e feeds das então inexistentes redes sociais – se houvessem: Djavan fora convertido em ídolo pop.

Djavan, você sabe, é aquele cantante alagoano que imortalizou “Oceano” (o canal Viva voltou a passar a novela Top Model, vocês viram?) e um bom punhado de canções sem nexo similares com temas intrigantes como “besouro“, “mosquito“, “açaí“, “samurai” e que conseguiu a proeza de tentar elogiar alguém dizendo que quando o deus altíssimo criou a pessoa ele provavelmente estaria inspirado a ponto de também criar, bem, os dinossauros.

Repentinamente, por ocasião do lançamento de um álbum ao vivo e duplo, Djavan de modo surpreendente ocupava todas as sintonias radiofônicas e televisivas, rareava nas prateleiras (as pessoas compravam discos em lojas, ainda, no longínquo ano em que o mundo acabaria por que os computadores estavam prontos para trabalhar com apenas dois dígitos, ou algo assim, não lembro agora) e fora até mesmo convidado como grande estrela do então festival (sic.) Planeta Atlântida.

A juventude linda – sobretudo feminina – que se esganiçava de braços para o céu entoando “Meu bem querer“, “Flor de Lis“, “(não sei o que não sei o que) Leonardo di Caprio” e cada uma das 24 músicas do disco posteriormente esqueceu Djavan (eu daria graças se as “modas” das radiolas não viessem numa escala descendente gritante a cada ano). Esqueceu mesmo. O substituiu, não apenas pela coqueluche ter arrefecido, mas simplesmente apagou da memória o cantor de “São Jorge por favor me empresta o Dragão” em prol de outros que ocuparam seu posto no ranking do preenchimento quase acéfalo e mecânico dos gostos musicais sazonais da massa.

Quando o ano iniciou, uma onda de manifestações no contrafluxo das pautas normais de países totalitários do oriente médio e do norte-africano eclodiu, de baixo para cima, e (muito) para os lados, pedindo (e ganhando, ma medida do possível) democracia, ou algo que a isso mais se assemelhe. Na Espanha, milhares de jovens em um arroubo sensacional “tomaran la plaza” para fazer política ao vivo. No Brasil, em imagens que envergonharam muitos dos membros do alto comando militar, manifestantes em prol da discussão da descriminalização do consumo das drogas apanharam sem dó da polícia paulista, que teve que engolir o próprio STF dando a eles o direito de protestar, posteriormente. E, lógico, não se pode deixar de mencionar a imensa massa humana que ocupou o núcleo da cidade mais nuclear da história do capitalismo para propor alterações estruturais no way of life econômico mais famoso do planeta.

Se no início do ano eu estava esperançoso do que tudo isso poderia resultar – especialmente do papel crucial das redes sociais internéticas nisso tudo – hoje vejo a coisa com especial descrença ao perceber o que se aproveita disso tudo num país jovem e continental como o nosso.

Os muitos “protestos”, “marchas” e até “flash mobsorquestrados (essencialmente orquestrados) no Brasil são reflexo de uma juventude que, como numa moda midiática tal e qual os “caras-pintadas” do início dos anos 90 e/ou como os sazonais fãs de Djavan, estão prontos a aderir a qualquer causa enquanto uma espécie de ‘hit’ passageiro.

Some-se a isso o profundo desgosto que percebo no Facebook, com a POBREZA argumentativa e a IMPRODUTIVIDADE dominando o teor das “indignações”: meu feed de notícias da rede – daquilo que eu AINDA não tive o prazer/NECESSIDADE de cancelar, é tomado diariamente por SELOS bobocas, piadas RUINS, analogias DEBILÓIDES e por uma série (mais recentemente) de pleitos de ESPANCAMENTO de supostos ESPANCADORES, MORTE de supostos ASSASSINOS e torturas góticas para pessoas que maltrataram animais.

A coisa é tão insana e baixa que tenho medo de me manifestar para com certos MENTECAPTOS, como se minha indignação fosse um atestado de que eu aprovo que uma cretina maltrate a esmo um cachorrinho.

Gosto de piadas. Gosto de humor non-sense e acredito que não é necessário viver com uma cara amarrada na vida para se sentir ultrajado pelo cruel e injusto mundo circundante. Não é a existência de ‘piadinhas’ o que me preocupa. É a conversão total de qualquer meio público de interação em um antro de piadinhas que, além disso, refletem uma escassez de referenciais tão grande quanto assustadora. O que uma pessoa genuinamente PERDE se desconectando das redes sociais, hoje, no Brasil? Falo, fico triste e dou importância porque acho que essas ferramentas são mais do que “sucessos de público e crítica” além de modismo. Acredito que as redes sociais (que já possuem vida, linguagem e elementos próprios de evidência, não similares sequer à linguagem das ruas, que por elas, aliás, vem sendo cada vez mais influenciada, num repuxo impressionante) poderiam significar muito.

Não se trata de apoteose nem nada do gênero. Apenas achava que a interação, a customização, a horizontalização e o nível de home-brew-ismo (inventei) das redes poderia proporcionar um modelo interessante de caminho contra-cultural.

Infelizmente no Brasil, a imbecilidade (que existe e existirá) não apenas está ali como sufoca qualquer tentativa de se fazer disso algo com um mínimo de seriedade. Ou de bom gosto.

Enquanto isso, quem for cool que vá migrando. Será que em 2013 estaremos reclamando de uma Facebookização do Google+?

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